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A bem da Nação

AMOR… AI!

 

 

Numa Terra que se desterra

Invadida pelas águas

Do mar revolto,

Pelos ventos sibilantes

Do céu inclemente,

Procurámos numa qualquer fábula de antigamente

Algo que nos desviasse a atenção

De tanta aflição

Que vai por esse mundo fora,

Que desse, sem demora,

Alguma calma à nossa alma

Que chora.

Encontrámos em La Fontaine

Uma história de Cupido,

Que poderia ser algo de divertido

Por ser ele o deus do Amor

Encantador.

Mas o conto divertido

Revelou - na sua alegoria humanista,

Que nela enfia

Os deuses olímpicos para melhor dimensionar

A psicologia mista

Da humana condição -

Ser um cliché de efeitos trágicos e cómicos

Que simboliza o Amor, afinal,

Na sua estranha realização,

Sempre amalgamado na perversão

Dos muitos sentimentos

Que ora o engrandecem

Ora o envilecem.

Donde a conclusão

De que a Loucura da alegoria

- Ou não -

É seu guia.

 

«O Amor e a Loucura»

 

Tudo é mistério no Amor,

As suas flechas, a sua aljava, a sua infância

Que Cupido tão gentilmente simboliza:

Não é obra para um só um dia

Esgotar esta ciência.

Não pretendo, pois, aqui tudo explicar:

O meu intuito é somente

À minha maneira contar

Como é que um cego – um Deus -

Perdeu a luz,

Que sequelas teve este mal

Que provavelmente até foi um bem:

Disso qualquer amante será juiz,

Não me compete a mim decidir.

A Loucura e o Amor brincavam

De companhia.

Este não fora ainda

Dos seus olhos privado.

Uma disputa se engendrou,

Enlouquecedora,

Bem própria do Amor e da Loucura.

O Amor exigiu

Que o conselho dos deuses fosse reunido,

A outra perdeu a paciência.

Um bofetão lhe deu

Tão esforçado

Que a luz dos olhos aquele a perdeu.

Vénus exigiu vingança

Sem mais detença.

Mulher e mãe,

Bem podemos imaginar a gritaria

Que ela faria.

Os deuses ficaram

Atordoados:

Júpiter, Némesis, os Juízes do Inferno,

Enfim, toda a confraria.

Vénus declarou a enormidade do caso:
Sem cajado,

Seu filho não poderia dar um passo.

Nenhum castigo era bastante

Para crime tão indecente.

O prejuízo tinha que ser reparado.

Após tudo bem considerado –

- O interesse do Público, o da Parte pessoal,

A decisão, enfim, do Supremo Tribunal

Foi, sem mais clamor,

A de condenar a Loucura

A servir de guia

Ao Amor.

 

Mas se fosse hoje-em-dia,

Onde é que La Fontaine acharia

Loucura suficiente

Para o Amor descrever

De modo eficiente?

Não nos clássicos, certamente.

 

 Berta Brás

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