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A bem da Nação

CHURCHILL - HERÓI, PRÉMIO NOBEL E…

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Há acções que nos surpreendem pela positiva, como prova de coragem, de paciência, de sentido de missão ou de sangue-frio; justamente por isso os seus autores se tornam heróis aos nossos olhos. E gostaríamos de os ver sempre assim, heróis! Sem baixezas… ou abstraindo mesmo das pequenas escorregadelas.

 

A não ser que tenha havido um esforço sério por praticar o bem, para fazer o que é correcto, arraigando virtudes no proceder habitual, eles não estarão isentos de deslizes, alguns fortes, cedendo a paixões, à sêde do poder ou a mesquinhas vinganças.

 

Ao ler o livro The end of poverty, de Jeffrey Sachs, tinha-me chamado a atenção, esta frase: “A maior ilustração da irresponsabilidade imperial britânica foi a sua resposta às repetidas fomes e doenças epidémicas durante a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX” (Penguin Books, pg. 174). Que exagero, pensava eu, ou apenas força de expressão.

 

Alguns autores britânicos como William Darlymple ou Angus Maddison, nos seus estudos histórico-económicos tinham evidenciado como a riqueza que a Índia produzia fôra sendo destruída abruptamente a ponto de passar de mais de 24% antes da colonização, para menos de 4% na retirada dos ingleses. É muito de louvar que os investigadores britânicos não se tenham deixado levar por fábulas e superficialidades, na linha da exaltação nacionalista tão frequente na Europa, muitas vezes fomentadas pelo governo ou algum sector fascista. Intrigado com as afirmações de Sachs, tentei saber do alcance de tal ‘irresponsabilidade’.

 

Na verdade, segundo relatos históricos, na 2ª parte do século XIX e na 1ª do século XX, entre 15 a 29 milhões de pessoas terão morrido de fome e epidemias na Índia, sem que os dominadores colonialistas tenham mexido um dedo! E só no ano de 1943, quando Churchill era primeiro ministro, a situação era muito grave, com extrema falta de mantimentos na região de West Bengal, de capital em Kolkota. A fome apertava e os chefes colonizadores locais mandaram telegramas urgentes a Churchill chamando a atenção para a gravíssima situação e queriam proceder à distribuição de mantimentos armazenados para o efeito. Churchill opôs-se, com veemência, alegando uma justificação, que nada justifica, senão um ódio mal-contido aos indianos: ‘que poderiam fazer falta aos britânicos’, anafados e bem-alimentados.

 

E no papel do telegrama recebido anotou esta frase cínica e cruel: ‘Como é que Gandhi não morreu ainda?’ (de fome, por suposto). Impediu que se acudisse à fome. Deixou que morressem, em consequência, 4 milhões de cidadãos Indianos, em 1943 (cfr. Shashi Tharoor, https://www.youtube.com/watch?v=f7CW7S0zxv4 at Oxford Union)

 

Desenterrar atrocidades coloniais? Sim, para reavivar a memória e aprender dos erros do passado e, no mínimo, para se ter a humildade de os reconhecer e pedir desculpas! ‘Purificar a memória’, chamou o Santo Papa João Paulo II. Foram 4 milhões de vidas humanas ceifadas pelo capricho de um ‘herói’, com poder e com armas! Qualquer juiz sensato classificaria, sem hesitar, de crime com premeditação.

Desgraçadamente, na colonização britânica na Índia, estes casos macabros nem foram um acto isolado, nem infrequente… O desrespeito pelos cidadãos indianos foi acompanhado de ódio mal contido; talvez por os ingleses se sentirem humilhados com a superioridade moral e intelectual dos indianos que não davam importância ao colonizador. Recorde-se o massacre de Jallianwalla Bagh, no Amritsar, em que centenas de indianos foram mortos a sangue-frio e muitos mais feridos quando se manifestavam pacíficamente, sem nenhumas armas na sua posse!

 

As seguintes palavras pronunciadas no Parlamento britânico, são atribuídas a Lord Macaulay, proferidas em 2 de Fevereiro de 1835 (ele foi membro do Supreme Council of India, quando W. Bentick era Governador-Geral): “Viajei ao longo da Índia e tomei o pulso: não vi nenhum mendigo ou ladrão. Vi tal riqueza no país, tais valores morais, pessoas de tal calibre que não penso que alguma vez consigamos conquistar este país se não partimos a coluna vertebral desta Nação, que é a sua herança espiritual; por isso, proponho substituir o seu velho e antigo sistema de educação e a sua cultura…”

 

Churchill é um herói para os europeus. Mas como pessoa de forte personalidade não admitirá que não seja recordado com todos os seus atributos, em corpo inteiro, sem camuflagens, como sempre foi: herói e assassino de 4 milhões de indianos!

 

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Eugénio Viassa Monteiro

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