GERINDO A IRA DIVINA – 3
FINAL DO TEXTO ANTERIOR:
Como designar então uma cultura que apenas recorre ao imperativo em circunstâncias extremas, que dá prioridade ao imediato desprezando ideais, que tem o hedonismo como um bem, que deixa a moral e a ética ao sabor do improviso mediático e, eventualmente, de interesses escondidos? Resposta múltipla: laxista, imediatista, hedonista, amoral, aética e talvez mesmo corrupta.
Mas há mais...
* * *
Cortados os laços que ligavam o homem comum à fé e seus mandamentos, tomado o livre arbítrio como direito indiscutível, finado o dever, resta a consciência moral como última «ferramenta» para trazer ao bom comportamento social os agnósticos, ateus e outros que também não temam a ira divina.
Mas não se pode pressupor que qualquer pessoa saiba no que consiste a consciência moral. Expressão ambígua, tem sido definida de múltiplas maneiras ao longo dos séculos tais como «o juízo da razão acerca do justo e do injusto» (S. Tomás de Aquino), «a expressão da razão moral» (Kant), «a voz da natureza que deseja ou valoriza» (Theodor Lipps), «o espírito da raça» (Leslie Stephen) e até como «a sensação dolorosa consequente à violação do dever» (John Stuart Mill); e se Nietzsche a comparou com um «rabo-de-cavalo conceptual que os nossos avós usavam na parte posterior da cabeça», os psicanalistas consideraram-na como «potencialmente doentia» e tentaram interpretá-la como a «voz do pai em nós» ou como «um espião que a sociedade implantou no nosso cérebro».
E sendo ela o que for dentre estas ou outras definições, só piorando o cenário, os Partidos políticos, os Sindicatos e os fazedores de opinião pagos a peso de ouro pelos lobbies da comunicação social, conjugam esforços para lhe coarctarem a liberdade.
Pobre última «ferramenta» que começa por não saber quem é nem de que espaço de manobra dispõe.
Como sair deste atoleiro?
Começando por saudar os que têm uma fé que os oriente (com ou sem temor da ira divina), centremo-nos nos outros, os intimoratos.
E se os grandes pensadores divergem na definição dessa última bóia de salvação social, a consciência moral, deixemo-nos de confabulações transcendentais e assentemos em algo mais prosaico: a consciência moral é a resposta da nossa natureza mais íntima a uma situação concreta à qual se encontra ligada uma decisão moral que tem de se procurar ou já foi encontrada.
Mas a consciência moral só pode gerar-se desde que existam regras e leis éticas. E aqui entramos num torvelinho – «o que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?» – que não podemos deixar que se transforme numa indeterminação. Transformemo-lo então numa relação biunívoca de tal modo que os valores morais se relacionem directamente com factos éticos e estes com valores morais.
Não existem modelos perfeitos mas a civilização ocidental assenta seguramente nas orientações do Decálogo e na valorização suprema da dignidade humana cujo conceito básico é o de que a pessoa é um fim em si mesma. E é mesmo neste conceito que se fundamenta o artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos do Homem – «Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos; dotados de razão e consciência devem viver uns com os outros em espírito de fraternidade».
E se este é o fundamento da actividade legislativa da comunidade internacional no âmbito duma macroética, então – inspirados em Hamlet – tenhamos esperança de que afinal nem «tudo vá mal no Reino da Dinamarca».
E a nível individual?
Já lá vamos...
Janeiro de 2014
BIBLIOGRAFIA:
ÉTICA, Fritz Heinemann, in A FILOSOFIA NO SÉCULO XX, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 7ª edição, 2010, pág. 431 e seg.
OS VALORES NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA, Maria Rosa Afonso e Maria de Lourdes Magalhães Oliveira, in BROTÉRIA, Dezembro de 2013, pág. 479 e seg.

