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A bem da Nação

ANDA COMIGO – 2

Como era suposto, todos os alunos chegaram (chegámos) no dia 31 de Julho para nos instalarmos e começarmos o curso no dia 1 de Agosto. Nós, os rapazes, ficávamos nas camaratas da Escola; as raparigas ficavam em casas de família um pouco por toda a parte na cidade.  Como fui dos primeiros a chegar, escolhi uma cama na parte de cima de beliche junto da janela. Ao final da tarde, a minha camarata fez o pleno dos três beliches com a chegada de três irmãos suíços, com o filho de um casal de cantores da Ópera de Berlim e um outro que era filho de um casal de engenheiros alemães contratados pelo Governo egípcio e que chegara na véspera a Hannover vindo do Cairo. Dizia que falava árabe fluentemente. O Thomas, o suíço mais velho, sugeriu-nos que acreditássemos e decidiu, sob aplauso da maioria dos camaradas, que por ali se falava alemão e ponto final na discussão. Outro tema sobre que não se falaria, seria a religião pois havia ali católicos e luteranos. É claro que nenhum de nós tinha maturidade nem interesse por debates teológicos pelo que aquela decisão foi inócua. O berlinense operático estava autorizado a cantar até que alguém, da nossa ou de outra camarata, o mandasse calar. Felizmente, o Andreas Brauer, o único de quem retive o nome, preferia a ópera italiana que sempre é mais cantabile que a wagneriana. E assim foi que «democraticamente», o Thomas organizou a vida na nossa camarata. Então, já que ele ficara na cama mais próxima do interruptor da luz, assumiu a incumbência do respectivo comando. Creio que já todos, os outros, dormíamos quando ele apagou a luz nesta primeira noite e creio também que assim terá sido até à última noite da nossa estadia na Escola.

Alvorada às 6 da manhã seguida de  pequeno almoço, formatura na «parada» com prelecção sobre a «ordem do dia». No primeiro dia, a prelecção foi um pouco mais longa do que nos seguintes, fez-se a atribuição de um cavalo a cada aluno e, depois de dada a ração e feitas as abluções e outras limpezas, seguiu-se uma apreciação do à-vontade a cavalo de cada aluno. Fomos distribuídos por quatro classes desde os mais atrasados na 1ª aos mais adiantados na 4ª. No final do curso, os mais adiantados fariam o exame da Federação Equestre Alemã para atribuição (ou não) das medalhas de bronze de equitação e de condução de atrelagens (com uma parelha de cavalos). O bronze habilitava os seus titulares a participarem nas competições regionais[i]. Em função desta distribuição, assim cada um de nós montaria ou não o cavalo que lhe fora atribuído inicialmente. Coubera-me uma égua de meia idade, passei a montá-la. Andava serenamente nos três andamentos, alargava e encurtava mas não sabia mais nada. Nem sequer sabia recuar. Passava por cima dos pequenos obstáculos sem fazer o mínimo esforço e creio que ninguém alguma vez lhe pediu que saltasse qualquer coisa que se visse.  No campo de steeple, «Maria vai com as outras». Tive um mês para me entreter a convencê-la de que a vida é bela. Foi muito apreciada pela hierarquia a maneira como a ensinei a recuar (pela mobilização da garupa, coisa que nunca tinham praticado). A partir daí, o Director da Escola convidou-me a montar o cavalo dele todas as tardes. Enquanto por lá andei, mais ninguém lhe passou a perna (termo da gíria equestre para «montar»).

Aos Domingos não havia actividade e os cavalos eram alimentados por dois Fulanos da cidade que lá íam fazer esse trabalho. Nós, os alunos, estávamos dispensados de qualquer obrigação. E foi num certo Domingo que o professor de equitação me levou a conhecer Bremen e noutro Domingo o Director me levou a assistir ao Derby de Hamburgo. Em ambas as cidades vi ruínas da guerra. Entretanto, na nossa cidadezinha, vi construir um bairro novo com uma centena de edifícios de dois pisos para receberem alemães de leste que queriam vir para o lado de cá.

Não fiz o exame final porque a viagem de regresso a Lisboa era no próprio dia dos exames. Isso ficaria para dois anos depois, Agosto de 1961.7Foi o próprio Director da Escola que me levou no seu carro particular ao aeroporto de Hannover.

Na viagem de regresso já eu conhecia os caminhos, não precisei de ajudas especiais. Em Barajas, espreitei pela porta que dava para os «servicios» mas não estava lá o «gran torero». Era outro «Guardia Civil» que estava de serviço às precisões dos passageiros em trânsito e este não inspirava qualquer comentário. Barajas banal, perdera a graça. À chegada a Lisboa, o meu irmão foi buscar-me ao aeroporto e dei por mim a pensar em alemão e a traduzir mentalmente para português. O objectivo da viagem era precisamente esse, o de desemburrar o alemão; os cavalos eram o pretexto.

 (continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - As medalhas de prata davam acesso às competições nacionais e as de ouro às internacionais.

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