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A bem da Nação

EUROPA, EUROPAS

 

 

Em Cascais, ao pôr-do-Sol, dois amigos de recente data percorriam paulatinamente o Passeio Dª Maria Pia em direção à Praia do Peixe. A temperatura baixara como ali é habitual nas tardes primaveris e, como também é habitual, o Sol despedia-se retocando com lampejos mágicos de folha de ouro os contornos das nuvens sobre o azul puro do céu. O mar, como tudo o mais, respirava calma.

 

- A Europa está doente, dizia um dos passeantes. - A Alemanha está entalada entre os EUA, a China e a Rússia. Toda a estratégia europeia está subordinada a este sufoco. E continuava - Eu sou europeu, com muito gosto e não quero perder essa qualidade. Gosto dos monumentos europeus, dos castelos, das catedrais, das grandes universidades recolhidas nos seus campus, deleito-me com a música divina que nasce nas florestas alemãs, enfim encanta-me a cultura deste continente que também é a nossa. Detesto as Américas feitas de vulgaridade e hipocrisia. Aqui é diferente. Na Europa há o culto da excelência e o respeito pela verdade.

 

O seu companheiro atalhou:

 

- Será talvez, mas nós aqui em Portugal não tivemos Lutero, nem Calvino e nunca assimilamos Hegel e Kant. Não partilhamos a ideia de que o destino da razão seja produzir uma vontade boa em si e sobre ela construir a ordem do Universo. Ficámos apegados á vontade intuitiva de que falavam os nossos régios antepassados e assim descobrimos que o mundo é complexo, rico de variedade e pormenores e não se conforma com explicações singelas. Fernão Mendes Pinto ensinou-nos contudo que no mundo dos homens o impulso tímico marca o ritmo e dá unidade à diversidade. Desculpe meu caro amigo, não consigo sentir-me europeu à sua maneira. F. Pessoa chamou-nos a face da esfinge que mira o Atlântico. O poeta estava certo - como os poetas estão - não devemos contudo esquecer que a Europa tem outra face - a que mira o Leste e por ali fora. Para os de lá, as duas faces não se completam: excluem-se. Nós contamos pouco ou nada para os Alemães. Os de cá, às exclusões preferem as inclusões. Para os EUA já, - e para o Brasil, daqui a uns tempos -, somos relevantes. Compete-nos pois manter as portas abertas e firmes os laços.

 

O europeísta não se deu por convencido.

 

- Os alemães têm grande influência no mundo e nós nenhuma temos, replicou.

 

- Não concordo, responde o atlantista. Nós soubemos criar espaço e eles nunca o conseguiram fazer. Você mesmo constatou este facto quando disse «a Alemanha está entalada». Estou errado?

 

O diálogo foi subitamente interrompido porque alguém na praia saltou para a água e logo emergiu para nadar atabalhoadamente para terra onde chegou a tiritar de frio. O banhista era loiro, de olho azul. O atlantista comentou: 

 

- Vê, esta gente nem sequer sabe que o Atlântico é frio. Eles não procuram conhecer o meio. Estão convictos que o meio lhes obedecerá.

 

 Luís Soares de Oliveira

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