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A bem da Nação

ESCRITORES QUASE ESQUECIDOS - 4

VIRIATO DA CRUZ

 

Viriato da Cruz.png

 

NAMORO

 

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado

E com a letra bonita eu disse ela tinha

Um sorrir luminoso tão quente e gaiato

Como o Sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas

Espalhando diamantes na fímbria do mar

E dando calor ao sumo das mangas.

 

Sua pele macia - era sumaúma...

Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas

Tão rijo e tão doce - como o maboque...

Seus seios laranjas - laranjas do Loge

Seus dentes... - marfim...

Mandei-lhe uma carta

E ela disse que não.

 

Mandei-lhe um cartão

Que o Maninjo tipografou:

"Por ti sofre o meu coração"

Num canto - SIM, noutro canto - NÃO

E ela o canto do NÃO dobrou.

 

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete

Pedindo rogando de joelhos no chão

Pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,

Me desse a ventura do seu namoro...

E ela disse que não.

 

Levei à avó Chica, quimbanda de fama

A areia da marca que o seu pé deixou

Para que fizesse um feitiço forte e seguro

Que nela nascesse um amor como o meu...

E o feitiço falhou.

 

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,

Ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,

Paguei-lhe doces na calçada da Missão,

Ficamos num banco do largo da Estátua,

Afaguei-lhe as mãos...

Falei-lhe de amor... e ela disse que não.

 

Andei barbado, sujo, e descalço,

Como um mona-ngamba.

Procuraram por mim

" - Não viu... (ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"

E perdido me deram no morro da Samba.

E para me distrair

Levaram-me ao baile do sô Januário

Mas ela lá estava num canto a rir

Contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário

 

Tocaram uma rumba dancei com ela

E num passo maluco voamos na sala

Qual uma estrela riscando o céu!

E a malta gritou: "Aí Benjamim!"

Olhei-a nos olhos - sorriu para mim

Pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

 

 

In No reino de Caliban II - Antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa

 

* * *

 

Viriato Francisco Clemente da Cruz foi um político e escritor angolano.

Nascimento: 25 de Março de 1928, Porto Amboim, Angola

Morte: 13 de Junho de 1973 (45 anos), Pequim, China

Nacionalidade: Angolano

Partido: Movimento Popular de Libertação de Angola

Livros: Obra poética

Wikipédia

 

Viriato da Cruz era angolano (mulato) e, para combater os portugueses, aliou-se aos chineses cuja «democracia» lhe desagradou e criticou. Em resultado dessas críticas e já exilado na RPC, viu a sua própria liberdade condicionada (vulgo, foi preso) e sujeito a tais maus-tratos que acabou por morrer. Por ter optado pelo comunismo chinês, foi politicamente ostracizado por Agostinho Neto que tudo fez para o banir do MPLA em prol da opção soviética (russa). Ou seja, Viriato da Cruz foi cilindrado pela luta fratricida entre a URSS e a China comunista. Mas isso não obsta a que seja lembrado como poeta da língua portuguesa.

Para saber mais, ver por exemplo em

https://pt.wikipedia.org/wiki/Viriato_Clemente_da_Cruz

 

 

 

Lisboa, 1 de Dezembro de 2018

Barril-2SET18 (3).jpg

Henrique Salles da Fonseca

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