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A bem da Nação

ANDA COMIGO - 14

 

A sueca que foi escolhida para, de tarde, montar o cavalo que, supostamente, era o  do Director, montava inequivocamente bem mas ninguém me convence de que a sua estética não pesou na balança da escolha. E, nesta perspectiva, tanto quanto me lembro, as opiniões eram unânimes: imbatível num raio de alguns quilómetros à sua volta.

Quis, no entanto, o determinismo histórico que a maré das nossas atenções se desviasse dela e rumassemos alhures.

E, então, foi assim: havia uma aluna muito tímida e que não se aproximava de ninguém. Um verdadeiro «bicho do mato». É claro que chamou a atenção de todos os circundantes mas ninguém se sentiu em condições de ajudar. Eramos quase todos da idade dela e «Santos de casa não fazem milagres». Ou seja, não teríamos ascendente sobre ela para a convencer de que ninguém lhe faria mal. Até que o nosso Comandante, compadecido, sendo o mais velho da classe dos alunos, meteu conversa e ela não fugiu. Para espanto de toda a gente, ela começou a descontrair-se e a interagir com os outros alunos, com quase normalidade. Seria pouco mais velha do que eu, não era alta nem baixa, nem gorda nem magra, nem feia nem bonita, era totalmente banal. Mas tinha uma particularidade: era austríaca e gostava muito de um dia poder montar um cavalo lipizano. Do que a vi montar, creio que ainda lhe faltariam uns anitos para que o pudesse fazer num cavalo ensinado à séria. Mas isso é o que menos interessa para esta história.

O que mais interessa é que ela acabou por contar (quase a confessar) que era filha de mãe solteira, fruto duma relação menos ortodoxa com o Burgomestre (Presidente da Câmara Municipal) de Graz, a segunda mais importante cidade da Áustria, no tempo da anexação pela Alemanha durante o regime nazi. O pai era engenheiro e arquitecto e, apesar disso, vivia agora sob identidade falsa num arredor de Hamburgo a distribuir leite de porta em porta. O outro sonho dela era um dia conhecer o pai. Perguntada, que sim, tinha o telefone dele.

O nosso Comandante ofereceu-se para a levarmos num Domingo a conhecer o Pai. Ficou a pensar e passado um ou dois dias aceitou a oferta. Só que naquelas épocas faltavam umas décadas para aparecerem os telemóveis e seria necessário usar o telefone fixo da Escola, o que não era fácil dado o horário de funcionamento da Secretaria não coincidir com as horas a que o destinatário estaria contactável. Mas tudo se arranjou com a disponibilidade do nosso Director de abrir a Secretaria a hora apropriada para o efeito. Lembro-me perfeitamente de que só à terceira vez é que o contacto se estabeleceu.

Foi então combinado o encontro para um determinado Domingo, num certo caféhaus na tal terrinha, pelo meio da tarde, sem mais testemunhas para além do nosso Comandante.

Nós, os rapazes, já não tínhamos assistido ao telefonema prévio e não fizemos perguntas. Agora, na visita ao «leiteiro», não apareceríamos sequer pelo que o «pão de forma» tinha de ficar um pouco afastado.

Assim foi e apenas soubemos que, feita a apresentação, o nosso Comandante se retirou e veio ter connosco onde ela viria juntar-se-nos quando o encontro terminasse. Saímos do carro e ficámos por ali a cirandar até que, para nosso espanto, ela veio ter connosco acompanhada do pai. Foi como se nós, os rapazes, ali não estivéssemos e a despedida foi um mero aceno de cabeça do «leiteiro», um breve aceno da mão do nosso Comandante e outro do ex-«bicho de mato». Nem um «obrigado». Apeteceu-nos dizer os palavrões que calámos mas ela não se calou nos 120 quilómetros que nos separavam de Verden. Já então eu decidira vir a ser economista e não psiquiatra pelo que desliguei daquele desabrochar de um entupimento de anos e anos.

A partir de então, ela passou a portar-se com toda a naturalidade e a concentrar-se na realização do outro sonho, montar um lipizano.

Em alemão diz-se «Glückliches Ende» quando os ingleses dizem «Happy End».

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

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