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A bem da Nação

DOIS PRETOS PÁLIDOS

 

 

 

O medo provoca uma tonalidade na pele a que nas pessoas de raça branca chamamos palidez porque o sangue foge da cara para afluir a uma outra qualquer parte do corpo. Talvez para a região abdominal pois já se ouviu falar de gente que se «borrou de medo». Em situação equivalente, as pessoas de raça negra ficam cinzentas. 

 

No início dos idos de 70 do século passado, estava eu a cumprir o serviço militar em Nampula no Quartel-general de Moçambique quando fui nomeado para ir a Porto Amélia (actual Pemba) integrando uma Comissão de Inspecção Administrativa a várias Unidades militares do Sector de Cabo Delgado. Deveríamos visitar o Batalhão de Comandos situado em Montepuez e o aquartelamento da Mataca que era uma unidade subterrânea de Infantaria, isolada em plena Serra Mapé, no interior de Macomia.

                       

Aurora em Porto Amélia/Pemba

 

A Comissão era composta por um Major e dois Alferes, todos do Serviço de Administração Militar e, mais concretamente, nós os subalternos, da especialidade de Contabilidade e Pagadoría. Como hoje se diria, todos do software e ninguém do hardware tais como a Intendência e suas especialidades ligadas às padarias.

 

E se no plano oficial íamos inspeccionar as ditas Unidades, na realidade o que o nosso Comandante queria era que nós, os «Alferes do ar condicionado», víssemos como viviam os militares operacionais para que nós, na retaguarda, pudéssemos ter uma vida regalada.

 

Chegados a Porto Amélia instalámo-nos num hotel muito confortável acabado de inaugurar cabendo-me um quarto com vista deslumbrante sobre o Índico. Os vários tons de azul do mar resultam das barreiras de coral que se formaram paralelas à praia constituindo um obstáculo natural e eficaz contra a aproximação de tubarões. Nadei à vontade mas confesso que «mantive um olho sempre no burro e outro no dono», não fosse o Diabo tecê-las. Não teceu e eu estou aqui agora a contar a história.

 

Dos três militares que compunham a Comissão, apenas o Major inspeccionou alguma coisa pois nós, os subalternos, só fizemos turismo. O que mereceu a atenção do Major foi o fundo de algumas garrafas de whisky e lá pelas 3 ou 4 da manhã a esposa dele bateu aflita à porta do quarto do meu camarada de canetas a pedir ajuda pois já não sabia como manter o marido sossegado no quarto. Não faltou muito para que o meu camarada me telefonasse a acordar-me para que eu também acudisse a dar uma ajuda. É que, para além de, no meio da aflição, a muito respeitável Senhora se ter apresentado à porta do quarto dele em baby-doll, o marido insistia em que queria naquele instante ir à caça e exigia com modos algo bruscos que se lhe dissesse onde a mulher tinha escondido a espingarda.

 

Apesar de em tempo de guerra não se limparem armas, logo fui agarrar uma toalha que cobria uma mesa no meu quarto para a Senhora se poder recatar um pouco melhor enquanto o meu sóbrio companheiro de aventura foi tentar acalmar o Major. Fui eu então ao telefone do meu quarto pedir ajuda médica à recepção do hotel, não fosse necessária alguma actuação para que nós, ambos economistas, não tivéssemos treino. Em pouco tempo chegou um paralelipipédico enfermeiro militar que não esteve com meias medidas e, não olhando a hierarquias, deu dois safanões no Major que lhe fizeram de imediato passar a mania da caça. Ainda hoje tenho sérias dúvidas sobre se ele era mesmo Cabo Enfermeiro como se apresentou ou Oficial da Polícia Militar pelo modo como actuou. Àquela hora, chamado de urgência, vinha vestido com um fato de treino civil mas eu inclino-me mais para a segunda hipótese e reconheço que a terapêutica foi claramente acertada.

 

No dia seguinte, mal dormidos, tomámos boleia com um civil para irmos a Montepuez. Ainda bem que me esqueci do nome dele pois assim não corro o risco de alguma inconfidência. Tratava-se de um importante empresário de camionagem natural da Cova da Piedade e residente em Porto Amélia cujos camiões percorriam todo o norte moçambicano em transportes quer civis quer militares. Só que naquela zona e naquela época esta diferença significava que as mercadorias militares poderiam ou não ser inocentes géneros alimentícios mas uma parte substancial das mercadorias civis estavam seguramente afectas a gente relacionada com o inimigo. Ou seja, este cavalheiro trabalhava em zona de guerra e não ia desperdiçar uma parte do mercado correndo o risco de ser considerado personna non grata pela outra parte. É que cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém …

 

