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A bem da Nação

ANDA COMIGO - 12

Parque de campismo todo por nossa conta. Pareceu-nos que lá no outro extremo estava uma autocaravana com aspecto de que estava lá a título permanente ou abandonada. Assentáramos perto da Portaria e das casas de banho. À falta de uso, oxalá que funcionassem. Funcionavam, estavam limpas e se quiséssemos água quente que avisássemos o guarda para ele acender o termoacumulador com antecedência. Tudo bem, entrámos na Alemanha com o pé direito.

No dia seguinte seria a última etapa até ao destino, a Escola da Associação dos Criadores de Cavalos de Hannover, em Verden, onde eu estivera dois anos antes.

Dali, onde estávamos, a fronteira com a Holanda, a Bremen seriam 320 quilómetros e de Bremen a Verdem seriam mais 45.  Para chegarmos a horas de podermos escolher camarata e beliches, não poderíamos mandriar. Mas como a mândria não era o nosso timbre, levantámos arraial ao mesmo tempo que o Sol e metemos rodas à estrada.

Agricultura até à berma das estradas. Dois anos antes, ainda vira lavrar com arados puxados por cavalos mas desta vez já não vi senão máquinas. Isto significa que a agricultura não é a parente pobre da economia mas sim a sua base de sustentação: o agricultor produz sabendo de antemão que vende a preços convenientes, ganha dinheiro e investe em equipamentos e produtos correntes  produzidos pela indústria que faz crescer os serviços e assim sucessivamente…

Chegados a Bremen, demos uma volta pela cidade que nada tinha de especial para mostrar a não ser a mim. É que, dois anos antes, eu vira ainda ruínas dos bombardeamentos aéreos da guerra de 39-45 e naquela volta já não vi ruínas nenhumas nem nada que se parecesse. E voltei a lembrar-me de uma característica dos alemães que notara na minha visita anterior: alemão vive para trabalhar. E a minha confabulação continuava com a ideia de que latino trabalha para viver. Muitos e muitos anos mais tarde, estudei um pouco a causa desta realidade e fiquei a saber que as teologias protestantes de Calvino e de Lutero afirmam que o trabalho agrada a Deus e que só com efectivo contributo para o bem-comum se alcança a salvação eterna (e não pelo «comércio das bulas»). Mas isto aprendi eu muito mais tarde e naquelas épocas limitei-me ao conhecimento empírico de uma realidade que não sabia explicar. E estava ainda mais longe do Übermensch[i] de Nietzsche que, umas décadas depois da sua morte, veio a influenciar os nazis com a mitológica superioridade germânica.

Mas, na verdade, em dois anos desapareceram por completo os vestígios da guerra e de certeza que não foi sentados numa tasca a fumar narguilé que eles, os alemães, ressurgiram das cinzas como a Fénix.

Mas não será só a teologia que é decisiva nesta realidade: o facto de há muitas gerações não haver analfabetismo adulto, é por certo determinante na capacidade individual e colectiva de relançamento de vidas destroçadas. Os pobres de espírito, sim, estendem a mão a caridade por falta de desenrascanço, o empirismo do «know how» inglês e do «Fachwissen» alemão.

E, quando menos esperávamos, estávamos a ver a torre da grande igreja de Verden, aquela que eu sempre achei que tinha dimensão de catedral, tema que nunca investiguei.

Chegados ao estacionamento fronteiro à Escola, logo apareceu o Director que ainda era o meu conhecido Fritz Meyer Stocksdorf que, do «alto» do seu 1,60 m, nos deu as boas-vindas e nos conduziu à Secretaria para os procedimentos administrativos convenientes. Entretanto, nós, os rapazes, fomos logo à procura da camarata em que eu ficara dois anos antes e, como era meu desejo, estava livre e à espera de que a ocupássemos. Só depois desta marcação de território é que fomos ao «pão de forma» buscar os nossos pertences.

Era o dia 31 de Julho de 1961, véspera do 1 de Agosto em que começaria o nosso curso de equitação e condução de atrelagens para no final fazermos os exames da Federação Equestre Alemã e passarmos a ter as inerentes medalhas de bronze. Naquelas idades, aquilo era importante para nós.

(continua)

Maio de 2020

Henroque Salles da Fonseca

[i] - Literalmente, «sobre-humano» mas no sentido de «homem superior»

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