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A bem da Nação

ARÁBIA FELIX – 12

 

Continuando…

 

Admito que exista um sistema de comunicações inter-piratiano que tenha informado os interessados que aqueles dois navios de cruzeiro não eram alvos fáceis e que poderia ser mais proveitoso dedicarem-se a outros passantes. E, na verdade, não voltámos a ser perturbados na nossa rotina pelo Mar Vermelho acima.

 

Mar Vermelho a fugir.png

- Lá vem o «Costa» na nossa esteira!

 

Ao contrário do que os mapas da Senhora Professora lá da escola primária podem dar a entender, a partir de certo momento, o Mar Vermelho é suficientemente largo para que, navegando pelo meio, não se avistem as margens e isso faz com que, à falta de pirataria, tudo seja muito monótono.

 

E sendo praticamente impossível chegar a horas cristãs à piscina e encontrar uma cadeira disponível (quanto mais quatro que era o número que nos convinha), continuámos a optar pelo deck 10 da ré pois poderíamos tomar banhos de Sol sem o vento que zunia pela vante.

 

Pela minha parte, fui entrando por um livro de André Maurois (que não tive paciência para ler até ao fim, devolvendo-o à biblioteca do barco e que rapidamente substitui por outro que levara de Lisboa sobre Leon Blum, Albert Camus e Raymond Aron acerca do qual escreverei brevemente alguma coisa) e por imaginar a História que passara por cima das ondas antepassadas daquelas que estávamos a navegar.

 

Lembrei-me dos cerca de 400 portugueses chefiados por Sebastião da Gama (filho de Vasco da Gama) que estavam fartos de servir como tropas de elite do Preste João, que decidiram abandonar a Etiópia no que foram perseguidos por tropas etíopes que não os queriam deixar sair, das batalhas que foram tendo até finalmente avistarem os barcos portugueses que ali os tinham ido resgatar, da batalha que foi travada na praia (hoje eritreia) em que morreu Sebastião da Gama mas de que o Dr. João Bermudes saiu ileso, ali embarcou e regressou a Lisboa onde tudo contou; lembrei-me de Afonso de Albuquerque que quis conquistar e destruir Meca, intento gorado por falta de vento e por o reino de Judá lhe ter faltado com os 500 cavalos prometidos; lembrei-me de Pêro da Covilhã que, como emissário de D. João II, já tinha, antes de todos os outros, ido a pé de Alexandria até encontrar a corte então itinerante do Preste João…

 

Sim, foi pelo Mar Vermelho que o sonho português tentou muitas das aspirações de dar a volta ao poderio do Segundo Império Romano, o do Vaticano, apertando-o entre a Igreja monofisista abexim e os milenaristas franciscanos refugiados em Alenquer; lembrei-me de que o primeiro tempo foi o do Pai, o segundo foi o do Filho e de que este, em que nos encontramos, é o do Espírito Santo tão celebrado nos Açores (para onde os milenaristas tinham entretanto sido enviados); lembrei-me dos jesuítas que, gorando esse sonho de entendimento, tentaram converter os monofisistas etíopes ao catolicismo; lembrei-me da guerra que noutras paragens mas por motivos não muito diferentes já tinha oposto os cátaros a Roma, da rainha Santa Isabel que, sendo simpatizante cátara, foi canonizada por Roma naquilo que me parece um absurdo teológico…

 

Lembrei-me de tanta coisa que a monotonia da navegação sem piratas se me tornou agradável e «lembrativa».

 

Então, ao fim de cinco dias de navegação, acordámos atracados em Aqaba, extremo sul da Jordânia, Eilat à vista.

 

(continua)

 

Abril de 2019

Arábia-3.png

Henrique Salles da Fonseca

(por águas corânicas)

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