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A bem da Nação

ERA UMA VEZ...

 

Na Europa, na África, na América...

 

Nada existe melhor do que uma fofoca. Ou mais... Sem dizer mal de alguém, só para início de conversa.

 

O que vem a seguir, foi divulgado, entre amigos, no livro “Contos Peregrinos a Preto e Branco”, de 1998, escrito, com vagar, desde alguns anos antes, até ter tido a coragem de juntar tantas “Estórias com História”.

 

Quem leu o livro já conhece as histórias, quem não conhece, aproveite as fofocas.

 

* * *

 

Esta língua portuguesa é complicada. Em Portugal, e só dentro das suas pequeninas fronteiras, já é complicadíssima. Quando entram outros países chamados lusófonos, torna-se então um labirinto.

 

Não precisamos ir muito longe para nos baralharmos. Basta uma simples tangerina. Em Lisboa está muito bem, é mesmo uma tangerina, mas no Brasil algumas são mexericas! Mexerica ou mexeriqueira em Portugal é no Brasil uma fofoqueira. Nêspera em Lisboa, é magnório no Porto. E meias? Aquele negócio onde se enfiam os pés, podem ser meias mesmo, peúgas, coturnos e até a pretensiosa inglesice de soquetes! Bolsos ou algibeiras? Talho ou açougue? Talhante, açougueiro ou magarefe?

 

Falar de uma carona, à brasileira, deveria ser uma boleia à portuguesa? E a bicha que o brasileiro adora ver em Portugal e não acha graça na sua terra?

 

Beber uma cerveja? Em Lisboa é uma imperial, no Brasil sai um chope estupidamente gelado, em Angola um fino. Aqui, lá em Angola, é jinguba o que no Brasil e Portugal é amendoim, mancarra na Guiné, e alcagoitas no Algarve (do nauatle, México).

 

O que não é muito agradável para um brasileiro é chegar a Portugal onde espera ser recebido com carinho, e oferecerem-lhe uns tapas ou um prego no pão! E o paneleiro, que no Brasil todas as famílias têm em casa, na cozinha? De fato, é o nome mais apropriado para o local onde se guardam as panelas! Pois, pois, mas o paneleiro lá da terrinha é um veado no Brasil! E enquanto um fresco em Portugal será um sujeito atrevidote, metediço, no Brasil é um maricas.

 

E quando alguém vai descansar as pernas numa cadeira? Senta-se, ou se senta? Informa-se, ou se informa?

 

E em relação aos povos de África? Está consignado que os europeus são brancos, mas os africanos em Portugal têm que ser pretos porque negro é ofensivo! Negro é o carvão! Já no Brasil não pode ser preto. Tem que ser negro ou escuro!

 

Se até há pouco tempo, as designações de preto ou negro eram sinónimos de gente da mais humilde condição, hoje o que está na moda é chamar branco a todo o indivíduo que destrói o meio ambiente! No Brasil, por exemplo, quem destrói a floresta Amazónica é só o branco! Não é o brasileiro, independente da sua raça, branca, negra, amarela, pura ou mestiça. É o branco! Porquê? Ah! Isso é preciso perguntar aos jornalistas e professores intelectualóides que, insistentemente, fazem esta absurda afirmação.

 

E por aí vai. Estes escritos não pretendem ser um dicionário de português-português, nem léxico, glossário ou elucidário. Deus me livre de semelhante presunção. Para evitar essas confusões umas vezes vai escrito de um jeito, outras de outro. Espero que dê para entender.

 

Mas acaba sendo divertido, mais ainda quando depois se depara com alguém que tem a veleidade, feito sir Galaad, de defender a autenticidade ou legitimidade de determinada forma, como aconteceu quando se discutiu o acordo ortográfico!

 

Como esta lusofonia nunca foi, nem nunca será uniforme, a sua diversidade dá-lhe vida, graça, universalidade. E motivo para cada um rir do outro e com o outro. Saudável.

