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A bem da Nação

GERINDO A IRA DIVINA – 2

 

 

 

FINAL DO TEXTO ANTERIOR:

Num cenário global pós modernista e hedonista, o abandono dos parâmetros sociais inculcados pelas religiões acabou com a cultura do dever, entronizou o livre arbítrio, facilitou a amoralidade e desprezou a ética.

Mas terá sido mesmo assim?

 

* * *

 

Sim, todos somos testemunhas de que a persistente secularização desparametrizou a sociedade e nos afastou muito de conceitos tão importantes como o bem comum.

 

Teria então o bem comum uma génese divina? Terá o dilúvio submergido efectivamente o homem depois da morte de Luís XV de França? Teria Karl Popper razão quando formalizou o desespero com a conclusão (por ele próprio desmentida) de que «então resta-nos ir para o Inferno»?

 

A partir das Luzes, nasceu a ambição de lançar uma moral independente dos dogmas religiosos, que não recorresse a qualquer revelação e em que a ameaça da ira divina não pendesse sobre os incumpridores. A moral, questão dos princípios, deveria laicizar-se; a ética, questão dos factos, deveria profissionalizar-se. Grosso modo, este processo desenvolveu-se entre 1700 e 1950.

 

 Immanuel Kant

 

Os primeiros liberais idealizaram a obrigação moral definindo com excepcional gravidade os deveres do homem, impondo normas austeras na vida privada e mantendo o conceito de dever absoluto perante uma dívida infinita para com a sociedade. Recordemos o Imperativo Categórico de Kant (1724 – 1804): «Age como se a máxima de tua acção devesse tornar-se uma lei universal». A pureza do dever a contrariar a licenciosidade dos direitos individuais do agnóstico e do ateu, a consolidação da Nação pela via da unidade moral da sociedade laica elevando o ideal ético, enaltecendo o sacrifício da pessoa no altar da família, da pátria ou da História. Tudo, como uma autêntica religião do dever laico.

 

Mas a partir de meados do século XX, entrou em funcionamento um novo processo de secularização: abandono da afirmação de que a ética e as religiões deviam gravitar em órbitas independentes e, mais drasticamente, negação das religiões e dissolução do dever. Eis a idade do pós-dever.

 

Pela primeira vez se chega a uma sociedade que ignora os mandamentos superiores, desvaloriza a abnegação, estimula os desejos imediatos, define o ego como o centro e pugna pela felicidade intimista e materialista.

 

As democracias vacilam num cenário além-dever, pós moralista e procuram gerir a crise com base numa ética minimalista, sem obrigação nem sanção; a liberdade correndo o risco de se transformar em libertinagem; a democracia em risco de se ver substituída por alguma forma de autocracia.

 

Como designar então uma cultura que apenas recorre ao imperativo em circunstâncias extremas, que dá prioridade ao imediato desprezando ideais, que tem o hedonismo como um bem, que deixa a moral e a ética ao sabor do improviso mediático e, eventualmente, de interesses escondidos? Resposta múltipla: laxista, imediatista, hedonista, amoral, aética e talvez mesmo corrupta.

 

Mas há mais...

 

Janeiro de 2014

 

 Henrique, Budapeste.jpg Henrique Salles da Fonseca

 

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

O CREPÚSCULO DO DEVER, Gilles Lipovetsky, ed. D. QUIXOTE, 4ª edição, Maio de 2010

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