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A bem da Nação

«FANIE»

 

Canez, a fala dos cães.

O Sô Manel é o cego da aldeia. Cegou já adulto tardio, está reformado com modesto conforto. Embarcadiço que foi, conheceu o mundo mas, agora, o seu mundo é a aldeia e, mesmo assim, nem toda – fica-se pelo parque central e respectivos limites pois mora do lado sul e o café a que vai diariamente fica no do norte. Não lhe conheço família mas pelo modo como veste, adivinho que tenha quem por ele veja e dele cuide – um cego não acerta nas cores nem engoma correctamente os vincos da roupa. Mas o que mais dá para ver na sua indumentária é o boné. Deve ter sido comprado nalgum porto inglês e estou mesmo a imaginar um Lord britânico gorducho e de grande bigodaça à caça do «famoso grouse» debaixo de um boné daqueles. Mas o Sô Manel não caça e limita-se a tomar um café simples, sem «mosca»[i] nem outros baptismos.

O seu luxo era «Fanie», a cadela guia que o levava de casa ao café e de volta[ii].

Preta, raça Labrador, de meia idade, bem tratada, lembrava-me o tal Lord da bigodaça, estava gorducha.  O seu trabalho diário limitava-se a conduzir o dono ao café e volta numa distância total de menos de trezentos metros. O resto do tempo passava-o a comer, a dormir e a fazer mimos ao dono. Pouco se mexia e o Sô Manel achava que a cadela estava a ficar farta daquela vida, vida estúpida para qualquer cão. E começou a pensar que não tinha o direito de submeter a cadela a tanta desmotivação. Pensou soltá-la no parque mas logo imaginou a canzoada labrega da aldeia à volta dela a tentar indecências na via pública e afastou a ideia. A «Fanie continuava a usar o quintal da casa para as suas precisões.  E de ideia em ideia, foi rejeitando todas as hipóteses sem descortinar uma que lhe agradasse e pudesse dar alguma alegria
a sua amiga. Sentia que a neura avançava pela vida da «Fanie» e desesperava-se com tentar retribuir a bondade da cadela. Ele não se dava ao direito de causar neura a quem só lhe fazia bem. E tomou a decisão: devolveria a «Fanie» à escola dos cães-guia se lhe garantissem que ela ficaria como «mestra» dos cães alunos e que não voltaria a ser submetida a um suplício neurótico a guiar algum cego de mau feitio. Ele próprio havia de se desenrascar sem guia. Já conhecia bem o caminho, tinha um ou outro ponto de referência pelo tacto, contava os passos, ia libertar a cadela.

Telefonou para a escola, obteve a garantia que pediu, combinaram a data e a hora em que estariam na esplanada do café para a «Fanie» regressar à sua origem dos tempos infantis.

Nessa tarde, como sempre, lá foram até à esplanada mas a certa altura, o Sô Manel ouve vozes desconhecidas e sente a cadela a mudar de rumo. Assusta-se e grita: -Fanie, Fanie, para onde vais que me desgraças? Mas logo uma das tais vozes desconhecidas lhe disse que não havia perigo, que o cão estava a desviar-se das obras que estavam a fazer no passeio para os carros não voltassem a estacionar ali e os peões pudessem deixar de andar na estrada.

-  E logo isto havia de acontecer no próprio dia em que combinei mandar a «Fanie» embora! – cogitava o Sô Manel  - Isto tem mensagem… deixa cá compensar o pobre animal pelo berro que lhe dei. – e assim foi que, chegados à esplanada, para além do seu café, encomendou um «bolo de arroz» para a sua amiga. Esta, gulosa, tragou-o num instante quase não dando tempo de abanar o rabo. Vai daí, regressou a rotina e, com ela, o seu par, o tédio. E a sempre presente paciênte bondade de «Fanie» com a mão mole do dono ao longo do dorso numa festa suave…

Até que chegou o dia combinado para a cadela mudar de vida.

Estranhamente, o dono metera quase todos os seus brinquedos (todos menos um dos mais pequenos) num saco grande de supermercado. Não percebia o que se estava a a passar mas lá cumpriu a sua missão até ao outro lado do parque. Lenta, paciente e bondosamente (sem bulhas com gentes nem cães), chegaram à esplanada, tomaram café e «bolo de arroz» sem perceber mas sem perguntas e ali ficaram com as pessoas do costume a dizerem as baboseiras do costume mas o saco dos brinquedos e o «bolo de arroz»…???

Foi então que chegou um carro com o escrito «Escola de cães-guia» que parou ali mesmo à frente. Um rapaz e uma rapariga apearam.se e, mesmo antes de cumprimentarfm o Sô Manel, a rapariga pôs um joelho no chão em frente da «Fanie», afagou-he a cabeça com as mãos por baixo das orelhas, deu-lhe uma pequena turra testa com testa, disse qualquer coisa e a cadela, como só as «mulheres»  sabem fazer, emitiu um gorjeio que toda a gente percebeu ser um choro de felicidade. Era a sua antiga dona nos tempos em que era cachorrinha. O rapaz deu-lhe uma bolacha daquelas de que os cães mais gostam e só então disseram ao Sô Manel que já ali estavam. Cumprimentos feitos, palavras de circunstância, troca dos documentos da identidade da cadela e despedidas rápidas. Ao Sô Manel tremeu-se-lhe o queixo, formou-se-lhe uma bola na garganta, engoliu um soluço e estendeu a mão para afagar o dorso da sua amiga preta mas a cadela já lá não estava. À janela traseira do carro, a «Fanie» sorria como só os cães felizes sabem sorrir.

O Sô Manel ainda sibilou «Fanie, Fanie», meteu a mão no bolso e afagou o pequeno brinquedo que cativara à sua amiga.

Na esplanada fez-se silêncio e naquele dia os donos do estabelecimento ofereceram o café e o «boço de arroz». É que, por ali, todos sabem que em canez, bondade se diz «Fanie».

~

Setembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

NOTA FINAL – Esta história é quase verdadeira; a fronteira com a fantasia situa-se onde o leitor quiser

 

[i] - Vinho moscatel de Setúbal

[ii] - Sugiro a quem ne lê que não se assuste com o tempo pretérito da frase

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