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A bem da Nação

ANDA COMIGO – 13

Camarata de três beliches, seis ocupantes. Nós eramos cinco, o último a caber foi um retardatário que não ficou na história. Significa isto que era alguém perfeitamente normal que não se distinguiu pela positiva nem pela negativa. Ou seja, não era nem cantor da Ópera de Berlim nem membro encartado de alguma estrebaria. Lembro-me, isso sim, de o nosso Comandante ter determinado que, desde que ele estivesse presente, só falaríamos alemão mesmo entre nós, os portugueses. Tudo correu sobre esferas a ponto de não me lembrar de quem ele era.

No primeiro dia do curso, formatura na «parada» da Escola para preleção quanto às regras gerais seguida de distribuição de cavalo a cada aluno.  A égua que me coubera dois anos antes tinha ido para o campo a fim de criar. Desta vez coube-me uma égua meio sangue árabe. Tratava-se de um processo de aligeiramento da raça dos cavalos de Hannover de modo a poderem ser mais maleáveis e competitivos. Esta primeira fase através do sangue árabe veio a ser complementada com o sangue inglês no que resultou num tipo de cavalo actualmente considerado o melhor no mundo desportivo. Há décadas que os hannoverianos são a raça mais representada nos Jogos Olímpicos – seguidos, no Dressage nos últimos anos, pelos lusitanos.

O professor de equitação já não era o de dois anos antes, o Senhor Hansen, que sabia de equitação e ministrava as aulas a cavalo de modo a poder exemplificar a qualquer momento. Desta vez, tínhamos um «rapazola» que sabia de cor o manual de instruções (o livro da Federação Equestre Alemã) e não devia gostar de montar pois nunca o vimos a cavalo a não ser nas vésperas do concurso hípico que se realizou na cidade e em que ele tinha que participar por exigências curriculares. Passo ao lado das matérias técnicas da equitação para não maçar os leitores não iniciados mas digo apenas que o círculo é a base da equitação, que dois anos antes montávamos sempre em círculo no picadeiro e que desta vez nunca recebemos ordem para o fazer. Eu circulava sempre que me parecia conveniente e lá estava o professor a perguntar ironicamente onde é que eu ia. De tarde, o Director sentava-se na tribuna a ver os alunos que ele convidava a montarem outros cavalos. Perguntado, pedi para montar a mesma égua que me tinha sido distribuída para as aulas da manhã. E foi de tarde que consegui pô-la no autoequilíbrio, nas marchas laterais, no recuar e a saída a galope a partir do passo. No final, já saía a galope a partir da paragem. Todo o cavalo com sangue árabe precisa que tenhamos muito mais cuidado com o seu dorso do que com os dos outros cavalos e o trabalho nas aulas de manhã não era o mais conveniente para esta minha nova amiga. Da tribuna, o Director não dava ordens, apenas intervinha se algum de nós cometia um erro. Desta vez, o cavalo dele foi atribuído a uma aluna sueca que era claramente a melhor cavaleira entre todos nós. Passados 59 anos, também o nome dela se me varreu.

O professor de condução de atrelagens era o mesmo de dois anos antes, o Senhor Kreutzer. Sabia ensinar e gostava de nos dar as aulas, a nós, portugueses, em francês pois aprendera a língua durante os dois anos que estivera em França como prisioneiro de guerra e que, entretanto, praticava raramente.  As lições de condução eram feitas na cidade e sempre pelo mesmo percurso que os cavalos já tinham decorado. Nós, os alunos, só tínhamos que os deixar andar ou parar conforme o tráfego automóvel. Eles, os cavalos, sabiam exactamente onde deviam andar a passo e onde podiam trotar; o galope não fazia parte do currículo para o exame deste grau de bronze. Nem o piso das ruas da cidade seria apropriado ao galope. Nunca mais pratiquei, esqueci quase tudo. Pena.

Concluído o curso, fizemos os exames de equitação e de atrelagens e trouxemos as belas medalhas do tamanho de um relógio de pulso e respectivas miniaturas para pregar na lapela. De bronze, habilitavam-nos a participar em competições regionais na Alemanha. Nenhum de nós os cinco o fez. Onde estarão as minhas que há décadas as não enxergo…?

Prometo não voltar a incomodar os leitores com mais equitações até porque há outras coisas para contar.

Amanhã há mais.

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

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