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A bem da Nação

BOUQUINER (3)

 

 

1 – E cá vou para o tal BOUQUINER (3) que devia ter sido o (2) mas que a Grécia, e bem, impediu que fosse.

 

Mas existem causas pelas quais nos devemos debruçar, sob pena de outros se debruçarem, vendo que só se fala em euros, contribuintes, eleitorado, poder e que todos os gregos são uns marotos e mais qualquer coisa.

 

É curioso que no governo da senhora Merkel já dois Ministros foram à sua “vidinha” porque andavam encartados com as suas teses de doutoramento e…a senhora Ministra da Educação alemã (não grega) teve de renunciar ao lugar por plágio da sua tese. O Ministro da Defesa alemão (não grego) apresentou logo a sua demissão, quando um curioso foi ler também a sua tese e…verificou que tinha sido plagiada. E o senhor do EUROGRUPO sempre tão criterioso, e colocou como habilitação um Mestrado que Universidade Inglesa veio desmentir, e que o dito cujo senhor depois afirmou que tinha sido descuido da sua parte, e que apenas tinha uma pequena frequência de dois ou três meses. Portanto, seriedade, cada um, toma a que quer. E já agora andam para aí uns indignados com o Tsipras só porque o homem fez aliança com um partido da extrema-direita. E assim…

 

2 – Armas. Que eu me lembre o Doutor Salazar e o Doutor Marcello Caetano não tinham embaixadores no leste europeu. E o leste europeu foi de uma ajuda internacionalista aos Movimentos de Libertação. Certo. Mas nós tínhamos unidades que deviam ser equipadas com armamento “made in” leste. E, agora, já se pode dizer com à vontade, que sempre que eram precisas, o leste europeu, desde que fosse em “contado” forte, não se fazia rogado e… vendia. Quem o diz? O general Costa Gomes em livro já publicado afirma-o com toda a clareza, esclarecendo que da Checoslováquia vinha o material que necessitávamos. E da URSS não vinha nada? É claro que vinha. Quem o diz? Diz o general Carlos Fabião em depoimento publicado, que sempre que era necessário determinado armamento para as Milícias que Comandava (vários milhares de elementos. Sim, vários milhares, um autêntico exército africano), o armamento era fornecido, desde que quem pagava o fizesse em “trocos” fortes. E digo eu agora. Até a Bulgária não se fazia de rogada, quando o negócio fosse atractivo. Quando determinados documentos passam por nós, deixamos de ficar espantados, quando se observam determinadas alianças, hoje. O Alexis Tsipras lá deve ter visto, logo que chegou ao poder, determinadas “coisas” e agora, mais esclarecido sobre a natureza do que é o verdadeiro poder, não se fez rogado nas suas alianças.

 

3 – Negociações. Sou franco. Custam-me certas declarações, a jornais, de colaboradores muito próximos do professor Marcello Caetano. Como que Marcello Caetano era mais “um intelectual do que um político” e que portanto não soube lidar com o poder que tinha. Essa é boa. Então Marcello Caetano não foi um dos homens da União Nacional com mais poder, até na distribuição e equilíbrio do mesmo, e de acordo com Salazar? Não foi ele Ministro das Colónias tendo até levado com ele como seu secretário o na altura muito novo Doutor Silva Cunha? Silva Cunha que depois fez um estudo aprofundado sobre a realidade angolana, onde na década de 40, segundo ele, africanos organizados em associações secretas desejavam a expulsão dos portugueses. Não foi Marcello Caetano ministro da Presidência de Salazar? Dizer que era intelectual e não político, não faz sentido. Agora o que alguns colaboradores deviam dizer, e isso é outra coisa, é que Salazar tinha as suas “velhas” cumplicidades internacionais, fosse o duríssimo Franz Joseph Strauss, o chamado touro da Baviera e líder da CSU alemã, o general De Gaulle que nunca lhe faltou com apoio e, quanto a americanos e ingleses, nem vale a pena fazer uma lista. Marcello Caetano, aí sim, quando chega ao poder, as suas cumplicidades dentro e fora do País também já têm idade avançada e estão arredadas do mesmo. E como dizia De Gaulle “a velhice é um naufrágio”. Espero que no caso dos colaboradores do “A Bem da Nação”, sejam elas ou eles, De Gaulle não tenha razão.

