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A bem da Nação

ANDA COMIGO – 23

Um último olhar pelo pátio do castelo, um aceno a quem ficava e aí vamos nós na rota do Sol…

A subida do Vale d’Aosta de Ivrea ao Grande São Bernardo seriam 120 quilómetros. Voltámos a passar por Aosta propriamente dita, pelos castelos de apoio aos peregrinos e não tardou muito que a estrada começasse a subir e a temperatura a dar sinais de que os Alpes não são brincadeira nenhuma. E assim foi que o fidelíssimo «pão de forma» nos pôs na fronteira lá em cima, no Grande São Bernardo. Dali a Montreux seriam os tais 80 quilómetros que já percorrêramos em sentido inverso. Lá chegados, em vez de seguirmos em frente, cortaríamos à esquerda para percorrermos a margem sul do lago Léman até Genève.

Foi nesta etapa muito turística de cerca de 80 quilómetros e rendilhada entre a Suíça e França que tive pela primeira vez a noção exacta do que é a convivência banal entre as populações que, mais ou menos por acaso, pertencem a um ou outro país. Fronteiras simbólicas, só íamos tendo uma ideia algo incerta sobre se estávamos em França ou na Suíça pelas fardas azuis dos guardas franceses ou cinzentas dos suíços. E, mesmo assim, estávamos a entrar ou a sair de que país? E, contudo, muitos anos mais tarde, numa festa num castelo medieval situado nessa mesma margem sul do Léman, um francês de Annemasse, católico de grande militância, apontou para a outra margem e referiu «aqueles protestantes»… Pois é, tempos houve menos laicos em que os cristãos se matavam por esse tipo de diferenças e Genève foi o berço do calvinismo. Mas os tempos amainaram e hoje há uma carreira de autocarros urbanos que começa na Praça de Cornavin, em Genève e acaba em Annemasse, em França. No entanto, aquele francês – aparentemente, um tipo normal – ainda vivia de algum modo acossado entre os italianos da Casa de Saboia que por ali tinha reinado e os calvinistas da outra margem.

Mas estas foram coisas que vim a saber muito mais tarde. Naquele dia íamos a caminho de acontecimentos hípicos que não esqueci.

Depois de marcarmos território com a tenda no camping mais apropriado às nossas conveniências geográficas, fomos a um concurso hípico em que participavam militares suíços cujos cavalos estavam à sua guarda individual e que obrigatoriamente tinham que exibir em certos eventos para demonstrarem o bom estado físico dos animais como também do respecyivo maneio e operacionalidade. Vimos bons exemplos e vimos outros exemplos. Para além do mais, tratava-se de importante evento social pois alguns dos militares eram Oficiais de patentes relativamente altas e os civis que participavam eram membros dos vários clubes hípicos daquela região e também os havia franceses. E foi nesse evento que, pela primeira vez, se apresentou no estrangeiro o nosso professor de equitação, o Mestre Nuno Oliveira que viria a ficar conhecido como o maior cavaleiro artístico do séc. XX. Mais particularmente, o Mestre apresentaria um cavalo da criação e propriedade do nosso Comandante, o «Euclides». Como nós adivinhávamos que aconteceria, quando a exibição começou, o tempo parou e deixou de se ouvir uma mosca como se estivéssemos a assistir a um acto religioso. Não, nada tinha de religião, era arte pura de equitação sublime e de música clássica portuguesa. Sentiu-se pudor em retomar as provas hípicas e aquele foi o momento estaminal do Mestre Nuno a nível mundial. Muitos anos mais tarde, viria a morrer em Perth, na Austrália, num curso que lá tinha ido ministrar.

O jantar de gala – nós não tínhamos vestimentas apropriadas mas o anfitrião, o nosso grande amigo Auguste Baumeister (apesar do nome, era francês) «exigiu» a nossa presença – foi servido em regime volante nos salões e jardins da mansão sobre o Léman e a anfitriã, ajaezada ao estilo das grandes écuyères, apresentou o «Mastoso Stornella» às rédeas longas. Mas a Senhora não tinha nascido para aquilo e, apesar de no outro lado do recinto, nos bastidores formados pelos arbustos, o Abel Carvalho (funcionário do Mestre Nuno) acenar com cenouras e torrões de açúcar, o cavalo esteve-se nas tintas para esses engodos e virou-se para trás ficando cara a cara com a Senhora Baumeister.  E nessa altura, a música, supostamente doce e suave, foi posta aos berros e nós iniciámos uma ovação que disfarçou o fiasco equestre da Madame. Mas o jantar foi um sucesso, toda a gente gostou imenso e o Senhor Baumeister foi um amigo de Portugal até ao fim dos seus dias.

No dia seguinte demos mais umas voltas, fomos a Lausanne mais não sei onde, visitámos o campeão brasileiro Nelson Pessoa que então vivia por lá e fomos a um centro hípico assistir a uma lição dada por um grande Mestre suíço cujo nome me passou. E quando lá entrámos, vimos 5 ou 6 alunos cujos cavalos estavam todos de rédea alemã. Perante o nosso espanto, o professor logo disse que estava a ensinar os alunos de como usar aquela martingala que ainda hoje considero perniciosa. Muito bem, continuo a pensar que a rédea alemã só deve ser usada por quem a sabe usar mas quem a sabe usar não precisa dela para nada.

E assim foi que nos fizemos companheiros do Ródano à saída de Genève…

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

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