Como ricalhaço, tinha um Mercedes amarelado espampanante de duas portas no qual se pavoneava pela cidade e praias das cercanias passeando esposa e rebentos mas quando ia para fora da cidade, para o mato, usava um Fiat 600 azul celeste que, como ele dizia, era o carro conhecido pelos “rurais”. E foi junto deste que nos apresentámos, o outro Alferes e eu, para a viagem de cerca de 200 quilómetros na ida e os mesmos na volta. O nosso anfitrião apareceu logo de seguida mas acompanhado dum velhote que nunca víramos antes. Apresentou-nos o seu Pai, Sargento reformado da Marinha que vivia habitualmente no Alfeite (daí o filho ser natural da Cova da Piedade), estava ali de visita durante um ou dois meses e queria conhecer o interior moçambicano pois já estava farto do pequeno círculo da cidade. E assim foi que me lembrei da anedota que pergunta como se metem quatro elefantes num Fiat 600: dois à frente e dois a trás. Foi o que fizemos: o camionista ao volante, o seu Pai no «lugar do morto» e nós os dois Alferes, devidamente fardados, nos lugares de trás. Lá fomos estrada fora sem novidades até à chamada Curva da Viúva, local onde a estrada bifurcava com um ramo que virava a Sul com destino a Nampula que distaria quase 400 quilómetros e o outro, o nosso, em direcção a poente. Parámos para esticarmos um pouco as pernas e tomarmos um café na cantina à beira da estrada. Havia alguma actividade no estabelecimento com o casal de cantineiros brancos a aviar os fregueses quase todos pretos mas fizemos o que tínhamos decidido fazer sem a mais pequena espécie de problemas e seguimos ao destino com a maior naturalidade.

 

E foi então que o nosso líder nos disse que a partir dali entrávamos «na terra do ele». Aquela ligeira inflexão que a estrada fazia para norte era o suficiente para entrar em território não controlado por nós, portugueses, mas sim pelo inimigo e a cantina da curva em que tínhamos estado era uma verdadeira fronteira em que raramente apareciam fardas do Exército Português. E quando o faziam não seria por certo com a calma com que nós os dois lá tínhamos estado. Santa ignorância…

 

Mas lá fomos por ali fora até que a certo momento vimos à distância uma linha de homens armados, parados de frente para nós barricando a estrada de um lado ao outro. O nosso condutor apanhou um susto tremendo que o levou a assobiar nervosamente, a pôr o dedo na businita do Fiat 600, a colocar-se meio fora da janela acenando com o braço direito bem esticado (em Moçambique conduz-se à esquerda) e a acelerar o mais que a carripana conseguia dar. Ou porque reconheceram o carro como de um «amigo» ou porque acharam que tudo aquilo era de uma incrível desfaçatez, abriram alas para que passássemos. Puseram-se metade de cada lado da estrada e essa foi a prova de que não iam disparar pois que se matariam a eles também e não apenas a nós, o verdadeiro alvo. O silêncio que se fez no carro só foi cortado daí a um par de quilómetros pelo velhote quando desabafou baixinho, quase em segredo e cerimoniosamente, com um «Porra, desta já nos safámos».

 

Sim, tínhamo-nos safado de boa.

 

E foi um pouco mais à frente que vimos um Volkswagen Carocha parado em sentido contrário ao nosso com um branco do lado de fora sem saber o que fazer à vida. O nosso empresário logo reconheceu o carro à distância e disse que se tratava do Padre “qualquer coisa” que devia estar com uma avaria que não conseguia resolver. Parou e logo aproveitámos para sair e esticar um pouco as pernas que estavam bem contraídas depois do susto que tínhamos apanhado. O meu companheiro saiu para o lado da estrada e eu para o da berma. Mas não tive o devido cuidado e dei por mim no meio de um tufo de “feijão macaco”, espécie cujo pólen faz uma comichão terrível perante o que só há a solução de nos despirmos e sacudirmos a roupa o mais possível. Nem hesitei: despi-me rapidamente e sacudi calças e camisa até não ver vestígios do famigerado pólen. E foi nestes preparos, em cuecas, meias e sapatos no meio da picada a sacudir a roupa que me apresentaram o Padre “qualquer coisa” que amavelmente me respondeu com sotaque estrangeiro sem saber se se devia rir com a cena insólita que eu representava ou se devia manter-se sério no acto de apresentação social.

 

Retomada a compostura, vim a saber que a avaria no carro de Padre era coisa menor a que o nosso camionista dera rápida solução e foi então que reparei que no banco traseiro do Carocha estavam dois pretos à espera da continuação da viagem. Como nada mais tinha que fazer, aproximei-me para lhes dizer qualquer coisa do género “tanto os vossos como os meus problemas já estão resolvidos” mas calei-me imediatamente quando lhes vi as caras cinzentas e os olhos esbugalhados de terror. Dei meia volta em direcção aos que já estavam a limpar as mãos depois de reparada a avaria, fizemos as despedidas protocolares e cada carro seguiu viagem de costas voltadas um para o outro.

 

Não sei se aqueles membros das forças que então eram nossas inimigas sabem ler e escrever mas teria uma certa graça que um dia destes viéssemos a descobrir um escrito a referir um Alferes português em cuecas no meio da estrada a sacudir a roupa depois de um ataque de “feijão macaco” e a pregar um susto enorme a dois guerrilheiros eventualmente desarmados mas completamente encurralados no banco traseiro dum Carocha avariado no meio de lado nenhum, algures na savana africana plantada a esmo de imbondeiros e árvores de sumaúma. Ah e de algum “feijão macaco”. Seria giro ler a história contada pelo outro lado da cena.

 

Magestoso imbondeiro junto à estrada para Montepuez

 

Dezembro de 2007

 

 Henrique Salles da Fonseca

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