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A bem da Nação

ENCONTRO DE ESCRITORES – 4 -

 

 

 

- D. Francisco – disse eu – tenho um problema a resolver para o que peço a sua ajuda.

- Pois não – disse ele com aquela expressão fantástica tão portuguesa da negativa significando afirmativa – diga o que o preocupa.

- Nesta nossa ronda pelos que usaram as letras para algo mais do que para fazer encomendas ao merceeiro, nem todos mereceram o Céu. Se o meu Amigo acha que também esses devem ser chamados aos nossos encontros – como já fez com o Antero - onde havemos de os procurar e por intermédio de quem?

- Respondendo por partes, acho que sim, também esses devem ser chamados. E se não estão no Céu, só podem estar no Purgatório ou no Inferno. Se estão no Inferno, não vejo modo de os sacarmos de lá; se estão no Purgatório, sugiro que invoquemos Santo Ambrósio ou mesmo São Boaventura que tanto nos explicaram sobre esse local. Pode ser que conheçam lá alguém que nos possa ajudar nessa busca de almas em vias de lavagem.

- Perfeito! E assim, não precisamos nós de contactar directamente o Chefe do Purgatório e não correremos o risco de algum salpico pecaminoso que ele ainda traga nas mãos das abluções ou dos clisteres purgantes. Os Santos têm curriculum suficiente para se salvarem de uma qualquer dessas putativas inconveniências.

- Fica então tudo esclarecido?

- Sim, creio que sim. Se um dos Santos estiver muito ocupado e não me puder responder, o outro há-de estar de folga. Oxalá!

- Oxalá é do árabe Inch Allah que significa «queira Deus». Veja lá se usa alguma expressão de que não gostem no Céu e lhe barram o contacto.

- Allah não é o Deus muçulmano; Allah é como se diz Deus em árabe. O Deus deles é o mesmo que o nosso; os Céus é que podem ser diferentes.

- Muito bem, então fica combinado que Você pede a um dos dois Santos e logo se vê o que eles dizem.

(...)

Disseram-me que São Boaventura estava a despacho (com Deus?) mas que Santo Ambrósio me poderia atender.

 

Stº Ambrósio (337-397).jpg

Stº Ambrósio (337 – 397)

 

- Meu «filho», em que te posso servir?

- Oh Santo Ambrósio: eu pretendo convocar para uma reunião terrena alguns escritores portugueses que devem estar no Purgatório mas não conheço ninguém da «nomenklatura» por lá mandante e lembrei-me de si porque nos explicou muito sobre o funcionamento daquilo e porque talvez consiga uma dispensa por pouco tempo de algumas almas escrevinhantes que ainda estejam por lá em abluções e clisterizações purgativas.

- Sim, conheço toda a «nomenklatura» purgativa e posso dizer-te que fizeste muito bem em vires falar comigo em vez de ires falar com eles. Ainda te sujavas e isso é que seria uma maçada. Mas estou a ver que já não te lembras dos meus ensinamentos... Há quanto tempo morreram esses escritores que queres contactar?

- Ui! Alguns morreram há mais de 20 anos e outros há mais de um século...

- Então, meu «filho», não precisas da minha intercessão pois as almas só estão no Purgatório por um máximo de 40 dias terrenos no fim do que ou estão limpas e vão para o Céu ou continuam encardidas e vão para o Inferno. Assim sendo, se estão no Céu, podes voltar a contactar quem contactaste das vezes anteriores para as reuniões que já fizeram...

- Ah, já vejo que sabe dessas reuniões.

- ... no Céu sabemos tudo...

- Sim, claro, desculpe o meu esquecimento.

- ... estás desculpado. ... se estão no Inferno, desde já te digo que não te posso ajudar de maneira nenhuma e não conheço ninguém que o possa fazer. São casos perdidos. Portanto, o melhor que podes fazer é pedires ajuda a alguém no Céu.

- Muito bem, acha que me pode ajudar?

- Sim, dize quem queres convocar, quando e para onde e eu vou ver o que se arranja.

- Posso dizer mais logo?

- Podes dizer quando quiseres. No Céu não medimos o tempo. Invocas-me e voltamos à conversa.

(...)

(continua)

 

Fonte da Telha-27NOV16 (barco museu).jpg

 Henrique Salles da Fonseca

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