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A bem da Nação

ANDA COMIGO – 8

Saímos de Bordéus como tínhamos entrado, sem fanfarras nem cumprimentos do Maire. Uns rudes, aqueles tipos. Tanto como os das cidades espanholas por que tínhamos passado. Conclusão: a clandestinidade, afinal, não é coisa assim tão difícil como os «heróis do contra» apregoam (qualquer que seja esse contra). Mas é claro que nós não levávamos as Autoridades na peugada como os clandestinos levam e, daí, a diferença entre as nossas vidas regaladas e as deles, complicadas. Deixemo-los, pois, apregoar o que quiserem desde que não nos incomodem muito.

Mas deixemo-nos de revolucionarites e rumemos a Saumur, no vale do Loire.

Lembrou-me o Google maps que se trata de 324 quilómetros pela estrada de Poitiers, a que então fizemos. Aliás, a actual autoestrada nem sequer existia.

Como era do nosso costume, em Poitiers demos uma volta pelo centro histórico com passagem obrigatória frente à catedral de S. Pedro só para dizermos que lá tínhamos passado. Consta que ali assentavam os pictões, povo contemporâneo dos famosos vizinhos Astérix e Obélix. E dali seguimos para o Loire.

No Liceu Francês de Lisboa havia grades fotografias nas salas de aula mostrando os castelos do Loire pelo que eu já tinha uma ideia muito positiva sobre o que iria ver mas não esperava, mesmo assim, de gostar tanto de ver tudo en passant. Vimos por fora todos aqueles que nos foram «calhando na passada» (gíria equestre para o salto do obstáculo para que não é necessário encurtar ou alargar a passada do galope) mas, antes disso, estivemos em Saumur. E porquê esta nossa fixação por esta cidade? Pois bem, não se esqueça o leitor de que naquele «pão de forma» éramos cinco cavaleiros e Saumur era então a sede da Escola Militar de Equitação[i] (do Exército Francês, claro) alfobre dos grandes mestres da equitação clássica e onde residia (e continua a residir) o famoso Cadre Noir (conjunto de cavalos super-ensinados montados por militares Mestres de Equitação fardados de negro e com galões doirados). Chegámos de improviso, sem anúncio, visitámos o local mas os treinos tinham sido de manhã e nós já tínhamos almoçado. Lembro-me de termos falado com um «chefão» muito magro e alto que nos mostrou as cavalariças e os picadeiros (para se ser membro do Cadre Noir, dizem as más-línguas jocosas, tem que se ser militar do Exército, tem que se ser alto e magro e, se se souber montar a cavalo, tanto melhor). Naquela época ainda tínhamos no nosso Exército dois militares que tinham obtido o grau de Mestres de Equitação em Saumur e possuíam as famosas «esporas de oiro»: o mais tarde General Reymão Nogueira e o Coronel Fernando Paes. Ou seja, para nós, portugueses,  aquela instituição ainda tinha uma aura muito grande e nós os cinco achámos «o máximo» termos visitado a Escola de Saumur.

Na brevíssima visita à cidade, não foi referido que aquela tinha sido sede de uma importante circunscrição administrativa até à Revolução Francesa – uma Sénéchaussée – nem que durante a II Guerra Mundial a guarnição local opusera grande resistência aos alemães e que por isso fora galardoada com a Medalha de Mérito Nacional em 1945.

E, dali, subimos o vale do Loire rumo a Paris. Pernoitando algures e sem vacas a ruminarem à nossa volta.

(continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - Actualmente, semi-civilizada, é a «Escola Nacional de Equitação» e tem tutela conjunta do Exército e da Federação Equestre Francesa

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