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A bem da Nação

CLAUSURA – 3

Há quem lhe chame quarentena mas duvido que nos fiquemos pelo confinamento (como dizem os franceses) durante o prazo de 40 dias implícito naquela palavra. Por isso, refiro-me a clausura. Esta, sim, por tempo indeterminado. Aliás, a soltura que se seguirá à clausura, não poderá ser «à la diable», deverá ser parcelar de tal modo que só possa sair quem esteja limpo e, mesmo assim, sujeito a verificações diárias. Ou seja, se para uns será quarentena, para outros será pentatena, exantena e sei lá mais quê... É aqui que me lembro de quem vive em casas pequenas, soturnas, húmidas, esses que nos Santos Populares saltam para os bailaricos nas ruas, esses para quem tudo são pretextos para sair dos tugúrios em que moram. Como a clausura lhes deve ser difícil de suportar.  Que fará essa gente, habituada a trabalhos braçais, todo o dia de mãos nos bolsos, metida em ambientes sórdidos, sem hábitos de cultura, sem vida interior? Eis o niilismo, o caminho para o vazio ou, pior, a plenitude imediata e imensa do vazio que se transforma na acusação de tudo e de todos, da própria sorte, o triunfo do mau-feitio, a revolta contra «eles, os que têm os livros»; a revolta do prisioneiro sem culpa formada e que todos sabem inocente.

Apirético, iletrado, imobilizado, incompreendido, o povo está prestes a dizer impropérios tão feios que nem constam dos dicionários escolares.

É que, por cá, à revolta niilista chama-se iliteracia.

(continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

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