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A bem da Nação

AS DUAS FACES DA CRISE – 2

 

 

A crise actual denominada de 2008

 

... que afectou o nosso país e praticamente todo o mundo, na verdade não só tem duas componentes, uma nacional e outra internacional, mas também teve início algum tempo antes, tempo esse conforme a componente a que se referir. Pois a componente nacional começou a definir-se na segunda metade da década de 80 enquanto a internacional tenho mais dificuldade em fixar o seu início mas certamente foi anterior.

 

Convém alertar o leitor para o perigo que advém de se considerar a nossa crise como uma consequência inevitável da internacional obviamente desresponsabilizando os maiores responsáveis quando na verdade não é assim totalmente pois se tivéssemos tido uma gestão eficiente por parte dos nossos Órgãos de Soberania, a nossa crise teria certamente sido muito mais ligeira.

 

Porquê falar agora e assim? Porque as acções a realizar na gestão, seja de uma família, de uma empresa ou de um país, têm que ter em conta o passado, particularmente o mais próximo e analisá-lo correctamente de forma a corrigir da melhor forma o rumo correcto tal como acontece quando se conduz qualquer veículo. Se assim não for feito, os resultados serão garantidamente desastrosos.

 

Ora o que tem acontecido desde 2008 é essa análise ter sido insuficiente e assim o rumo seguido continuar a gerar resultados muito negativos tanto para a nossa independência como para a nossa riqueza e portanto para a vida da nossa população.

 

Agora peço a vossa atenção para me acompanharem na recordação do caminho que eu próprio fiz na vivência desta crise.

 

Revolução.jpg

 

 

Primeira face:

 

As minhas primeiras intromissões activas na política portuguesa deram-se quando no início da década de 70, por volta de 72/73 me convenci que havia sintomas de grande fragilização no poder instalado e talvez ainda houvesse alguma possibilidade de ser feita uma “revolução interna” que permitisse corrigir alguns dos erros mais pesados do passado recente.

 

Assim como tinha um amigo que ocupava um lugar cimeiro do poder e eu era responsável por uma empresa de consultadoria de gestão, apresentei-lhe o resumo de um diagnóstico da situação e de uma alternativa de solução, mas após uma segunda reunião que ocorreu por volta de Outubro de 73 ficou claro não haver qualquer vontade concreta de tais mudanças serem realizadas e acabei por lhe dizer quando nos despedimos que não lhe dava mais de seis meses de permanência no poder.

 

E de facto assim aconteceu…

 

Mas tal como foi a revolução de 1910, que foi mais perdida por quem estava no poder do que ganha pelos revoltosos, também esta de Abril de 74 foi mais perdida pelo Governo de Marcelo Caetano que ganha pelo MFA como tive ocasião de verificar quando pude ler um relatório da PIDE para o então Presidente do Conselho de Ministros onde ficou clara a sua decisão de permitir a revolução com um presumido controle que de facto não era minimamente viável, e além disto com a minha própria experiência visto ter sido membro dos 2º e 3º Governos Provisórios e mais tarde do Governo da AD.

 

E o resultado foi idêntico ao de 1910: o regime recém instalado era frágil e a natural instabilidade durou quase uma década até se atingir com o IX Governo Constitucional a estabilidade indispensável que permitisse finalmente o desenvolvimento económico e social desejável para o País e para a população pois em tempos idos o País tinha estado melhor mas a população nem por isso.

 

Durante este período de meados da década de 80 a 98, inicia-se uma mudança a nível financeiro e económico mundial de desregulação e liberalismo com Reagan nos EU e Tatcher em Inglaterra que propiciaram no início grandes vantagens para estes países mas com consequências seguintes muito prejudiciais para os países mais fracos e para os que não souberam defender-se. O desenvolvimento das “futures” e de outros produtos financeiros de elevado grau de risco e muito susceptíveis de especulação veio aumentar a perturbação dos enormes volumes de dinheiro movimentado sem controle e acabou por iniciar uma crise mundial de especulações e imparidades que explodiu em 2008 afectando principalmente os países que não souberam defender-se eficazmente com uma gestão eficiente.

 

Convém para melhor se entender a minha visão deste tema notar que a crise internacional eclodiu em 2008 e a nossa três anos depois, o que significa que durante estes três anos não só nada se fez para prevenir os efeitos daquela eclosão como ainda nos afundámos mais…

 

Os anos 80:

 

A partir de segunda metade da década de 80 o rumo da política portuguesa foi seguidista do neoliberalismo em início de carreira por Reagan e Tatcher e logo a seguir com a entrada dos fundos europeus foi-se desenvolvendo em Portugal um clima de despesismo, não de investimento produtivo, que ajudado pelos baixos juros até 1998 já tinha destruído parte importante da nossa capacidade produtiva industrial, tinha impedido a recuperação de parte relevante da nossa Marinha de Comércio, tinha atropelado algumas iniciativas privadas como por exemplo o C. C. Belém, tinha desenvolvido o sector imobiliário havendo informações, embora pouco seguras, de que os valores dos empréstimos eram substancialmente mais altos que a realidade, tinham continuado a aumentar as despesas do Estado, também havia informações por vezes algo difusas da existência de elevadas quantias movimentadas fora do controle que aliás a desregulação em marcha só facilitava.

 

E tinha-se a noção de se ter formado uma classe de intermediários dos fundos europeus entrados no País constituída por elementos dos partidos políticos e privados que pouco ou nada produziam e eram pois essencialmente parasitas da nossa população produtiva.

 

Assim em 1998 convenci-me de que estavam criadas as condições para a eclosão, em data que eu não conseguia prever, de uma crise económico-financeira de enorme dimensão a nível global mas garantidamente também a nível nacional.

 

O que me levou a tratar rapidamente de resolver um problema familiar de partilhas que ficou resolvido em 2000 uma vez que toda a família concordou com as minhas previsões embora por alguns consideradas excessivamente pessimistas.

 

Antes de passar para a segunda face não posso deixar de recordar a minha estupefacção perante o facto de eu não sendo economista ter tido esta previsão e durante todo o período de formação da dita crise não ter reparado em qualquer chamada de atenção dos economistas e financeiros de serviço para o que se estava a preparar, particularmente para os que não trabalhavam na Banca pois estes estavam a ter chorudas gratificações com os lucros resultantes dos elevados montantes de créditos processados, que mais se verificou se terem tornado em imparidades.

 

É claro que o que se passou nos anos a seguir a 98 ainda é mais relevante porque as despesas do Estado a aumentarem, o volume crescente de entradas de dinheiro quer em fundos europeus quer em empréstimos ao Estado e aos privados e a manutenção sistemática do mesmo nível do PIB nacional não permitiam qualquer dúvida ao que acabou por acontecer em 2011.

 

E quanto a responsáveis pela crise o que há a dizer: quase toda a gente começando pelos políticos que governavam, isto é Órgãos de Soberania e Autarquias mas também os poderes corporativos e os muitos privados que se endividaram excessivamente mais para consumo que para investimento produtivo.

 

(continua)

 

XXII Colóquio dos Olivais

 

Novembro 2016

Eng. J.C. Gonçalves Viana

José Carlos Gonçalves Viana

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