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A bem da Nação

DE CUMPRIMENTO INCUMPRIMENTO

 

 

Releio – e ouço, recitado pelo seu autor, Ary dos Santos (1937/1984), na Internet, o vasto poema «As portas que Abril abriu», que conclui:

 

https://www.youtube.com/watch?v=p-Whzw-RA7M

 

….De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.

Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

 

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

 

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!

Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

 

Lisboa: Ed. Comunicação, 1975

 

Também eu publiquei, em 1981, (no livro «Cravos Roxos – Croniquetas verde-rubras»), uma pequena peça - Exercício Escolar (modesta homenagem aos dramaturgos que eventualmente leccionava ao acaso das turmas que me cabiam em sorte, e que hoje mais identificaria com azar) - em que mostrei idênticas afeições sobre as ditas portas abertas uns anos antes, como prova o seguinte desenlace:

 

CORO DO PARTIDO:

 

Neste país transformado

Por revolução de flores

Que aniquilou prepotências

E irmanou ricos e pobres

Trabalhadores e gestores

Num ideal renovado

De comum realização

Só se escuta o martelar

Dos malhos dos ferradores

Dos maços dos calceteiros

E os gritos dos operários

E os olés dos boieiros

E o chocalhar das ovelhas

E os protestos dos doutores

E os risos dos proletários

E os discursos partidários

E o gorjear dos cantores.

Pelas ruas transformadas

Em caminhos pedregosos

Onde as flores são espontâneas

E os frutos tão saborosos,

Brotam as almas mais cândidas

E os sentimentos mais soltos.

Eis a mensagem, senhores,

Da nossa festa das flores.»

 

(Assim fenece a farsa)

 

Ora, as imagens e os sons que nos chegam em catadupa pela imprensa falada e escrita, é que me fizeram lembrar o poema de Ary dos Santos de entusiasmo e libertação ditadas pelo ódio a um regime opressor. Ary dos Santos faleceu em 1984, a tal minha peça, foi de 1981, mas ele não foi informado disso, doutra forma teria explodido em nova mensagem de veemência democrática, por ter encontrado uma alma gémea, embora não do mesmo calibre de genialidade criativa como foi o seu, e que se limitava a imaginar um postigozito de abertura abrilina.

 

Mas na questão de portas abertas, agora é que ele teria pano para mangas para se regozijar plenamente. Não podemos, é certo, implicar o nosso rubro Abril em tudo o que foi trazido por um mundo já aberto de par em par, em traições, corrupção, incestos, pedofilia, destruição, violência, sexo, crime, discrepâncias sociais, e tais…

 

E o que está a dar agora, perfeitamente escancarado, não por portas mas por ondas de natureza vária, entre as quais as da fibra óptica, são essas imagens vindas do deserto de gente encapuçada e de faca em punho, por trás de jornalistas ajoelhados que vão morrer.

 

 Berta Brás

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