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A bem da Nação

ARÁBIA FELIX – 3

DIÁRIO DE BORDO.png

UM QUASE DIÁRIO DE BORDO À MINHA MANEIRA

 

14/03/19, 05:08 - Vamos aportar a Salalah onde entrarão os snipers a bordo para nos protegerem na zona perigosa.

A "trincheira" que me está destinada é no casino, atrás duma slot machine. Eis por que associo pirataria a "Bally", o modelo da máquina.

Os snipers mandaram dizer ao Comandante do barco que ultimamente não tem havido pirataria e que com navios de cruzeiro nunca houve. Que talvez seja desta...

17:30 – Os snipers são 14 tunisinos e estão autorizados a atirar a matar TUDO o que vejam a mexer na água e de que desconfiem. Cruzei-me na escada do portaló com dois deles e garanto que NÃO será nos próximos dias que tenciono nadar à volta do navio. Desta vez opto pela piscina.

16/03/19, 20:15 - Frente a Djibuti, devemos passar o Estreito de Áden nas próximas horas. Até agora, sem problemas mas a rapaziada sniperiana tem infravermelhos para nos guardar a noite.

17/03/19, 08:25 - Em plena luz do dia (são 11,21 h da manhã), foram avistados 2 grupos de piratas que não se aproximaram para cá de uns 500 metros. Foi giro ver os vigilantes e os snipers a postos mas não chegámos a ser mandados para o interior do navio porque os putativos assaltantes se afastaram. E isto já no Mar Vermelho, não no Golfo de Áden que é a zona mais problemática.

12:11 - Tudo se esfumou...

Já o Almirante sem medo dizia "É só fumaça". Pode ser que logo à noite a "coisa" melhore.

14:14 - Até Aqaba, tudo pode acontecer. Só lá é que sairão os snipers.

18/03/19, 09:51 - MISTÉRIO

Pelas 3,30 h desta madrugada, calou-se de repente a música da discoteca e os foliões foram mandados "recolher a quartéis" SEM percorrerem os decks exteriores.

Eu dormia o sono próprio de quem tinha levado uma grande tareia (uma massagem forte ao corpo todo ministrado por uma filipina com 1,40 m de altura mas com uns polegares lancinantes).

Pela nesga duma cortina, houve quem percebesse que estávamos acompanhados por outro navio e que ambos estávamos parados, apenas com os motores em ponto morto.

A Graça ouviu barulhos (que não identificou) contra o casco.

E eu dormia... Que pena! Perdi toda a adrenalina correspondente a tal mistério. A ver se alguém da tripulação solta a língua... Se sim, contarei.

15:49 - Navegamos agora frente a Djedah, o mesmo é dizer Meca. Eis por que me lembrei da expressão "se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha". Assim, não sabendo ainda o que se passou a noite passada, vou agora mesmo à procura dos vigilantes e dos snipers para lhes perguntar. Devem estar no deck 8, o que coincide com o do bar. Melhor porque en passant... molha-se a palavra.

19/03/19, 07:10 - Pelas 4 da manhã, fui acordado por um cheiro forte que circulava pelo ar condicionado. Parecia cheiro a combustível. No nosso deck, só há camarotes exteriores mas os janelões (enormes) são fixos, não se podem abrir. Fui ao corredor tentar averiguar qualquer coisa e encontrei um membro da tripulação que andava de nariz no ar a fazer tanto como eu.

Deixei ficar a porta do camarote aberta para o caso de termos que sair à pressa mas, passada uma meia hora, o cheiro desvaneceu-se e desapareceu.

Eis como se mata uma quantidade enorme de gente adormecida se no sistema de ar condicionado algum danado puser um gaz letal.

Vou pedir uma explicação ao Comandante.

08:42 - O Comandante disse que tinham estado a pintar uma sala interior e que o cheiro vinha daí. Mandei dizer que o cheiro era de fuel, não de tintas.

Pediram desculpa e garantiram que a coisa não voltaria a acontecer.

É o que se vai ver...

20:20 - Há duas noites, o barco parou e houve barulhos que a Graça não conseguiu identificar. Soubemos hoje que estavam à nossa frente 3 ou 4 barcos suspeitos. Com os snipers devidamente a postos, o Comandante mandou fazer alto para ver no que a "coisa" dava.

Deu que os ditos suspeitos saíram da nossa rota para distâncias consideradas seguras e passámos sem mais histórias.

Já lá vão quase 48 horas e eu só tenho pena de ter passado por tudo isto sem me aperceber de nada.

20/03/19, 18:56 - Hoje de manhã, quando acordámos, estávamos atracados em Aqaba, extremo Sul da Jordânia.

Desembarcámos e encamionetámos numa viagem de 2 horas até Petra. Paisagem que me deixou na dúvida entre a Lua e Marte. E, mesmo assim, há quem tente a agricultura. Porquê? Porque não devem saber fazer mais nada.

Pergunta: Como é possível que a moeda jordana, o Dinar, valha US$ 1.50?

Resposta: Aldra! Valor determinado por Decreto, não pelas forças naturais da Economia.

Contarei mais quando chegar a casa.

Zarpamos hoje para - não sei bem quando - passarmos frente a Sharm el Sheik, extremo Sul da Península do Sinai, para nos fazermos de seguida ao Canal do Suez.

