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A bem da Nação

BARBAS E CORNETAS

 

 

Nascido em Londres em 1724, Friedrich Wilhelm Ernst zu Schaumburg-Lippe foi um notável político e militar alemão que esteve ao serviço de Portugal durante o consulado pombalino. Remodelou totalmente o Exército Português que comandou durante a Guerra Fantástica (1762-69) e a ele se deve o nosso primeiro Regulamento de Disciplina Militar, o célebre RDM. Ficou na nossa História conhecido por Conde de Lippe.

 

Conta-se que nessa primeira versão do RDM o Conde mandou escrever que “o Sargento deve saber ler, escrever e contar pois o Oficial, sendo nobre, pode não saber”. Mais consta que deviam “ir para corneteiros os ciganos, raianos, algarvios e outra gente de mau porte”. Altri tempi, outros pensares…

 

Nunca li essa primeira versão do Regulamento mas lembrei-me dele quando soube que o barbeiro que hoje me afeitava a guedelha tinha sido corneteiro durante o serviço militar. À cautela, não lhe medi o temperamento para não ter que experimentar algum mau porte de tesoura em riste não longe da minha jugular. Pelo contrário, deixei-me ficar em silêncio escutando a conversa que ele manteve com um visitante trôpego que por ali passou.

 

Tinham feito a tropa juntos. O trôpego era o faxina do refeitório dos praças, o barbeiro cortava cabelos, fazia barbas e tocava corneta. E eu pergunto-me: o que ganhou Portugal em ter tido estes dois abencerragens ao serviço? Talvez tanto ou mais do que ganhou comigo uma quinzena de anos mais tarde. Mas do que não tenho dúvidas é de que nós, os milicianos que de lá saímos ilesos, ganhámos muito, no mínimo em experiência de vida e histórias para contar aos netos.

 

Quando o faxina chegou já eu estava em plena sessão de tosquia. Os cumprimentos foram efusivos e temi que o barbeiro vazasse um olho ao trôpego pois abraçou-o sem largar a tesoura e o outro agarrou-se com as muletas a roçar as costas do Fígaro. Foram mais cautelosos no desenlaçar de abraço tão complicado e o barbeiro teve o cuidado de poisar o trôpego numa cadeira ali bem perto enquanto as muletas eram agarradas por outro fulano ali presente que não chegou a fazer parte da minha história.

 

E a partir dali fiquei a saber que o trôpego tem mulher entrevada, que faz a lida da casa, que toma uma pílula verde por dia para a ‘prósta’, um pó branco para não sei quê e que da cintura para baixo está morto desde os 65, já lá vão quase dez. Ao que o barbeiro lhe disse que se deixasse de pós brancos e pílulas verdes e que tomasse a outra de cor azul para «aconchego da alma» … mas que tomasse só uma por semana pois um vizinho ali da barbearia, rapaz novo dos seus 40, tomou demais e caiu para o lado com um ‘enfarto’ fulminante que nem lhe deu tempo de gozar o ânimo da pílula azul.

- Mas oh homem – ripostava o trôpego – eu tenho mulher entrevada. Para que é que eu quero isso?

- Então vai ter com uma morena que as há por aí a vadiar – respondia o barbeiro.

E assim seguia a conversa nestes termos edificantes ante alguém que ambos nunca tinham visto na vida nem sabendo se porventura eu era de reverência especial.

 

E daqui passaram ao relato dos males de próstata de grande parte da população residente em Campo de Ourique, dos «rapazes» da idade deles que «já lá estão», uns por isto e outros por aquilo, dos filhos criados, dos netos esperados, do abandono a que os entrevados se vêem votados, dos bons tempos que já lá vão, do mal que fizeram por não terem descontado mais para a ‘providência’ … do único prazer de que hoje desfrutam e que é a TV Cabo.

- Mas aqueles gajos dos telejornais fazem a nossa vida num inferno. Só falam de desgraças, de misérias, de mortes, roubos e assaltos. Mas será que só há disso? Oh filhos da p… que nos atazanam a toda a hora. Só me apetece cortar-lhes o pio – dizia o trôpego – mas a mulher, coitada, se não vê isso que faz ela?

- Põe-na a ver os ‘Morangos com açúcar’ – dizia o barbeiro

- Ah! Ela vê isso tudo mais os programas da manhã para os reformados que faz aquele p… (maricas) que fala de cozinhados e outras coisas de que as mulheres gostam. Mas eu já falei muito. Agora diz-me tu alguma coisa. Tens um filho, não tens? Pois eu tenho quatro e não posso contar com eles porque cada um tem a sua vida e o que mora em Moscavide teve uma tromboflebite (fantástico, a palavra saiu correcta, pensei eu, o cliente calado do corte de cabelo) que não o deixa trabalhar no negócio que ele tem com um sócio na montagem de cozinhas e uma filha que tenho em Loures e é diabética tem que ser operada a um pé que vamos a ver se não lho tiram. Os outros dois estão na terra, lá em Viseu e não podem cá vir tomar conta de nós.

- Então não queres saber do meu filho? Só falas, falas e falas …

- Quero, quero. O teu filho que faz?

- O meu filho está no penúltimo ano da Universidade.

- E está a fazer o quê?

- Um curso universitário.

- Ah … pois, um curso universitário. E isso que é?

- É lá das filosofias. Ele já era filósofo… ahahah … mas agora vai ficar encartado nisso.

- E esse curso serve para o quê?

- Diz ele que é para pensar…

- Então para pensar ele precisa dum curso? Não o ensinaste a pensar sem curso?

- Ele diz que se pensar com filosofia que não tem que andar à espera do que os outros pensam para poder pensar por si mesmo.

- E quando acabar o curso, o que vai ele fazer?

- Olha, perguntas bem. Vem pensar aqui para a barbearia que eu já estou cheio disto e quero ir lá para baixo, para o Tejo, pescar.

 

Eis como Portugal vai ter um barbeiro encartado em filosofia.

 

- E tu lembras-te daquele a quem chamavam o Timóteo – dizia novamente o trôpego a quem a filosofia pouco dizia.

- Não, não me recordo.

- Era aquele que engraxava as botas do Capitão. Já lá está, coitado. E aquele a quem chamavam Jeremias, lembras-te?

- Não, também não estou a ver quem é.

- Era o cozinheiro …

 

Assim foram nomeados muitos a quem se chamava isto e aquilo. Pelos vistos, nenhum deles tinha nome; apenas eram chamados de qualquer coisa.

 

Até que o meu cabelo foi chamado de cortado e o serviço de acabado. Assim, paguei com notas a que chamam Euros e saí de um mundo tão irreal para mim como outras galáxias a que nunca fui.

 

E tenho eu a veleidade de julgar que conheço o povo a que pertenço …

 

 Henrique Salles da Fonseca

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