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A bem da Nação

AS SENSIBILIDADES LÍRICAS E AS SOLUÇÕES PRÁTICAS

 

Retomo a pluma de Alberto Gonçalves do “Fórum” do DN de 13/4, pluma não caprichosa mas suficientemente espirituosa para merecer sorriso de apreço e adesão de quem se identifica com o mesmo universo crítico. Neste caso sobre os trinados do poeta Manuel Alegre, de cujas mensagens escorre a doçura soturna e acabrunhada da saudade pátria – outrora, em ausência física, questionando ventos mudos, agora, em presença taciturna, erguendo o brado espicaçante dos ânimos grandolares contra um governo inepto, para que elejam um governo apto, coisa de que, aliás, andam à procura desde o “Abril” dos inícios – agora com novo arrimo, sempre estimulados, pelos das prosas também. E o “Abril do trigo” (certamente que ainda tenro, “blé en herbe”, da ternura), teve audiência “séria”, porque nestas coisas do intelecto e do sentimento a oposição mostra-se sempre séria e comovida, para maior efeito esclarecedor das suas delicadezas de alma:

 

9/4 - «Abril sempre»

 

Manuel Alegre acha que o 25 de Abril "não pode ser só mais uma data no calendário". E, no que depender dele, não é. À semelhança dos campeonatos internacionais da bola, em que nunca lhe faltam uns versos dedicados a Figo ou a Cristiano Ronaldo, a cada aniversário do golpe de Estado o poeta ameaça soltar a lira. Desta vez, se calhar porque a lira anda desgastada sob a opressão da troika, fê-lo sob a forma de uma antologia poética (título: "País de Abril") e respectiva sessão de lançamento.

 

Pelas descrições, a cerimónia, realizada no quartel do Carmo, deve ter sido belíssima. Na plateia, Maria de Belém, José Sócrates, António José Seguro, Almeida Santos, Vasco Lourenço e etc. ouviam embevecidos. No palco, os fantasmas de Francisco Fanhais e de Manuel Freire entoaram versões musicadas da obra em causa. O autor da obra recitou umas coisas, do gabarito de "Era um Abril de amigo/ Abril de trigo/ Abril de trevo e trégua e vinho e húmus/ Abril de novos ritmos novos rumos./ Era um Abril comigo/ Abril contigo" (título: "Abril de Abril") e de "Que o poema seja microfone e fale/ uma noite destas de repente às três e tal/ para que a lua estoire e o sono estale/ e a gente acorde finalmente em Portugal" (título provisório: "País de Abril"). Nem a obsessão temática nem o recurso a "húmus" para rimar (?) com "rumos" levou a audiência às gargalhadas. Aquilo é gente séria.

 

E foi a sério que Manuel Alegre acrescentou uns comentários à situação actual. Para ele, as políticas de austeridade "cortam as dimensões da vida e a música das vogais". Também tinha essa impressão. Fica, porém, uma palavra de esperança: "A poesia pode libertar a língua." E, de facto, a língua travada é um aborrecimento, quase tão grande quanto o rancor de uma clique que sonhou fazer do "país de Abril" o seu quintal e, pelo caminho, deparou com uma população discordante. Ainda por cima, a população vota: assim não há democracia possível. Ou, nas palavras do bardo, arriscamo-nos a "perder Portugal como futuro do passado", o que em português de gente é igual a mandar o povo chatear o Camões. Certo é que até dia 25 não faltarão lengalengas do género. E igualmente certo é que os donos do regime nem sempre mandam no regime, o que sem dúvida constitui uma ironia. Poética, se quiserem.

 

Também me parece um achado de ironia e humor o artigo «Ainda não chegamos à Noruega» sobre as discussões em torno do salário mínimo. Parecem, de facto, despudoradamente míseros, tais discursos sobre uns trocos a mais ou a menos que os partidos da solidariedade entendem por bem estabelecer para os pobrezinhos. Nenhum partido, de facto, se expõe a discutir os salários máximos e os porquês desses, creio que com receio de represálias, que os poderosos podem sempre exercer, com a sua faca e o seu queijo na mão. Creio que o objectivo maior nessa fixação dos mínimos é o da irmanação gradual com os salários médios, numa tentativa de igualitarismo social massificante e gratificante, ignorando competências, esforços e outros quaisquer atributos que promoveram esses, exceptuando, na contagem, as franjas milionárias discrepantes, que um país matreiramente pouco ilustrado sempre possibilitou impunemente. Contudo, os países trabalhadores lá do norte europeu não têm esses mínimos, atrasados que estão em relação a nós. Em questões de solidariedade social damos cartas ao mundo, traduz Alberto Gonçalves, sociólogo:

 

12 /4- «Ainda não chegamos à Noruega»

 

Começo por um esclarecimento: acho o salário mínimo nacional uma miséria, e felizmente desconheço, ou conheço por mera observação, os esforços daqueles que vivem com 485 euros mensais. Dito isto, também acho estranho que os proponentes do aumento do salário mínimo defendam apenas a subida do dito em uns trocos. O PCP e a filial CGTP querem 515 euros. O Bloco de Esquerda queria 515 euros e agora quer 545. O PS quer qualquer coisinha. A UGT quer 500 euros. O Governo quer estudar números. E sumidades avulsas falam em 510 ou 507,42 euros como se, mesmo para quem conta os cêntimos, 15, 25 ou, vá lá, 50 euros removessem uma pessoa da penúria. Se a ideia é promover uma existência decente para cada cidadão, julgo que dois mil euros cumpririam a função. Se a ideia é promover a prosperidade geral, é esquisito que ninguém apareça a propor um salário mínimo de dez mil euros.

 

Porque é que é assim? Porque, a haver um salário mínimo, convém que o respectivo valor mantenha algum vínculo com a realidade, sob pena de espatifarmos o País ainda mais depressa do que o Eng. Sócrates chegou a sonhar. Ou seja - e reparem que recorro a termos infantis próprios dos leigos e dos sociólogos não marxistas (somos cerca de três) - convém que o salário mínimo dependa da produtividade, caso contrário o efeito do seu aumento desenfreado será, no primeiro dia, foguetório e arraial e, no segundo dia, crescimento do desemprego e desastres em série. Nem o sr. Arménio Carlos, que daria um bracinho para assistir à ruína disto, sugere salários tão absurdos. Mas o debate, ou o sortido de resmungos que aqui passa por debate, é absurdo quanto baste.

 

Com o descaramento que as caracteriza, as sumidades que embelezam a nossa política lançam quantias ao calhas ou, para sermos exactos, de acordo com o que julgam "mobilizar" o seu eleitorado, aliás facilmente "mobilizável". Nenhuma procura sequer discutir o interesse da existência de um salário mínimo, que de repente me parece uma limitação brutal dos direitos dos cidadãos. Só por mencionar o assunto arrisco-me a uma condenação por "fascismo" e falta de "consciência social", calamidades que arrasaram por exemplo a Alemanha, a Noruega, a Suécia e a Finlândia, lugarejos do Terceiro Mundo onde a ausência de salário mínimo afundou os trabalhadores numa inominável pobreza. Não é à toa que emigram para Portugal aos magotes.

 

 Berta Brás

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