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A bem da Nação

De volta a ZUMBI e a Palmares!

 

 

Há mais de uma dúzia de anos que “batalho” contra o mito de “Zumbi dos Palmares”; como é evidente, sem qualquer sucesso, porque a verdade interessa só a uma minoria, normalmente a tal “silenciosa”, e a mentira sobre o assunto tem dado grandes trunfos à politicada.

 

Recordo agora um texto de Março de 2003, sobre o assunto de que repito algumas passagens:

-                      não há certeza histórica de se ter apanhado o tal Zumbi; dizem uns que lhe cortaram a cabeça depois de vencido e morto, outros que ele se atirou do alto de um morro, outros ainda que muito ferido terá fugido, etc.

-                      não se sabe se Zumbi era o nome de uma só pessoa se o nome genérico dado a chefes ou comandantes daquele quilombo;

-                      foi necessário transformar em “traidor” um dos mais extraordinários chefes de Palmares, Ganga Zumba, que depois de ter lutado durante 30 ou 40 anos contra as forças governamentais acabou derrotado, mas saindo de cabeça erguida e obtendo liberdade, terras e cidadania para os escravos, coisa que nenhum outro escravo, em qualquer outra parte do mundo tinha conseguido.

 

Aparece agora (2003) mais um livro “Zumbi dos Palmares – A história do Brasil que não foi contada”, de Eduardo Fonseca, que está fazendo muito sucesso e foi até enredo da Escola de Samba Caprichosos de Pilares neste Carnaval do Rio.

 

Ao analisar com cuidado este sucesso literário encontram-se “novidades” que são admiráveis:

-            Zumbi, não morreu, como as histórias anteriores o afirmaram! “Ficou vivo, muitas décadas, construiu uma série de outros quilombos e continuou resistindo às truculências dos brancos”!

 

Mas nunca mais ninguém o viu ou ouviu falar dele!

-            “Maurício de Nassau (no livro chamado de invasor, vá lá!) era um mecenas amigo dos quilombolas”!

 

Deve ter sido com base nessa grande amizade que os holandeses mandaram uma esquadra, que saiu de Recife em 1641, ocupar Angola! Certamente para estabelecer relações de intercâmbio amigável, em que os africanos forneciam escravos e os holandeses os transportavam, confortavelmente instalados em navios de luxo, para os engenhos de Pernambuco, sempre sob os amigáveis auspícios do sr. de Nassau que com isso enriqueceu e se mandou daqui para fora!

 

As tais “truculências” para com os escravos, o amigo Maurício deixava a cargo dos senhores de engenho!

-            “Uma das primeiras sinagogas em Recife teve como rabino Isaac Abuab da Fonseca, que transformou a sua sinagoga em embaixada dos quilombolas, escondendo negros fugidos de seus patrões torturadores”.

 

Extraordinária coincidência, sr. Fonseca. Não venha dizer que o rabino era seu antepassado e daí este seu “amor” pelo Zumbi?!

 

Será que ele escondia os quilombolas com o beneplácito do sr. Maurício que investira tanto dinheiro para os vender aos plantadores de cana?

 

Cultua-se o período holandês, como se tivesse sido milagroso para o Brasil. Quando aqui chegaram, os holandeses encontraram perto de 300 engenhos produzindo e com isso montaram um rendosissimo negócio através dos seus centros de distribuição lá na Holanda.

Quando foram embora do Brasil muitos deles já tinham fechado. Que investimentos fizeram os holandeses por aqui? Limitaram-se a explorar o comércio já existente, e continuam a ser tidos como “saudosos deuses de olhos azuis”!

 

Alguém uma vez disse: “se tiver dúvida, escreva, porque depois de escrito tudo vira verdade e fonte de referência”!

 

Uma coisa é romancear, como o fez, melhor que qualquer outro, Alexandre Dumas com os seus famosos mosqueteiros. Outra coisa é falsear a história para agradar a leitores.

 

Por estas e outras o Brasil acaba ficando sem história, de tão deturpada que a fazem!

 

Sem história perde, ou nunca ganha, as suas raízes. Sem raízes e sem história, onde ficam os valores culturais a transmitir e unir o povo?

 

A história, como fica?

 

O curioso foi ter descoberto há pouco, numa publicação do Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco, na sua Revista nr. X, de 1902, o “Diário da viagem do capitão Jan Blaer aos Palmares em 1645” durante o domínio holandês na região de Pernambuco de 1630 a 1657.