 

4 – Negociações. Outra vez. E os colaboradores próximos de Caetano também vão dizendo que ele até estava disponível para conversar, ou negociar, mas já em 74. Em 74? Então quem é que começou por fazer encontros exploratórios em 1971, repito em 1971, para resolver a questão da Guiné? Marcello Caetano nesse ano mandou ao Senegal o Dr. Alexandre Ribeiro da Cunha, Director do Gabinete dos Negócios Políticos do Ministério do Ultramar, para se avistar com ministros senegaleses, para conversações que depois teriam seguimento em Lisboa. E Marcello Caetano, como oferta pessoal para o Presidente Senghor, mandou-lhe um exemplar encadernado das obras completas de Fernando Pessoa. Até porque Marcello conhecia pessoalmente o Presidente do Senegal que, além de político, era um intelectual da mais fina água. E também quando se diz que era para encetar conversas com alguns dissidentes da FRELIMO, nomeadamente com o

Miguel MurupaDr. Miguel Murupa em 73 ou 74, é com espanto que leio isso. Porque sou testemunha pessoal, repito pessoal, de conversas ao mais alto nível no Comando da Região Militar de Moçambique com o Dr. Miguel Murupa em 1972. No segredo do gabinete não sei o que se passou. Mas não deve ter corrido mal a conversa ou conversas, porque passados dois ou três dias, fui incumbido de ir ao aeroporto de Nampula apresentar cumprimentos de despedida ao Dr. Murupa (não convinha dar nas vistas, a entidade muito acima na hierarquia militar), e levar mensagem, mais uma vez, de confiança e estima pessoal. Agora o que me fica de certas afirmações ou actuações, é que quem rodeava Caetano era gente muito nova na altura, que já se estava a “marimbar” para África e estava a pensar substitui-la pelo “sonho” de entrar na CEE, depois concretizado após Abril. Pois se até conhecidos financeiros e políticos da nossa esquerda actual também rodeavam e estavam com Caetano. E agora venham-me com Tsipras.

 

machel-plane.jpg

5 – Acidente com o Presidente Machel. Que mergulho agora. De que só há pouco tempo tive conhecimento. O tenente-general Jacinto Veloso foi desertor, como tenente piloto-aviador da Força Aérea Portuguesa em Moçambique. E aterrou na Tanzânia para estar ao lado da FRELIMO. Não faço, nem julgo, esta atitude. Tomou a sua decisão, foi responsável pela mesma, e a partir daqui, às claras combateu o Ultramar Português. Fê-lo às claras, quando outros bem dissimulados, combatiam-nos infiltrados. E outros ainda que sem fugirem, pagaram o preço de dizer não. O Aljube, Caxias e Peniche são disso testemunha. Mas vamos ao que interessa. Com o andar dos tempos Jacinto Veloso tornou-se um dos homens de confiança de Samora Machel, e quando da independência nomeado ministro da Segurança, logo principal responsável do temível SNASP (Serviço Nacional de Segurança Popular). Ou seja, a PIDE/DGS lá do sítio. Mas como disseram que era para a segurança popular, as nossas almas caridosas cá do nosso sítio berravam contra a PIDE/DGS, mas em relação ao SNASP nada aos costumes. Agora o tenente-general Jacinto Veloso em livro que, julgo eu, passou muito despercebido, vem explicar o acidente que vitimou o Presidente Machel. O livro titula-se “Memórias em Voo Rasante” e nele, Jacinto Veloso, conta que um dia o embaixador russo quis ser recebido pelo presidente moçambicano, para lhe confessar o seu desagrado em relação à deslocação de Moçambique para arranjar amizades a Ocidente. Samora Machel que não esteve para “aturar” os portugueses ficou irritado com o russo, que o estava a tratar, a ele Presidente, de uma forma que mais ninguém ousava. E Machel não esteve com meias medidas e mandou um sonoro “vai à merda” ao embaixador russo e virou-lhe as costas mandando-o sair do gabinete. E foi aqui que estranhas alianças aconteceram. Os sul-africanos estavam fartos do Presidente Machel, e os russos agora, idem aspas. E o acidente aconteceu como maquinação conjunta da secreta sul-africana com a secreta russa. Coisas

