Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

ARÁBIA FELIX – 10

 

Anda por aí muita «fake new» e estou em crer que foi nesse estilo que se enquadrou a versão que há tempos circulou sobre a pirataria no Corno de África.

 

Dizia essa fake que os navios europeus iam despejar resíduos perigosos e pescar desalmadamente nas águas somalis, eritreias e iemenitas e que os cidadãos desses países, escandalizados com o desplante estrangeiro, tinham decidido combater tal prática fazendo o policiamento das respectivas águas e atacando os navios prevaricadores.

 

Não sei se não terá havido ilegalidades daquele género ou outras vilanias ainda mais torpes mas do que eu duvido seriamente é que os eritreus, somalis ou iemenitas se tenham alguma vez preocupado com esse tipo de assuntos. O que eles são é, pura e simplesmente, piratas.

 

Assim foi que alguém tentou culpabilizar as vítimas desculpando os atacantes. Uma completa inversão de valores, esta, sim, torpe.

 

E, zarpando de Salalah, foi para essas águas que nos encaminhámos…

 

Então, aí vamos nós de peito feito às balas da pirataria. Mas como homem prevenido vale por dois, o Comandante – seguindo as orientações da prudência – fizera embarcar em Mascate uma equipa de 14 atiradores especiais (snipers) que estavam autorizados a atirar a matar tudo o que bulisse à tona da água e de que eles desconfiassem. Disseram-me que se tratava de um grupo tunisino pelo que descartei a hipótese de serem «piratas reciclados».

 

Tinha sido precisamente em Mascate que me cruzara com dois deles na escada do portaló e fiquei com a certeza de que optaria pela piscina em vez de tentar nadar à volta do navio. Os fuzis deviam ir desmanchados dentro das malinhas «à James Bond» que levavam discretamente na mão; duvido que fossem explosivos para afugentar tubarões ou para a pesca ao candeio. Viemos a saber mais tarde que a observação nocturna era feita também com infravermelhos.

 

Os simulacros de emergência já tinham sido feitos antes de chegarmos à zona problemática que é a que vai das águas somali-iemenitas, passa o Estreito de Áden, entra pelo Mar Vermelho e chega mesmo à boca do Golfo de Aqaba. Para além do simulacro com passageiros, houve também mais dois apenas para os tripulantes em que um dos exercícios era o da evacuação dos camarotes e condução dos passageiros para os respectivos locais de concentração e eventual resgate. A minha trincheira era no casino, a trás duma slot machine. Passei a associar pirataria a «Bally», a marca da dita máquina.

 

Foi de noite que passámos ao largo da ilha de Socorotá (hoje, iemenita) pelo que não a vislumbrei assim registando um desaire da minha curiosidade. Sim, essa ilha era o ponto de apoio dos navegantes portugueses quinhentistas na rota entre a amiga Etiópia (a do Preste João) e Diu. De clima horrível, até as árvores (poucas) assumem formas estranhas.

 

SOCOROTÁ.png

 

Nunca a povoámos devidamente e apenas os Franciscanos ali instalaram uma missão para prégarem… às pedras.

 

Entrámos no Golfo de Áden e navegámos paulatinamente até ao Estreito (que Afonso de Albuquerque tentou debalde conquistar) onde amanheceu. Tomámos o pequeno almoço e fomos para o deck 10 da ré onde o vento (entrando pela proa) não incomodava. Vimos o mar a fugir por baixo de nós, peguei num livro e apanhei Sol.

 

Até que a velhota baixinha se sentou ao meu lado e pôs os pés sobre a banqueta que estava à sua frente a ver o mar a fugir. Fez-me lembrar a minha professora de geografia no liceu que nos falara dos tubarões que enxameavam o Mar Vermelho durante uma viagem que ela fizera de Goa a Lisboa. Cheguei-me à amurada e só vi água. Disse-lhe em castelhano (a maior parte dos passageiros era de espanhóis) e depois em inglês, que não havia tubarões. Não esboçou qualquer reacção e admiti que se considerava superior à minha insignificância ou que era apenas malcriada. Deixei passar o não-incidente e regressei à minha confortável cadeira. Daí a pouco, chegou outra velhota que lhe gesticulou qualquer coisa que não percebi. Sim, é verdade, nunca aprendi língua gestual, não consigo comunicar com surdo-mudos.

 

E foi então que…

 

(continua)

Abril de 2019

150-Canal de Suez 1.JPGHenrique Salles da Fonseca

(no deck 10 da ré do Horizon)

12 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D