 

Este capitão Blaer saiu a 26 de Fevereiro de Salgados com soldados holandeses e brasilienses a quem se refere sob este nome como sendo índios, andaram quase um mês até começarem a encontrar roças e plantações abandonadas, e chegado a um “velho” Palmares a 18 de Março. Só a 21 chegaram “à porta ocidental de Palmares, que arrombaram e ao atravessarem encontraram um fosso cheio de estrepes (troncos espetados no chão e de pontas afiadas) em que cairam os nossos dous cornetas; não ou­vimos ruido algum senão o produzido por dous negros, um dos quaes prendemos junto com a mulher e filho, os quaes disseram que desde cinco ou seis dias ali havia ape­nas pouca gente, porquanto a maioria estava nas suas plan­tações e armando mondés (armadilhas) no matto; ainda mataram os nossos brasilienses dous ou três negros no pântano visinho; disseram ainda os negros pegados que o seu rei sabia da nossa chegada por ter sido avisado das Alagoas; um dos nossos cornetas, enraivecido por ter caido nos estrepes, cortou a cabeça a uma negra; pegamos também outra ne­gra; no centro de Palmares havia outra porta, ainda outra do lado do alagadiço e uma dupla do lado de leste; este Palmares tinha igualmente meia milha de comprido, a rua larga duma braça, corria de oeste para leste e do lado norte fícava um grande alagadiço; no lado sul tinham der­rubado grandes árvores cruzando e atravessando-as umas em cima das outras e também o terreno por traz das casas estava cheio de estrepes; as casas eram em numero de 220 e no meio delas erguia-se uma igreja, quatro forjas e uma grande casa de conselho: havia entre os habitantes toda a sorte de artifíces e o seu rei os governava com se­vera justiça, não permitindo feiticeiros entre a sua gente, e quando alguns negros fugiam mandava-lhes crioulos no encalço e uma vez pegados eram mortos, de sorte que entre eles reinava o temor, principalmente nos negros da Ango­la; o rei também tem uma casa distante dali duas milhas com uma roça muito abundante a qual casa fez construir ao saber da nossa vinda, pelo que mandamos um dos nossos sargentos com vinte homens afim de prende-lo; mas, todos tinham fugido de modo que apenas encontraram algumas vitualhas de pouca importância; queimamos a casa do rei e carregamos os víveres; perguntamos aos negros qual o numero da sua gente ao que nos responderam haver 500 homens além das mulheres e crianças: presumimos que uns pelos outros há 1500 habitantes segundo deles ouvimos; nesta noite dormimos nos Palmares.

 

A 23 do dito pela manhã saiu novamente um sargento com vinte homens a bater o mato, mas apenas conseguiram pegar uma negra côxa de nome Lucrecia pertencente ao capitao Lij que ali deixamos ficar porquanto ela não podia andar e nós não podíamos conduzi-la tendo já muita gente estropeada que era mister fazer carregar; enchemos os nossos bornaes com alguma farinha seca e feijões afim de voltarmos para casa. Ali também feriram-se muitos dos nossos nos estrepes que havia por traz das suas casas. Este era o Palmares grande de que tanto se fala no Brasil; a terra ali é muito própria ao plantio de toda a sorte de cereaes pois é irrigada por muitos e belos riachos; a nossa gente regressou à tarde sem ter conseguido nada; ainda esta noite dormimos nos Palmares.

 

A 23 do dito queimámos os Palmares com todas as casas existentes em roda bem como os objetos nelas contidos, que eram cabaças, balaios e potes fabricados ali mesmo; em seguida retirámo-nos vendo que nenhum proveito mais havia a tirar: após uma milha de marcha chegamos a um rio, todo cheio de penhascos, denominado Bonguá; ali deixamos de emboscada, junto aos Palmares um dos nossos sargentos com 25 homens, mas não sabemos se conseguiram; nesta tarde, proximo ao referido rio, ainda pegámos um negro com a mulher e um filho e ali pernoitamos.

 

A 24 do dito pela manhã encontramos um negro cheio de boubas (úlceras, feridas) em companhia de uma velha brasiliense, escrava da filha do rei, os quaes nos disseram que nas vizinhanças ainda corriam outros negros, pelo que acampámos ali e com 20 homens batemos o mato; chegando à casa da filha do rei, que não estava nela, queimamo-la, mas nada conseguimos achar; passamos ali a noite.

 

Finalmente este “grupo de caça” aos fugitivos de Palmares regressou a casa a 2 de Abril; o “diário” deixado demonstra perfeitamente o quanto os holandeses eram “tão amigos” dos escravos, eles que competiram com os ingleses como os maiores traficantes da história, sobretudo para as Antilhas e América do Norte.

 

E ainda há quem continue a lamentar esses invasores terem sido corridos do Brasil, depois de vergonhosamente derrotados, na Batalha de Guararapes por 2.200 homens homens do Brasil contra 7.400 holandeses! As baixas do lado dos luso-brasileiros: 84 mortes e 400 feridos contra 1.200 mortos e 700 feridos holandeses.

 

A história, como fica?

 

Dane-se a história e a cultura do povo.

 

 

Batalha de Guararapes – óleo de Victor Meirelles de Lima - 1879

 

 

Rio de Janeiro, 08/07/2014

 

 Francisco Gomes de Amorim

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