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A bem da Nação

CAMINHO DA INFELICITAÇÃO – IV

 

Viagem a fases pretéritas do nosso

(de)crescimento económico

em companhia do

Prof. José da Silva Lopes.

 

LESO-José Silva Lopes.jpg

 

A passagem da fase II – cunhalismo – para a fase III – europeísmo – não foi marcada por nenhum acontecimento espectacular. O líder retirou-se da ribalta em Novembro de 1976 mas os seus adeptos continuaram a influenciar o comando da economia por mais tempo. Fragmentos do modelo cunhalista duraram até 1989, ano em que foram finalmente retiradas da Constituição as suas cláusulas mais esdrúxulas. O III período já não foi caracterizado por qualquer domínio unipessoal, se bem que algumas figuras, designadamente Mário Soares e alguns outros ex-exilados na Europa, fugidos à guerra colonial, se tenham destacado.

 

Os europeístas trouxeram consigo uma inovação que os diferenciou de qualquer dos regimes anteriores: o amor à renda, ao gozo dos frutos da terra sem o trabalho de os semear. Vinham dispostos a aceitar as benesses do capitalismo thatcherista sem os custos inerentes. A melhor definição da índole idiossincrática desta «elite» cabe talvez mais ao Prof. Victor Bento que a classificou de "interessada em (criar), manter e dilatar as suas rendas". O Prof. José da Silva Lopes foi-se sentindo deslocado e afastou-se da gestão da economia publica. Reteve apenas a Presidência do Conselho Económico e Social.

 

Em 1978, Mário Soares deparou-se com os cofres do Tesouro vazios e teve a ideia de pedir dinheiro emprestado a Helmut Schmidt. O professor relata:

Felizmente Mário Soares e Salgado Zenha foram à Alemanha, falaram com o chanceler Helmut Schmidt e este persuadiu o Deutsch Bundesbank a emprestar-nos dinheiro, contra ouro. Foi isso que acabou por nos salvar. Fui a Frankfurt, ao Deutsch Bundesbank. No dia 25 de Novembro estava a explicar tudo sobre a situação portuguesa, numa reunião com todo o conselho do Bundesbank. Ora, as informações que apresentei coincidiam com as que eles já haviam recolhido junto da embaixada alemã em Portugal, como depois me disseram. Mas eu não sabia disso durante a minha exposição! Como expusera a situação real, depois do almoço assinaram um acordo e emprestaram-nos dinheiro contra ouro (reserva acumulada na era salazarina). Atrás deles vieram outros bancos europeus, como o BRI, que já nos fizera um empréstimo no tempo em que o professor Jacinto Nunes era Governador do Banco de Portugal. Passámos a ter vários empréstimos contra ouro e vivemos com eles durante um ano. Mas depois começaram a dizer-nos que não". Esgotada a fonte europeia, tornou-se necessário recorrer à odienta intervenção do FMI.

 

Em 1985, o pedido de Mário Soares de adesão à CEE foi finalmente aceite o que pôs fim ás cláusulas de salvaguarda em matéria de proteccionismo aduaneiro. Mas o intervencionismo não acabou: manteve-se, embora modificado. (Mentira europeia). A protecção aduaneira desapareceu mas os subsídios da CEE e os benefícios fiscais continuavam a reter no Estado uma boa parte da gestão económica. Para os empresários "o negócio dos subsídios passou a ser bem mais importante do que a actividade produtiva normal", comenta Silva Lopes. A questão social (voltamos a Keynes) foi confiada a um Conselho de Concertação Social criado em Março de 1984 a quem se reconhecia competência para definir metas salariais. Repetia-se pois a mentira da Câmara Corporativa salazarina ainda que mitigada agora pela pratica democrática. Na realidade, os salários continuaram sujeitos à lei da oferta e da procura. A reprivatização das empresas nacionalizadas foi negociada e a indústria portuguesa teve que se haver com a concorrência europeia primeiro e logo a seguir com a concorrência global.

 

O governo ainda dispunha então de autonomia em matéria cambial e dela se serviu. Por fim, valeu-se da venda das empresas do Estado. Superada esta, o emprego começou a claudicar e assim também o poder de compra da massa assalariada.

 

O regime europeísta pôs fim à autogestão cunhalista; porém, denotou predisposição para confiar a gestão das empresas a políticos sem formação e menos ainda experiência profissional adequada. Teriam sido estes gestores políticos os responsáveis por aquilo que o professor Silva Lopes descreve como grandes catástrofes económicas do fim do século, a petroquímica de Sines (!), a siderurgia de Moncorvo, a nova fábrica de adubos e a compra de aviões para a TAP. O professor admite que o desvio de racionalidade nestes casos se pode atribuir ao alto nível de corrupção já então instalado.

 

(continua)

 

Estoril, 10 de Maio de 2015

Luís Soares de Oliveira.jpg

Luís Soares de Oliveira

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