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A bem da Nação

AS “EXEMPLARES” DESCOLONIZAÇÕES PORTUGUESAS

 

 

Muito interessante o livro “Mazagão – la ville qui traversa l’Atlantique”, de Laurent Vidal, um detalhado estudo sobre a famosa, e quase esquecida, transferência de toda a população duma cidade no Marrocos para uma nova terra perdida em local perdido na Amazónia.

 

El Jadida (Mazagão).jpg

Vista aérea, actual, de Mazagão, hoje chamada El Jadida

 

Talvez pouca gente saiba que, em 1769, Portugal decidiu abandonar a praça forte de Mazagão, isolada em território marroquino, com uma ilustre folha de serviços, na constante luta contra os mouros, e transferir cerca de 2000 pessoas, para um lugar a criar de novo nas margens do Amazonas.

 

Teve duas finalidades essa transferência de toda a população: primeiro acabar com o custo imenso de manter uma fortaleza, isolada na costa de Marrocos, abastecida por mar, apesar de no seu entorno os portugueses manterem uma espécie de horta e pomar, e sofrendo constantes ataques das tropas marroquinas, e ao mesmo tempo criar o maior número possível de vilas e defesa ao longo do Amazonas – Estado do Grão Pará – região cobiçada por uma série de potências, como a Inglaterra e França e até os Estados Unidos.

 

A folha de serviços de Mazagão marroquino é, a todos os títulos, notável. Uma pequena “cidade” fortificada, com saída directa para o mar, habitada por gente denodada que defendia o cristianismo contra o “paganismo dos mafomas”. Por outro lado a presença dessa pequena terra encravada em solo maometano era um “tremenda ofensa” para os seguidores de Maomé, e por muito e muita gente de que dispusessem, os mouros nunca foram capazes de vencer aquela posição. Só depois que Portugal se viu mais do que endividado – para variar – e ter concluído que a luta era insana, sem qualquer proveito nem para a cristandade nem para os cofres reais, é que negociou com o Sultão a entrega da praça fortificada, deixando sair toda a gente e podendo levar todos os seus pertences.

 

El Jadida planta.jpg

Mapa de Mazagão e suas hortas, vendo-se como era protegida a entrada/saída para o mar

 

"Mazagão", em terras marroquinas, encontrava-se sob o domínio da Coroa portuguesa desde 1486, embora os portugueses apenas nela se tenham instalado só a partir de 1502 quando ergueram uma torre e algumas instalações de campanha. Foi apenas em 1514 que a Coroa portuguesa decidiu a fortificação permanente do local. Em 1561 os mouros cercaram Mazagão com um exército de 150.000 homens, que abandonam dois meses e meio depois de terem sofrido mais de vinte e cinco mil baixas em combate, contra somente cento e dezassete portugueses.

 

Vale a pena, sobre este cerco, ler uma espantosa história tirada do livro “Homens, Espadas e Tomates” de Rainer Daehnhardt:

 

“Corria o ano de 1562 e o Rei de Marrocos, Xerife Muley Abdala, tinha conhecimento de que a guarnição portuguesa de Mazagão estava fortemente reduzida, tendo aí ficado apenas alguns mal providos arcabuzeiros. O Capitão-mor estava ausente e o mouro decidiu recon­quistar a praça portuguesa. Juntou um exército de 15.000 cavaleiros, 8.000 arcabuzeiros, 70.000 soldados de infantaria, com 12.000 gasta­dores e gente de serviço. Para os governar, mandou por Mestre de Campo General um cristão renegado, soldado velho e muito experi­mentado na guerra e que estivera muitos anos ao serviço do Imperador Carlos V.

Enviou também muita gente de artilharia e fidalgos de toda a Mauritânia, que consigo queriam compartilhar esta vitória segura.

 

Cercando a praça, viu que a sua artilharia seria de pouco efeito pe­rante as dimensões da muralha. Mandou então fazer uma trincheira de terra, com baluartes, tão alta que igualasse o muro para melhor com­bater os portugueses. Comandava a praça o Capitão-mor Rodrigo de Sousa com 100 cavaleiros e 700 infantes.

 

As notícias do cerco chegaram a Portugal e perante a grande desigualdade do número de combatentes resolveram muitos portugue­ses, sem licença da Rainha-Regente, Dona Catarina (D. Sebastião ainda só tinha 8 anos), fazerem-se ao mar para acudir à nossa gente. Um Jorge da Silva reuniu no Algarve 300 guerreiros voluntários e 100 marinheiros, que se fizeram a Mazagão à sua custa num velho navio, o que muito animou os sitiados. Os mouros, entretanto, atacavam a praça por todos os lados, ao mesmo tempo que construíam a sua rampa gigante para daí encher o fosso e chegar ao cimo das nossas muralhas.

 

A trincheira era tão larga que "pateavam por ela sessenta cavalos, todos a par". Considerando a sua rampa pronta, acometeram a praça, todos pelo mesmo lado, rompendo com a nossa defesa e implantando uma grande bandeira numa das nossas torres. A fúria dos nossos foi tanta que se envolveram com os mouros numa luta corpo a corpo, de tal forma que os corpos dos mortos e feridos enchiam o lugar. Não aguentando a nossa fúria, os mouros retiraram-se, perdendo milhares de homens e cinco das suas bandeiras. O cronista conta-nos: "Durou esta sanguinolenta e cruel batalha bem quatro horas, e foy de ambas as partes tão bem pelejada, que se não sabia julgar melhoria de algu­ma em todo aquelle tempo: espectáculo verdadeiramente horrendo à vista, e muy digno de ser estimado de todos.

