Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

ANDA COMIGO – 19

 

De Braunschweig a Frankfurt seriam cerca de 350 kms. O dia tinha começado muito cedo, não íamos salvar ninguém da forca e o nosso Comandante, sempre ao volante, merecia descansar. Ninguém se preocupou com a decisão de ficarmos um dia e uma noite no camping local, já na estrada para Hannover se a memória não me atraiçoa muito.

Descansados do stress anterior, lá fomos pelo mapa a baixo sem grande vontade de dar voltas e voltinhas turísticas pelas cidades por que íamos passando até que chegámos a Frankfurt pelo meio da tarde. Demos, aí sim, uma volta pela capital da finança para, como de costume, ficarmos com uma ideia geral e vá de procurar local de pernoita. Sem história.

No dia seguinte esperava-nos uma etapa de 280 quilómetros até Freiburg, já quase na fronteira com a Suíça mas, antes disso, uma volta genérica pelo centro de Karlsruhe – literalmente, «o descanso de Carlos».

Julgava eu que a etimologia do nome tivesse alguma coisa a ver com Carlos Magno e imaginava que ele ali fosse a banhos já que a cidade, entretanto, está integrada no Estado federado de Baden-Wurttemberg. Fantasia pura. A cidade foi fundada em 1715 e quando eu percebi que o nome também nada tinha a ver com Carlos V, tive que passar a lidar com o enigma das bandeirinhas espanholas nos eléctricos da cidade.

Vista a cidade-leque, seguimos caminho…´

Lembro-me perfeitamente de termos subido o Alto Reno pela sua margem direita vendo aqui e ali castelos ribeirinhos para a cobrança de taxas mas já não me lembro de onde a onde foi esse percurso lindíssimo. E não faltará quem diga que esses Senhores feudais só pensavam enriquecer à custa de quem passava mas eu lembro a Teologia Luterana que então era novidade mas que já pugnava pelo bem-comum. E havia que financiar tais acções dos ditos Senhores ao quererem dar bem-estar às populações que governavam.

De Freiburgo retive um centro verdadeiramente antigo em torno da catedral católica e lembro-me de uma envolvente urbana com edifícios de bela traça renascentista (?). Vai daí, não procurámos afanosamente a Universidade que não encontrámos. Mas diz-se que estava lá.

Passámos a fronteira quase sem darmos por ela.

Já na Suíça, Basel (Basileia, em português) esperava-nos a 70 quilómetros. E aí deu para recordar Nietzsche que durante anos ocupou uma cátedra na Universidade local sem sequer ser licenciado. Não, não foi por falsificações nem outras imposturas ao estilo das nossas conhecidas cá na «Santa terrinha», toda a gente sabia que ele não tinha concluído o curso em Bonn nem em Leipzig, mas a Universidade de Basel achou que ele era quem mais sabia do tema cuja cátedra queria preencher e por isso lha ofereceu. Mas há mais: o filósofo estivera na guerra franco-prussiana como maqueiro e fora contagiado por graves moléstias que os grandes «sábios» da época tratavam com clisteres de nitrato de prata. Claro está que ia morrendo da «cura» e ficou avariado da barriga para o resto da vida. Assim, para não correr o risco de novas mobilizações pelo Exército da belicosa Prússia, a Universidade sugeriu-lhe que renunciasse à nacionalidade alemã e disponibilizou-se para lhe tratar da obtenção da nacionalidade suíça. Tudo bem, deixou de ser alemão mas o processo burocrático embrulhou-se e nunca obteve a nova nacionalidade. Resultado: ficou apátrida até ao fim dos seus dias.

Não era tarde mas tínhamos tido um dia muito cheio de vistas pelo que pernoitámos num camping qualquer nas redondezas da cidade, já na estrada para Montreux, a 165 quilómetros.

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D