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A bem da Nação

ANDA COMIGO – 10

Saídos de Paris, teríamos quase 400 quilómetros pela frente até Bruxelas pelo que, dado o adiantado da hora, o nosso Comandante decidiu – e nós aplaudimos – assentar num parque de campismo que parecesse aceitável. Se a memória não me atraiçoa muito, digo que ficámos algures não longe de Amiens mas…

Chegámos a Bruxelas um pouco depois da hora do almoço depois de uma viagem muito calma porque só tínhamos programa marcado no dia seguinte.

Desta vez, demos uma volta a pé pelo centro histórico e deu para imaginar o Imperador Carlos V a passar pela Grand Place que naquele dia estava toda embandeirada por qualquer motivo que me passou. É claro que também fomos ver o Manneken Pis mas não vimos o Euratom que era no sentido oposto ao do nosso local de pernoita e apetecia-nos instalarmo-nos calmamente em vez de continuarmos a andar por aqui e por ali.

No dia seguinte, passagem pelo monumento de Waterloo a caminho da casa de um cavaleiro amador de dressage, Henry Peters, que nos recebeu em casa com um bem simpático pequeno-almoço. Que diferença relativamente ao outro Henri perto de Paris que se pisgou para a Suécia para lá ir salvar a monarquia. Seguiu-se uma apresentação do seu cavalo mais adiantado no picadeiro descoberto circundado pelo jardim da casa. Vimos uma equitação muito mais serena do que esperávamos de quem fazia competição. Sem entrar em matérias enfadonhas para quem não é da «arte», basta referir que a equitação de competição implica uma tensão desportiva que os praticantes da equitação clássica abominamos. Enquanto o Senhor Peters nos mostrava o seu belo cavalo lazão claro, o tratador estava ao nosso lado mas um pouco mais a trás e quando o patrão executava um «piaffer»[i], ele imitava o exercício como se quisesse associar-se emotivamente ao que o «seu» cavalo estava a fazer. Concluída a apresentação, o cavaleiro apeou-se e deu um rebuçado ao cavalo (devia ser um torrão de açúcar) e deixou-o seguir solto em direcção ao tratador que lhe deu duas cenouras. Cavalo feliz, cavaleiro civilizado, tratador fantástico. Saímos satisfeitos, despedimo-nos e seguimos viagem.

Amesterdão, Roterdão e Haia, a trempe que nos esperava.

De Bruxelas a Amesterdão seriam cerca de 200 quilómetros mas foi decidido que, sendo Amesterdão o ponto a partir do qual continuaríamos viagem, fizéssemos um relativamente pequeno desvio dando um «saltinho» a Roterdão e a Haia. Confesso que Roterdão se me varreu mas da Haia recordo uma certa influência marítima, uma cidade simbólica por ser a capital holandesa onde acontecem todos os cerimoniais da realeza mas economicamente menos pujante que as outras duas. Este «saltinho» foi suficiente para eu considerar a Holanda o país mais bonito que eu alguma vez vira. E, na continuação, confirmei esta opinião.

Regressados ao itinerário principal, era final do dia quando assentámos arraiais nas cercanias de Amesterdão e foi então que me recordei de uma história que ouvira ao meu tio, o escritor Branquinho da Fonseca. Contava ele que, desorientado, pedira ajuda a um passante a quem informara que tinha combinado encontrar-se com a minha tia junto de uma ponte ao que o tal ajudante replicara que esse era sem dúvida um «bom» ponto de referência pois Amesterdão tem mais de 200 pontes. Com o seu típico sentido de humor, apontava para a minha tia que estava ao seu lado e dizia – Como se vê, encontrámo-nos junto da ponte.

Dada uma volta pela cidade para ficarmos com uma ideia, pareceu-me que tudo tinha sido desenhado a régua e esquadro antes de assentarem o primeiro tijolo e de estrearem a primeira pá na escavação do primeiro canal. Passámos frente ao Rijks Museum – não o fazemos seria um escândalo – e fizemos outra coisa que, essa sim, deu para recordar para sempre: passámos de carro por baixo de um navio. Sim, passámos num túnel por baixo de um dos canais mais importantes no momento em que ia a passar um navio. Assim como se no cais da Rocha do Conde de Óbidos, no Porto de Lisboa, houvesse um túnel em vez da ponte móvel na Doca do Espanhol. Isto, sim, foi muito mais giro para a rapaziada, nós, do que a colecção de quadros do Rembrandt.

Amanhã, outra coisa inesquecível..

(continua)

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - Trote no mesmo terreno, cadenciado e com momento de suspensão em cada diagonal, um dos ares a que os não iniciados associam ao «cavalo a dançar»

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