21/03/19, 10:56 - Estamos sentados no convés da popa a fugir do vento que sopra pela proa. A nascente (estibordo), as ondas do Golfo do Suez; a poente, a costa africana do Egipto.

A velhota baixinha sentou-se perto de nós, ao meu lado, pôs os pés em cima da banqueta que tinha à frente e ficou a olhar para o mar que foge por baixo de nós. Fez-me lembrar a minha Professora de geografia que no liceu nos falou dos tubarões que infestavam o Mar Vermelho e o Suez durante a viagem que fizera de Goa para Lisboa.

Cheguei-me à amurada e só vi água.

Virei-me para ela e disse-lhe em castelhano (a maior parte dos passageiros são espanhóis) e depois em inglês que não havia tubarões.

Não respondeu nem sequer acenou um cumprimento.

Deixei passar. Ou é superior e não me considera merecedor de conversa ou é apenas malcriada.

Daí a pouco, aproxima-se outra velhota e gesticula qualquer coisa que não entendi.

Realmente, nunca aprendi língua gestual, não consigo comunicar com surdo-mudos.

22/03/19, 21:27 - Demorámos 12 horas a percorrer o Canal de Suez no que foi um percurso interessantíssimo. Durante a parte desértica, chama a atenção uma linha verde paralela a ambas as margens que é claramente uma tentativa de combate ao deserto. Essa linha avista-se nitidamente mesmo em zonas onde nada mais existe. Mas na margem ocidental, a africana, sempre vão aparecendo povoações - umas pequenas e outras de certa dimensão. Nessa margem, a partir de certa altura, tudo passa a verde e a agricultura mostra-se pujante. É o delta do Nilo.

Na margem asiática, a do Sinai, a tal linha verde é contínua duma ponta à outra do Canal e o volume fantástico de obras em curso não a bule. Devem ser umas quantas cidades que vimos em plena construção para milhares e milhares de pessoas. Algumas delas são de vocação turística mas noutras vê-se pessoal da Engenharia Militar a trabalhar. Aqui no barco não encontrei quem me explicasse nada. A enorme ponte (parece a de VRSanto António) por baixo da qual passámos ainda não está inaugurada.

Seja o que for que esteja em construção, é muito grande e destinado a um desenvolvimento significativo do Sinai. Se tudo aquilo for agricolamente acompanhado com a equivalente dessalinização da água, admito que o futuro do Egipto seja risonho e que a malta passe a ter mais que fazer do que pensar em terrorismo.

Inch Allah!!!

23/03/19, 09:32 - Deixarei para mais tarde algumas reflexões que me ocorreram durante esta viagem que se aproxima do fim à velocidade de cerca de 15 nós.

Têm essas reflexões tudo a ver com as duas forças que se debatem nesta zona do mundo, a religiosa e a laica. Mas o conflito não é novo nem dá sinais de extinção imediata pelo que as minhas confabulações podem esperar mais uns dias.

Entretanto, para aligeirar um bocado a tensão provocada pela iminência pirática, fui à biblioteca do barco e meti-me por um romance de André Maurois (que não tive paciência para ler totalmente) mas donde tirei uma informação que chamou a minha curiosidade sócio histórica: "Foi pelas partes baixas de Luís XV que Mlle. Poisson foi alcandorada a Marquise de Pompadour".

Lembrei-me então de que a famosa loja lisboeta de roupa interior ostentando o título da Marquesa, se poderia, em alternativa e muito apropriadamente, chamar "La poissonnerie".

21:08 - Rumo ao Pireu (porto de Atenas), hoje à tarde passámos entre Rodes e Creta com tempo farrusco.

A caminho do restaurante, parecia que íamos grossos mas não chegámos a agarrar-nos às paredes. Não tínhamos bebido mas o mar quis dizer que estava lá em baixo.

Já sabemos que vai ser assim toda a noite e que só depois de passarmos o Cabo Sunion e entrando no Egeu é que a "coisa" vai serenar. Depois digo.

Para já, a festa continua com um concurso de sevilhanas que está animadíssimo.

Amanhã, logo pelas 7 da matina entramos pela terra de Péricles a dentro.

24/03/19, 12:13 – A viagem continua por outros bordos – os do barco ficaram no Pireu - e agora estamos a fazer horas no aeroporto de Atenas. Vá de petiscar uma moussaka e beber um copo ligeiro porque as bebidas fortes me fazem caspa.

No check in não me encontravam o lugar porque alguém nos ofereceu o upgrade. E num cruzeiro sem classes, já nos tinham feito upgrade na vinda. No barco, o nosso camarote também tinha muita classe. Assim, até eu gosto de uma sociedade sem classes.

21:04 - Ficámos a dormir em Madrid, só seguimos amanhã. É para quebrar o stress da pirataria.

Jantámos no hotel apesar de haver vários restaurantes nas redondezas.

Entretanto, chegou um casal de cães "Terra Nova" que estão a caminho duma exposição no México. LINDOS!!! Pretos e enormes, docemente mansos. Na recepção do hotel perguntaram-me o que é que eu pensava: se seriam os cães a dormir nas camas e os donos a dormir na banheira ou o contrário. Respondi que os perritos merecem dormir nas camas; os donos (um casal já de meia idade) que durmam na banheira, na retrete ou no bidé. Como quieran.

 

Março de 2019

136-Jordânia-Petra-1.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(em Petra, Jordânia)

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