 

O português levou a sua língua aos quatro cantos do mundo, espalhou-a por todos os continentes, e com diversidade ou sem ela, as pessoas entendem-se muito bem. Quando querem, claro. Quando não querem, surdo-mudo, é melhor.

 

É bastante indiferente o modo como se escreve, desde que quem leia consiga compreender, sem esforço, a mensagem que o escrito procura transmitir, se é que a tem. Por isso também a técnica usada nestes apontamentos foi baralhar os sotaques dos diversos países. Os sábios da nossa língua nem sequer têm que se preocupar em me perdoar porque não creio que algum deles se interesse pelo que escrevo! E se um dia tiver a sorte de merecer qualquer crítica, mesmo arrasante, será uma honra. Imerecida. A honra. O arraso não.

 

Aliás segundo as opiniões últimas dos cientistas começaram a ser perdoados os erros de escrita que os novos acordos ortográficos aposentam, para chamar a essas versões, não incorrectas, mas em desuso! Óptimo (com p, com assento ou sem ele?). Como muitos anos já me passaram em cima é bem possível que eu esteja obsoleto!

 

À lareira em Portugal, sentados ao redor duma bela fogueira nos sertões d´África, deitados ao sol numa praia maravilhosa do Brasil, bebendo umas e outras, geladíssimas, numa esplanada descontraída ou num café, há alguma coisa melhor do que conversar, bater um bom papo, contar histórias ou estórias, aventuras, compartilhar vivências?

 

Às vezes o silêncio é melhor. Muito silêncio entedia. Muita conversa cansa. Tudo na vida tem que ser como o presunto. Entremeado!

 

Por fim uma singela homenagem ao saudoso grande folclorista angolano Oscar Ribas lembrando o título de um livro seu, que melhor traduz tudo o que se segue:

 

SUNGUILANDO!

 

1944/45. O autor esteve um ano no colégio das Caldinhas dos jesuítas, em Santo Tirso, 3º ano do liceu, onde muita bordoada apanhou do Golias, um tomador de conta dos alunos que era uma besta, grande, bruto e covarde. Antes de arranjar emprego junto dos jesuítas havia sido futebolista; o seu sucesso fora tanto que optou por ser carrasco de crianças dos 10 aos 13 anos! Quando jogava o futebol lá no colégio, o Golias era sempre da outra equipa! Malandro, escondia a bola debaixo da sotaina e muito maior do que toda a criançada, avançava, confiante, até que em frente da baliza desferia um violento pontapé na bola que o goleirinho raras vezes conseguia segurar. Como o mais velho dos mais novos, 12/13 anos, sempre seu adversário, rápido aprendeu que para segurar aquele trator só havia uma maneira: chutar por debaixo das saias do homem, que a bola estando por lá, havia de sair. E saía. A bola por um lado, o Golias por outro e o nosso defesa por outro ainda. Golias levantava-se como um dragão, olhos chispando fogo, os puxa saco ajudando a sacudir o pó da batina preta, recomeçava o jogo. Tinha sempre que se vingar, e com isso o infeliz que se atrevesse a enfrentá-lo era impiedosamente derrubado. Voltava rápido ao ataque e no momento oportuno passava a bola a outro e sem querer chutava com violência as canelas do desgraçado. Imaginem quem era o tal desgraçado e como ele tinha as canelas! Como se amavam os dois! Passou alguns maus bocados naquele colégio, mas aprendeu muita coisa interessante, uma das quais foi ter jurado que filho seu nunca para ali iria. E não foi.