 

Não conseguindo tomar a fortaleza pelo assalto directo, resolveram então os mouros, com a perícia dos seus engenheiros, construir uma grande mina para tentar chegar à muralha, por baixo. A sua ideia era rebentar uma grande quantidade de pólvora que derrubasse a nossa muralha, para assim mais facilmente poderem entrar.

 

Os nossos ouviam os toques de picareta e resolveram construir uma contra mina. No escuro da terra, encontraram-se e envolveram-se numa batalha sangrenta de onde os nossos saíram vencedores e depois se retiraram. Pensaram então os engenheiros mouros que os portugueses lhes tinham feito um favor com a contra mina, pois facilitara-lhes o avanço sob as muralhas. Fizeram de conta que tinham desistido de se aproximar por esta mina mas, na calada da noite, foram introduzindo grandes quantidades de barris de pólvora.

 

O que os mouros desconheciam é que, na realidade, havíamos cons­truído não uma mas duas minas, a coberto do barulho causado pelas suas próprias picaretas! Uma encontrava-se ao nível da deles e, a outra, mais abaixo. Já estávamos a contar que reutilizassem a sua mina e que a enchessem de pólvora. Entretanto, tínhamos colocado grande quan­tidade de pólvora na segunda, precisamente por baixo da mina deles e entupido a de cima. Antes que os mouros se aproximassem demais da fortaleza, fizemos rebentar a nossa. A deles explodiu juntamente. A intensidade do estrondo foi tal que levantou o planalto onde se encon­trava grande número de mouros! Conta o cronista: Levantou-se para o ar huma grande montanha de terra, bem povoada de lustrosos sol­dados mouros, e turcos, e todos armados, forão pelo ar feitos pedaços.

 

Foram mais de mil cavaleiros mortos, e feridos, e queimados hum numero quasi infinito. E o terreno se rebaixou mais de vinte palmos, tanto que ficou a nossa artilharia descuberta, e começou avarejar grande estrondo, acompanhado da arcabuzeria, e matava nos mouros com espanto.

 

Deve ter havido poucas explosões, antes do actual século, com esta envergadura e resultado!

(Pedro de Mariz: "Diálogos de Varia Historia", tomo II, diálogo quinto).”

 

El Jadida cisterna.jpg

A cisterna, por baixo da cidade

 

A guarnição portuguesa permaneceu sempre fiel e disposta sempre a dar a vida pelo rei e pela Cruz, honrando-se os seus habitantes dos feitos presentes e dos seus antepassados.

 

Alguns passaram anos prisioneiros dos mouros, aprendendo a falar árabe correctamente. Nas vésperas do abandono, Portugal pagou 800.000 reis para resgatar trinta e cinco prisioneiros portugueses.

 

Muito deles eram cavaleiros fidalgos, jovens que procuravam nas armas demonstrar a sua valentia e procurando o reconhecimento real, sempre à espera de novos ataques, sem que um só dia esmorecessem.

 

Furtado Mendonça, irmão do famoso e famigerado Marquês e Pombal, ministro da Marinha, foi o mentor e coordenador do abandono daquela cidade, entretanto novamente cercada por mais de 120.000 mouros “garantindo” que os portugueses não voltariam atrás no acordo, decidindo transferi-los, como colonos, para a Amazónia onde seria criada uma nova povoação, a Nova Mazagão.

 

Era gente preparada para lutar e defender as suas convicções, nenhum deles agricultor, sem mentalidade de colonos, muitos cavaleiros fidalgos, alguns tendo sido agraciados por mercê com o Hábito de Cristo, o equivalente hoje à honorífica Ordem Militar de Cristo.

 

E, de repente, todos são retirados da sua cidade-fortaleza, levando consigo pouco mais do que a roupa que tinham vestido, fazendo transbordo em Lisboa, como um bando de refugiados, para serem, como degredados, enviados para o “fim do mundo”, onde a maioria veio a passar fome e morrer de malária.

 

Este deslocamento de toda uma comunidade, brutal, fria, lembra os actuais campos de refugiados, onde vivem em condições quase zoológicas milhares de curdos fugidos ao extermínio.

 

Um desenraizar total, a perca dos vizinhos e amigos, da sua casa, da sua estrutura de vida, um autêntico inferno para adultos e crianças, que não sabem o que estão a fazer em barracas. Tal se passou em 1769.

 

Poucos conseguiram sobreviver de forma relativamente condigna, e de toda essa gente só dois foram capazes de se adaptar ao novo ambiente amazónico e viver da agricultura, através do trabalho de escravos e de índios que lhes foram entregues.

Portugal deveria ter prática de colonização. Começa no século XII com a Reconquista, levando gente do norte para ir ocupando o centro e sul do país. No século XV foram as ilhas, Madeira, Açores e Cabo Verde, mais tarde é Afonso de Albuquerque que promove o casamento de portugueses com mulheres indianas. A seguir foi São Tomé e o Brasil. Por fim Angola e Moçambique.

 

Mas as descolonizações foram “exemplares”, como esta de atirar com dois milhares de pessoas para o interior da Amazónia, sem que houvesse a preocupação de previamente criar condições de sobrevivência, e mais tarde o abandono das colónias de África e Timor, entregando os seus habitantes a infindas guerras fratricidas e os portugueses às suas sortes, espalhados depois pelos quatro cantos do mundo.

 

Por agora só lhe resta a possibilidade de... promover a descolonização do seu território europeu, dos milhares de novos colonos, idos do Leste Europeu, de África e do Brasil!

 

Passado glorioso com páginas lastimáveis.

 

Hoje a ex-Mazagão, El Jadida, está inscrita no Património Mundial da UNESCO. Uma beleza.

 

29/10/2014

 

Francisco Gomes de Amorim

Francisco Gomes de Amorim

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