Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

ANDA COMIGO – 8

Saímos de Bordéus como tínhamos entrado, sem fanfarras nem cumprimentos do Maire. Uns rudes, aqueles tipos. Tanto como os das cidades espanholas por que tínhamos passado. Conclusão: a clandestinidade, afinal, não é coisa assim tão difícil como os «heróis do contra» apregoam (qualquer que seja esse contra). Mas é claro que nós não levávamos as Autoridades na peugada como os clandestinos levam e, daí, a diferença entre as nossas vidas regaladas e as deles, complicadas. Deixemo-los, pois, apregoar o que quiserem desde que não nos incomodem muito.

Mas deixemo-nos de revolucionarites e rumemos a Saumur, no vale do Loire.

Lembrou-me o Google maps que se trata de 324 quilómetros pela estrada de Poitiers, a que então fizemos. Aliás, a actual autoestrada nem sequer existia.

Como era do nosso costume, em Poitiers demos uma volta pelo centro histórico com passagem obrigatória frente à catedral de S. Pedro só para dizermos que lá tínhamos passado. Consta que ali assentavam os pictões, povo contemporâneo dos famosos vizinhos Astérix e Obélix. E dali seguimos para o Loire.

No Liceu Francês de Lisboa havia grades fotografias nas salas de aula mostrando os castelos do Loire pelo que eu já tinha uma ideia muito positiva sobre o que iria ver mas não esperava, mesmo assim, de gostar tanto de ver tudo en passant. Vimos por fora todos aqueles que nos foram «calhando na passada» (gíria equestre para o salto do obstáculo para que não é necessário encurtar ou alargar a passada do galope) mas, antes disso, estivemos em Saumur. E porquê esta nossa fixação por esta cidade? Pois bem, não se esqueça o leitor de que naquele «pão de forma» éramos cinco cavaleiros e Saumur era então a sede da Escola Militar de Equitação[i] (do Exército Francês, claro) alfobre dos grandes mestres da equitação clássica e onde residia (e continua a residir) o famoso Cadre Noir (conjunto de cavalos super-ensinados montados por militares Mestres de Equitação fardados de negro e com galões doirados). Chegámos de improviso, sem anúncio, visitámos o local mas os treinos tinham sido de manhã e nós já tínhamos almoçado. Lembro-me de termos falado com um «chefão» muito magro e alto que nos mostrou as cavalariças e os picadeiros (para se ser membro do Cadre Noir, dizem as más-línguas jocosas, tem que se ser militar do Exército, tem que se ser alto e magro e, se se souber montar a cavalo, tanto melhor). Naquela época ainda tínhamos no nosso Exército dois militares que tinham obtido o grau de Mestres de Equitação em Saumur e possuíam as famosas «esporas de oiro»: o mais tarde General Reymão Nogueira e o Coronel Fernando Paes. Ou seja, para nós, portugueses,  aquela instituição ainda tinha uma aura muito grande e nós os cinco achámos «o máximo» termos visitado a Escola de Saumur.

Na brevíssima visita à cidade, não foi referido que aquela tinha sido sede de uma importante circunscrição administrativa até à Revolução Francesa – uma Sénéchaussée – nem que durante a II Guerra Mundial a guarnição local opusera grande resistência aos alemães e que por isso fora galardoada com a Medalha de Mérito Nacional em 1945.

E, dali, subimos o vale do Loire rumo a Paris. Pernoitando algures e sem vacas a ruminarem à nossa volta.

(continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - Actualmente, semi-civilizada, é a «Escola Nacional de Equitação» e tem tutela conjunta do Exército e da Federação Equestre Francesa

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D