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A bem da Nação

ANDA COMIGO – 24

Passados que são 59 anos da viagem, há «coisas» que se me passaram e uma delas foi Grenoble. Que me perdoem os grenoblois. Mas, em compensação, lembro-me relativamente bem de Avignon cuja ponte procurei. Julgo tê-la visto à distância quando passámos por uma outra mais nova do que ela, a da cantiga. Dada uma vista exterior pelo maciço palácio papal, quase fortaleza, acampámos algures.  

E mesmo que fosse andar um pouco para trás, o nosso Comandante achou que se justificava darmos um salto a Nice onde, como não podia deixar de ser, passámos pela Promenade des Anglais onde vimos o célebre Negresco em que não pernoitámos mas que me levou a lembrar de Isadora Duncan, do Bugatti e do fatídico cachecol – história que sempre me pareceu inverosímil. E, por baixo da famosa balaustrada, vimos a praia de areia pedregosa que logo comparei com as nossas areias finas. De facto, não será pelas praias que se justifica que um português vá ao estrangeiro já que temos as melhores do mundo. E, ao fim de todos estes anos que decorreram entretanto, confirmo que as praias estrangeiras que aparentam ser melhores que as nossas, têm águas pejadas de crocodilos de água salgada, medusas letais e tubarões de voracidade criminosa. Em Nice não há nada disso mas também não há areia como as nossas. Mas há o resto e é isso que arrasta multidões. Nietzsche, um habitué de Nice que eu não imaginava num tal mundanismo. Mas sobreviveu miraculosamente a um tremor de terra que destruiu a pensão em que habitualmente se instalava. Saiu ileso do meio dos escombros fazendo humor com o facto de o tinteiro ter saltado para fora da mesa em que escrevia. Na dúvida, passou a ir para Turim onde o solo mexeu menos enquanto por lá andou.

E nós, seguindo para Cannes, decidimos não prosseguir até Saint Tropez fingindo que a Brigite Bardot não estava lá.  E, inflectindo para o interior, fomos ver as margaridas e outras espécies da típica flora regional da qual se fazem as essências de grande parte dos perfumes franceses. Ao todo, de Nice a Monpellier, foram 350 quilómetros que nos puseram no destino ao final da tarde. Com os 260 quilómetros que tínhamos feito de Avignon a Nice, este foi um dia de esticão para o nosso Conducător[i].

Procurámos assento, armámos a tenda e pernoitámos. Estávamos nas redondezas de Monpellier, num camping em que conseguimos encontrar lugar.     

 Se de Monpellier pouco retive, daí a 250 quilómetros não pude deixar de me encantar com Cascassonne, a cidade museu da História do Sul de França. Em qualquer esquina esperávamos cruzar-nos com os Mosqueteiros do Rei mas deviam estar em missão alhures. Foi aqui que cátaros e calvinistas ficaram manchados de sangue. Este, o cenário de episódios muito dramáticos da História de França e não só. Assim foi que me lembrei dos Berengários de Aragão e, logo, do irmão da nossa Rainha Santa Isabel que morreu pelos cátaros numa batalha travada naquelas paragens por onde andávamos. Lembrei-me dos franciscanos milenaristas que também por ali pregaram e que, expulsos, vieram para Alenquer por convite da mesma Rainha Santa e que por cá ficaram até os Açores serem descobertos e povoados para lá indo prestar culto ao Espírito Santo – fé que se mantém: no princípio, foi o tempo do Pai; seguiu-se o tempo do Filho e agora estamos no tempo do Espírito Santo.

E se de tanta coisa me lembrei, por certo que de muita me esqueci.

Sim, foi difícil consolidar esta parte de França pois por aqui passaram tempos de Teologias conflituantes. E a pergunta é: como seria hoje a nossa Civilização se os resultados das pelejas físicas de então tivessem sido outros?

Felizmente, era hora de rumar a Toulouse, la ville rose, ali à frente, a uma centena de quilómetros

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

 

«lider», em romeno

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