 

6 – … Secretas. Que podem acontecer. Porque Ian Smith, Primeiro-Ministro da Rodésia do Sul que liderou a Declaração Unilateral de Independência deste território à revelia da Inglaterra, nomeou como chefe da sua secreta, o poderoso CIO (Central Intelligence Office),

ken_flower.jpgMr. Ken Flower. Que desempenhou o cargo de forma exemplar na defesa dos interesses do território que era todos os dias atacado na ONU, e que muitas dores de cabeça deu à diplomacia portuguesa. Com o passar dos anos, o governo de minoria branca, não teve outro remédio que ceder às pressões internacionais, dando lugar agora a um governo de maioria negra chefiado por Robert Mugabe, que aos 90 anos ainda está no poder. Mas o curioso disto tudo, quando Mugabe toma conta do poder, tem de escolher um chefe para a sua polícia secreta, e vai escolher…bingo… nada mais que Mr. Ken Flower que tinha chefiado a secreta de Smith. O que é certo, é que conservou o lugar até muito velhinho e não me devo enganar se afirmar que treinou como devia ser quem lhe sucedeu. Porque Mugabe ainda está no poder e qualquer um dos novos que lho disputa é um azarado de primeira porque perde sempre.

 

domingos_arouca.png

7 – Audiência. Preso há quase oito anos, o político moçambicano Dr. Domingos Arouca, ilustre advogado natural de Inhambane (Moçambique) desabafou que um dia até gostava de se encontrar com Salazar para lhe dizer e esclarecer algumas coisas. Era membro da FRELIMO e um activista da causa da independência de Moçambique. Foi aluno na Faculdade do Professor Marcello Caetano e primeiro africano a licenciar-se em Direito. E nunca pensou que o seu desabafo fosse ouvido em São Bento. E ficou siderado, porque Salazar não só o recebeu, como lhe deu 45 (quarenta e cinco) minutos para uma conversa a dois. E no seu depoimento, o Dr. Domingos Arouca confessa que esteve perante um homem sereno e inteligente, seguro das suas convicções e de um patriota. E acrescenta: “por muito que o seu Regime me tenha feito sofrer ao longo de oito penosos anos de prisão, o meu sofrimento nunca toldará o respeito que a sua personalidade me infundiu”. E quando se despede de Salazar fica ainda mais reconhecido, porque o Chefe do Governo diz-lhe que está um pouco de frio, e convém vestir o sobretudo. Domingos Arouca assim faz e é Salazar que lhe ajeita o mesmo e, despedindo-se, diz-lhe que não esteja preocupado com a família porque a mesma se encontra bem. Passado dias o Dr. Domingos Arouca regressava a Moçambique, onde sem armas estava ao lado da FRELIMO na luta pela independência. E com Moçambique independente, chegou o dia em que feliz pela independência, mas revoltado pela maneira como era dirigido o País, deixou a militância partidária. Malhas que o Império tece e teceu…

 

8 – E como vês, Amigo Henrique, não é fácil, pelo menos da minha parte, escrever, e com muito gosto o faço, para o “A Bem da Nação”. Mas gosto de partilhar, com os muitos que te visitam, algumas das memórias que me vão surgindo porque as vivi, ou então pelo que vou tomando conhecimento. E agora, hibernar mais uns tempos, apesar do Verão, olhando para a invernia que lenta mas seguramente se vai aproximando. Mas ao contrário de alguns que só têm 40 anos à sua frente, eu estou seguro da sabedoria de um Povo com 900 anos de história.

 

Abraço de muita Consideração.

 

José Augusto FonsecaJosé Augusto Fonseca

 

Apoio Documental: Costa Gomes – O Último Marechal – Maria Manuela Cruzeiro; Depoimento – Marcello Caetano; Memórias em Voo Rasante – Tenente-General Jacinto Veloso; A Guerra de África1971/1974 (vol. I-II) – José Freire Antunes; Jornal Público; outros documentos.              

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