 

1948~50. Alentejo da minh’alma... Os bailes no Clube Lusitano de Évora. Tinha orquestra. As meninas com ar cândido e olhar lânguido, vestidas de tafetá amarrotável, sem decotes, e do braço só o punho atrevidamente de fora, sentadas na primeira fila de cadeiras. Na segunda, as mamãs, conhecidas como arame farpado, muitas de lenço na cabeça e buço aparado, velando e zelando pela decência e castidade das filhinhas que ao dançar não deviam nem se agarrar com muita força, nem se deixar apertar muito pelo par. Havia que manter uma certa distância de peitos e pernas, o que era completamente impossível, não só pelo número de pares que ocupava a pista de dança, mas sobretudo porque ninguém aceitava dançar desse jeito. Sempre se dançava agarradinhos, quando os aromas emanados da parceira o permitia! De qualquer modo eram todas meninas de gentil aspecto e nenhuma esquivança aos dardos penetrantes de Cupido, como dizia Camilo. Enfim... Trocavam-se juras de amor, ouviam-se secas tampas, ao que hoje se chama levar o fora, marcavam-se encontros para um dia seguinte, arranjavam-se chaperons – pessoa que pudesse acompanhar o par, ao longe, para não prejudicar possíveis e desejáveis intimidades, mas que velasse para que não avançassem mais do que demasiado - mas poucos iam além do baile. Neste, os homens amontoados à porta que separava o bar do salão da dança, esperavam o desafinado primeiro acorde da sanfona para atropeladamente invadirem a sala, correndo para o par a quem haviam feito prévios sinais de entendimento. Quem se atrasava não dançava. Não sobrava garota nenhuma, nem feia. Os machos, nos intervalos das danças iam ao bar beber uns copos - vinho, cerveja ou aguardente, o que viesse morria - e à saída, já quentes e apaixonados, envolviam-se em idiotas cenas de pancadaria. Macho é macho. Grandes farras.

 

1954. Uma vez nessa África, que continua a povoar os sonhos que quem por ela se apaixonou, Angola, ali por alturas do Cubal, numa fazenda de sisal, todo equipado para andar no perigoso mato, chapéu colonial, daquele bonitão com aba de cortiça, e bota alta, teve o azar de parar bem em cima da entrada de um ninho de quissonde ou bissonde, (também conhecidas no Brasil por crauçanga, morupeteca e taoca) aquelas horrorosas formigonas vermelhas escuras que têm uma mordida forte e dolorosa. Em menos de um minuto estava a ser mordido no corpo todo. Teve que se empoleirar no tractor e aí, em frente do pessoal que assistia ao trabalho das máquinas, incluindo a dona da fazenda, despir-se todo, todo, e catar uma a uma as miseráveis formigas que pelas fortes mandíbulas estavam já agarradas ao seu corpo. Se o não fizesse tão rápido talvez tivesse lá deixado somente os ossos. Foi bravo e uma bela lição. Até as grandes feras evitam essas “mininas”!

 

FGA-CHAPÉU COLONIAL.jpg

Belo chapéu!

 

1969 ou 70. Mais ou menos. Bebidas: só bebia nacionais e estrangeiras. Mas nada se compara a um bom vinho novo bebido em casa do produtor. Quando vivia em Angola tinha uma sequiosa saudade deste néctar. Numa das idas a Portugal, um tio, que nessa altura era importante, com direito a carro, bom, motorista e tudo, foi esperá-lo ao Aeroporto.

 

- Onde queres ir?

- Primeiro que tudo quero ir ao Cartaxo beber um copo de vinho!

- Ao Cartaxo?

- Sim.

- Porquê ao Cartaxo?

- Porque venho com uma saudade danada de beber um copo de carrascão!

 

Lá foram. Andaram sessenta quilómetros, para cada lado, só para entrar no primeiro tasco que apareceu e beber dois copos de vinho: um branco e um tinto.

 

O homem do tasco vê parar um Mercedes à porta, coisa inusitada, sai de lá um sujeito que pede um “copo de três” branco! Ahhhh! Que maravilha.

 

- Agora quero um de tinto!

 

Estavam assassinadas as saudades. Voltaram para Lisboa.

 

Escrito em 2002 – A continuar

 

FGA-2OUT15.jpg

Francisco Gomes de Amorim

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