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A bem da Nação

ANDA COMIGO – 6

Deixei-me encantar por San Sebastian e naquela idade não sabia nada do que, entretanto, aprendi. Achei a baía esplendorosa mas adivinhei logo que àquelas águas deviam faltar pelo menos 10º C para que eu me metesse lá dentro.

Não me lembro ao certo por que horas da manhã lá andámos mas achei pouca gente nas imediações da praia. Ainda deviam estar a dormir. Barkamena[i]! A aristocracia frequentadora de San Sebastian não dorme, descansa.

Foi pela arquitectura geral que me pareceu andar por ali muita prosperidade e adivinhei que a aristocracia «a banhos» (gelados) seria bem endinheirada e que viria de todas as Espanhas – daí, o cosmopolitismo que referi no texto anterior. Algo me disse – imaginação pura – que os estrangeiros que por ali andavam à babugem, talvez na gigolade, seriam uns pelintras comparados com os espanhóis veraneantes.

Sim, chique mas, vim a saber muito mais tarde, os segredos por ali guardados não eram apenas mexericos e fofocas sociais ou de lupanares de luxo, eram também dos pesados e conformes à lei da bomba. Os contrafortes dos Pirinéus que para ali descem separam duas metades duma Nação que não se enquadra nem com um dos lados da fronteira desenhada a seu descontentamento nem com o outro. A diferença entre as duas metades estava em que de um lado havia uma ditadura que impunha uma vontade não negociável e do outro já então havia uma democracia em que a maioria salvaguardava os direitos das minorias. Quem visitasse San Sebastian como eu estava a fazer (e, sobretudo, com a idade que eu então tinha), não imaginava a «cultura de fronteira» que por ali contava com décadas de clandestinidade cuja faceta mais benigna seria o contrabando de produtos em falta aqui ou ali. Mas a passagem de refugiados e de armamento, sim, era a especialidade daqueles furtivos nacionalistas. Quem olhasse para todo aquele esplendor mundano, não imaginava a presença de uma forte tradição maquisarde.

Não se julgue, contudo, que a passagem «a salto» era só para fugitivos de cá para lá. Durante a segunda guerra mundial, já com Franco no poder, muitos foram os membros da Resistência Francesa que se acoitavam nos Pirinéus espanhóis das investidas do Regime de Vichy nos Pirinéus franceses, muitos os judeus que ali chegaram com destino a Lisboa atravessando Espanha em segredo. E, vencido Pierre Laval e regressada a paz a França, então sim, muitos opositores aos regimes de Salazar e Franco que passavam para o lado de lá. Tráfego humano? Sim, mas também há quem lhe chame «fuga para a liberdade de cada um». Fora a escravatura, tudo o resto era política.

E foi ao lado de todos estes sítios que passei sem me aperceber de nada.

Hendaia à vista, lá vamos nós…

(continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

[i] - «Perdão» em basco

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