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A bem da Nação

AVIGNON - 2

Já só se deve ir a Dublin depois de ler «Ulisses» - sob pena de se perder a epifania da cidade. Mas se um livro assim tão gordo incomoda os seus braços, contrate guia turístico capaz de descrever a essência dos lugares, a «epifania joyceana», como lhe chamo.

Foi, pois, na companhia desta sugestão de James Joyce que dei ordem às pernas para me passearem por Avignon…

Da janela do nosso quarto quase poderíamos espreitar para a intimidade dos aposentos papais e cometer alguma indiscrição caso Suas Santidades por ali estivessem. Não as invoquei com a convicção suficiente para as vislumbrar se por ali pairassem. Mas deu para sentir um ambiente pesado, menos de pompa que de cativeiro. Palácio-Catedral ou Prisão domiciliária papal? Esta última, a versão que tenho por mais evidente durante o reinado de Filipe o Belo e Pontificado de Clemente V (ambos morreram em 1314) mas depois o ambiente foi-se suavizando… até porque Petrarcha considerava Avignon «a cidade mais imunda e insalubre do mundo». Vai daí, um dos Papas conseguiu criar as condições convenientes à obtenção da autorização régia para construir novo palácio do outro lado do rio, em Villeneuve, bem como de grandes jardins onde Suas Santidades se poderiam aliviar dos fluxos naturais. Então, em paga de tanta generosidade (homenagem da vítima ao seu carrasco), o tal Papa - cujo nome não interessou a qualquer dos meus neurónios com função ligada à memória -   assumiu a construção da «Tour Philippe».

Palácio papal na janela do quarto, ao sairmos do hotel, estávamos no centro daquele mundo, a «Place de l’Horloge» em que nada acontece quando não acontece ali. Restaurantes e esplanadas porta sim-porta sim bem nutridos de clientela, ringue de patinagem no gelo pejado de crianças, criancinhas, papás e mamãs, carroussel com música até às árvores… A vida como deve ser em época festiva de finais de Dezembro; a Câmara Municipal (Hotel de Ville), o Teatro, o «Banco de França». Duas particularidades: o próximo «Festival de Teatro de Avignon» será dirigido pelo português que até há pouco dirigia o nosso «D. Maria II»; aquela agência do «Banco de França» que passou a emitir escargots, primeurs, poisson meunière… sim, virou restaurante. Aqui fica a sugestão para as agências regionais do nosso BdP - à falta de melhor vocação, vire-se a instituição para as bifanas e sandes de coiratos.

Mesmo no centro do centro histórico desta importante cidade medieval, poucas (ou nenhumas) as fachadas dos edifícios que mantêm alguma estética antiga. Falta grave! Numa cidade em que cada pedra removida teria uma história para contar… bastaria ter mantido a aparência antiga das fachadas, os interiores que sejam todos modernos.

Desde os bancos da escola que eu sabia que a célebre ponte de Avignon estava incompleta pelo que, não desempenhando a função para que fora imaginada, passara a ser usada como local aprazível a que os foliões se dirigiam para ali dançar em roda. Mas não foi bem assim: a ponte foi concluída após sucessivas subscrições públicas mas umas desgraçadas obras de hidráulica no leito e margens do Ródano (Rhône, como por lá chamam ao rio), fizeram com que no degelo alpino seguinte metade da ponte abalasse por ali abaixo… até hoje. Tempos medievais em que a engenharia dos flúidos não tinha o apuro de hoje.

Habituadas à meia-ponte, as gentes parecem por ali felizes.

(continua)

2 de Janeiro de 2022

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