Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

ARÁBIA FELIX – 15

 

Chegados à placa toponímica de Petra, logo começámos a descer por uma estrada em rampa sinuosa através de filas de casas em socalco que nem percebi bem como lá se chega se se for com pressa. Mas como não vi ninguém apressado, pode ser que esse não seja um problema.

 

E descemos, descemos… até que demos com um parque de estacionamento de autocarros de turismo completamente apinhado. Mas, lá estava outro socalco logo ali por baixo com mais lugares de estacionamento, desta vez disponíveis.

 

O hotel onde haveríamos de almoçar era no socalco por baixo deste local de estacionamento e a entrada do sítio arqueológico era por baixo da entrada do hotel.

 

Até ali, tudo funcionava a descer mas o pior seria na volta em que tudo funcionaria a subir.

 

O já «famoso» guia disse-nos que poderíamos alugar uma charrete ou um cavalo para descermos até aos locais a visitar e que, de preferência, deveríamos estabelecer logo o preço para o regresso, na subida. Que seriam cerca de dois quilómetros em cada sentido, o que corresponderia a € 40,00.

 

Se o cavalo era hipótese do meu agrado, já o mesmo não disseram os outros membros do meu grupo: a minha mulher que, sabendo montar, não o pode fazer por causa de um problema nas costas, o outro casal porque nunca montou a cavalo na vida. A charrete seria a solução. Mas não foi porque um jordano de ar rude e «dono» daquele negócio rugiu para o nosso «famoso» que já não havia charretes disponíveis, que teríamos que descer a pé e contratar lá em baixo quem nos trouxesse para cima.

 

Pelo mapa do campo arqueológico ficámos então a saber que a distância completa a descer (e, depois, a subir) não eram dois quilómetros mas quase oito. E descemos… mas chegámos todos lá a baixo em boas condições para sermos lançados ao guano. Depois de não sei quantos dias de inactividade no barco, descer custa quase tanto como subir porque, apesar de os músculos serem outros, também estão habituados a não fazer nada e queixam-se amargamente. E o cansaço era tanto que a minha mulher e eu decidimos que dávamos uma vista de olhos na primeira fase, a da fachada do «Tesouro» e trataríamos de contratar a tal charrete que nos levasse até lá a cima. Quanto ao resto, haveríamos de voltar a ver na Internet, agora que tínhamos uma noção do local e da dimensão fantástica de tudo aquilo.

147.JPG

 

Então, vendo por ali uma charrete vazia, logo tratámos de a contratar mas o timpanas viu que estávamos derreados e explorou a situação de um modo que se assemelhou à diplomacia dos piratas do Mar Vermelho: o preço da subida seria, afinal, igual ao que o «famoso» nos tinha dito que correspondia à ida e volta, € 40,00. Tudo bem, nem discutimos. O que nos chocou mais foi, contudo, o facto de a charrete ao lado desta que arrematáramos estar já contratada por alguém que pagara na origem, lá em cima, a descida e a subida e cujo timpanas, vendo que por ali havia outras situações de grande exaustão, fechou outro negócio por € 100,00 só pela subida deixando o cliente inicial sem outra solução que não fosse perder o dinheiro que já pagara e subir a pé.

 

Mas o que mais me chocou ainda estava para vir: a nossa exaustão não foi nada em comparação com a dos cavalos das charretes quando chegavam lá a cima em haustos de grande aflição e um deles, cheio de «cornage», ouvia-se à distância. Um verdadeiro crime cuja cessação deveríamos promover com a maior urgência. Um Governo que permite tal «cartão de visita», presta um muito mau serviço ao prestígio da sua Nação. Só animais tão voluntariosos e generosos como os cavalos é que se submetem a tal situação e o bicho homem, selvático, explora-os ignobilmente até à exaustão. Um verdadeiro crime!

 

Zangados com tudo aquilo, arrastámo-nos até ao hotel para o almoço. Tudo bem, mas cada pessoa só tinha direito a um copo de água. Se quisesse outro, tinha que comprar uma garrafa de litro e meio que eles vendiam ao preço de quem a tinha ido buscar às neves eternas do Kilimanjaro mas se quisesse álcool, então teria que pagar uma bula salvadora do crime de lesa não sei quem.

 

Um amigo meu diz-me que gosta muito da Jordânia porque conhece lá muita gente muito civilizada. Pena eu não ter conhecido essa elite e me ter limitado a esta ralé do mais vil com que alguma vez me cruzei. E eu até já conheço um bocado do mundo - mas tão reles como isto, nunca tinha visto.

 

(continua)

 

Abril de 2019

136-Jordânia-Petra-1.JPG

Henrique Salles da Fonseca

5 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D