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A bem da Nação

COINCIDÊNCIAS

 

Assisti há dias a uma conversa entre amigos que não se viam há muito tempo, que registo. Egídio Madariaga hoje residente nos EUA, onde tem família, tem por hábito e salutar prática visitar o velho Portugal, de tempos a tempos. Este meu amigo deixou Portugal em 1953, tinha ele – e eu também – 26 anos. A nossa amizade vinha do Colégio Militar que ambos cursámos entre 1939/45. Egídio formou-se no IST de Lisboa, e decidiu continuar os seus estudos nos EUA. Então, para surpresa sua, o seu pedido de passaporte não teve resposta. Passou uma semana, outra e nada. Renovou o pedido e obteve o mesmo resultado – silêncio. Como o manda-chuva dos passaportes no tempo, coronel de Artilharia Monteiro Libório, personagem de perfil prussiano então muito visto nas fotos de eventos oficiais, era camarada de armas de seu pai, meteu o pai no assunto e este lá lhe arranjou uma entrevista (audiência, como então respeitosamente se dizia). Libório explicou-lhe que o país não se podia dar ao luxo de deixar sair licenciados para continuarem estudos no estrangeiro, onde provavelmente se radicariam. O Estado português tinha investido largamente na educação deles e esperava que eles viessem a reforçar e melhorar o nível da força de trabalho nacional. Egídio contra-argumentou como pôde e por fim conseguiu dobrar a esquina mediante promessa solene de que voltaria ao país terminados os seus estudos na América. "Isso obrigou-me a estudar toda a vida", diz ele ironicamente.

 

Todos riram e alguém comentou:

 

- Pois, mas há que reconhecer que o Libório tinha razão.

 

Surpreendido Egídio indaga:

 

- Porquê? Por causa do dinheiro que a minha educação custou ao Estado?

 

- Não, respondeu o interlocutor. Isso são ninharias de contabilista. Onde ele tinha razão foi quando te lembrou que o país precisa de cada um de nós e nós precisamos do país.

 

- Eu não! Exclama Egídio. Para chegar onde cheguei só precisei de mim.

 

- Pois, mas os solitários atingem um ponto em que ficam ilhados, ainda que, por vezes, confortavelmente ilhados. Sozinhos não podem prosseguir.

 

 

***

 

 

Curiosamente à hora em que esta conversa se passava – e segundo a imprensa –, a milhares de milhas de distância, em Maputo, Christine Lagarde, dirigindo-se aos governantes moçambicanos lembrou-lhes "se queres ir depressa vai sozinho; se queres ir longe junta-ta aos demais".

 

Curiosa coincidência.

 29 de Maio de 2014

  Luís Soares de Oliveira  

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