COLONIALISMO
A América, não tendo colónias e, por conseguinte, prejuízos coloniais e aplicando candidamente os seus critérios democráticos a tudo o que não olha para ela, analisa o sistema colonial sem simpatia. Está, sem dúvida, à beira de sacudir seriamente a Europa entorpecida pela rotina. Ora, tomando partido pelas populações submetidas por nós, fornece-nos, sem o perceber, o melhor apoio para resistir, no futuro próximo, à sua própria influência. A América não o percebe; mas o que seria desastroso era que nós também não o percebêssemos.
In “A propósito da questão colonial nas suas relações com o destino do povo francês” (1943), in Écrits historiques et politiques, pág. 375, Paris, Gallimard, 1960
* * *
O colonialismo tradicional deu lugar, a pouco e pouco, a alianças entre países soberanos, que se desdobram em protectorados implícitos onde o poder protector partilha grande parte da riqueza com os autóctones que protege. Na Arábia Saudita ou nos Emiratos Árabes Unidos, o visitante fica impressionado com o conforto material que envolveu as cidades, cujo perfil é testemunho de uma americanização mais global, muito para lá dos produtos luxuosos que estorvam o quotidiano do povo. Contudo, a legislação daqueles países mantém a aparência estrita da lei religiosa arcaica, mesmo se, no que respeita ao direito dos negócios, garantia da participação local no mercado mundial, o contratante autóctone se enrosque, mais do que admite, no molde do direito internacional. Este tipo de acomodações faz-se às escondidas; e permite-se que se aja desde que se salvem as aparências.
Abdelwahab Meddeb
In “A DOENÇA DO ISLÃO”, ed. Relógio d’Água, Lisboa, 2005, pág. 78


