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A bem da Nação

AS CUECAS DE WAGNER

 

Richard Wagner usava roupa interior feita à medida e de seda. Esta, tinha que ser duma qualidade considerada extrafina e resistente e só era vendida por um certo comerciante em Basileia.

Tribschen, a mansão que o rei Luís da Baviera mandara construir perto de Basileia para seu próprio descanso mas que pusera também à disposição do compositor, foi o local que Wagner aproveitou para compor parte importante da sua obra operática. Foi também aí que nasceu Siegfried, o terceiro filho que teve com Cosima, a filha de Liszt.

Construída ao gosto de um louco perdulário e usada para que um excêntrico desse largas à sua genialidade musical, em Tribschen vivia-se num mundo muito diferente do que era próprio da gente comum.

Quando Nietzsche assumiu a cátedra de Filologia Clássica na Universidade de Basileia, logo aproveitou para visitar o seu ídolo musical com quem na juventude trocara alguns pontos de vista sobre a tragédia grega – tema que levou o compositor a passar a escrever-lhe com frequência e que fundamentou uma amizade perene.

A relação intelectual entre Wagner e Nietzsche foi tal que em Tribschen só o Rei Luís, Wagner (e respeciva família) e Nietzsche possuíam aposentos privados. O Rei ia lá raramente, o compositor vivia lá em permanência e o filólogo (que ficou conhecido como filósofo), ia lá passar os fins de semana e as férias.

As longas conversas entre Wagner e Nietzsche rondavam sobretudo a tragédia grega a qual servia de inspiração às óperas que o compositor ia produzindo. E Nietzche era a única pessoa autorizada a permanecer na sala contígua à que Wagner usava como sala de trabalho – assim ficando «à mão de semear» para qualquer esclarecimento filológico - e ter-se-á mesmo referido algures ao ritmo de trabalho do compositor como começando por trautear ou mesmo cantar na sua voz rude um trecho, seguido de breves instantes de silencia enquanto se dirigia ao piano para ouvir o resultado do que imaginara, seguido de novo silêncio durante o qual Wagner passava para a pauta a versão que considerava definitiva.

Entretanto, o adiantado estado de gravidez de Cosima provocava-lhe muita inércia pelo que, certa vez, chegou mesmo a pedir a Nietzsche que comprasse em Basileia uma peça de seda para os efeitos já nossos conhecidos. Sim, claro que o faria e no fim de semana seguinte já traria a encomenda.

Durante a semana que ia decorrendo na Universidade, Nietzsche sentia-se cada vez mais embaraçado mas encheu-se de coragem e pediu a um aluno que lhe indicasse uma loja onde pudesse comprar uma peça de seda. O aluno não teve qualquer dificuldade em responder e na primeira oportunidade Nietzsche dirigiu-se ao local indicado mas não teve «lata» de dizer que a seda era para fazer umas cuecas a Wagner e comprou a primeira seda que o lojista lhe apresentou.

Chegado todo ufano a Tribschen no fim de semana seguinte, entregou a encomenda a Cosima que logo lhe agradeceu muito, lhe pagou e abriu o embrulho. O filósofo logo se apercebeu de que a qualidade da seda não era a indicada para as partes íntimas de Wagner mas ninguém teceu qualquer comentário e fica para o infinito dos tempos o esclarecimento da questão de qual a influência indirecta que Nietzsche provocou nas partes pudibundas wagnerianas e, quiçá, nos acordes e dissonâncias do Anel dos Nibelungos.

Agosto de 2019

Henrique Salles da Fonseca 

Bibliografia:

«EU SOU DINAMITE - A VIDA DE FRIEDDRICH NITZSCHE» - Sue Prideaux, Círculo Leitores, 1ª edição, Abril de 2019

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