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A bem da Nação

ALGO DAS CAUSAS DA VIOLÊNCIA ÁRABE-MUÇULMANA

 

Adonis-Printemps Arabes.jpg

 

Volto ao convívio do grande poeta sirio-libanês Adonis, após a leitura do seu livro Printemps Arabes – Religion et Révolution, escrito antes de Violence et Islam, de que tratei num artigo anterior. Vivemos diariamente a tragédia da Síria e do Iraque, negligenciando um pouco a da Palestina sob o jugo do governo israelita, esquecendo de que a Síria e o Iraque foram o berço da civilização e do pluralismo na encruzilhada da história, da invenção da escrita, que modificaram a face da criação humana, do primeiro Estado árabe em Damasco, valorizando a cultura civil e a separação do político do religioso, da invenção da roda, da conquista do mar, da lei, das três religiões monoteístas e da Andaluzia muçulmana que contribuiu para a difusão da cultura grega e não sei que mais.

 

Presumo que ninguém acredita que o Iraque, a Síria, a Líbia e o Yemen estejam em melhor situação do que no tempo dos seus ditadores, dois deles liquidados por intervenção Ocidental, um terceiro (Síria) salvo in extremis pela intervenção da Rússia e Irão, em resultado de guerra declarada pelos EUA e da União Europeia ao terrorismo islâmico, e um quarto país bombardeado pela Arábia Saudita, utilizando a violência sobre essas nações para, supostamente, implantarem a democracia, quando na Arábia Saudita impera uma teocracia que não respeita nenhum dos direitos humanos; será que o Ocidente contesta ou pune as barbaridades cometidas pela execrável ditadura teocrática da Arábia Saudita que bombardeia populações e instituições civis no Yemen por razões puramente religiosas? Combater o terrorista árabe-muçulmano retribuindo-lhe o terror nunca poderá ter sucesso, porque o terrorista crê piamente que os princípios do Islão são absolutos e transcendentes. Se a arma tecnológica for insuficiente, disporá de outra, do seu próprio corpo transformado em bomba, dado que “o jihad (guerra santa) por Alá é o pivot do Islão”, garantindo-lhe entrar no Paraíso, em caso de morte, onde gozará de delícias infinitas reservadas aos mártires pela causa islâmica, num espaço (Céu) imaginário de jardins, hortas, rios, mel, jovens e virgens – as tais huris – de olhos grandes para gozo sem fim.

 

Procura-se, por todos os meios, liquidar o terrorista árabe-muçulmano sem compreender como surgiu, sem entender a complexidade da sua existência. Adonis, que é árabe e agnóstico, ajuda-nos a entender essa realidade. Diz não chegar a análise da realidade árabe somente sob o ponto de vista económico, social, político e cultural, sem analisar a estrutura religiosa profunda e obsessiva das sociedades árabes.

 

A democracia só se institui através da liberdade individual. A liberdade, neste sentido, não é somente uma expressão verbal, é também a liberdade de se exprimir, de viajar, de se organizar, de falar e de ter ou não uma religião, o que não vem acontecendo com os árabes.

 

Relativamente à promissora Primavera Árabe, ela limitou-se a mudar o poder político sem tocar nas instituições nem nos fundamentos passados das mentalidades reinantes. Foi uma revolta, não uma revolução, por não ter subvertido o statu quo, não ter proclamado a construção da sociedade civil árabe e de Estado laico. Sem atingir a liberdade de práticas religiosas e de crenças, ficou tudo praticamente na mesma, ou pior, como aconteceu antes, por exemplo, no Irão aquando da “revolução” do ayatola Khomeini da República Islâmica. A revolução deve ser política e cultural, derrubando os pilares religiosos, tribais e confessionais do regime derrubado. Não negar a religião, mas tão-somente a sua instrumentalização política e social. A religião constitui o universo do indivíduo, os direitos da sociedade e os do homem são, por definição, civis e sociais. A Charia (muçulmana) aplica-se exclusivamente ao indivíduo crente e não à sociedade. A sua norma religiosa, segunda a qual se julga o homem como crente ou incréu, só exprime a injustiça, a tirania e o anti-humanismo, por ser norma segregacionista que ignora toda a ideia de alteridade (respeito pelo próximo) e a emancipação da mulher com os mesmos direitos do homem. Tanto o Islão “político”, como o “moderado”, ignoram os direitos da mulher, pelo que a badalada moderação nada significa.

 

Os árabes não conseguiram, ao longo de quinze séculos, fundar um Estado de direito reconhecido universalmente, por fazerem fi das liberdades civis e se apegarem ao fundamentalismo religioso. Todo o discurso dos intelectuais e dos líderes revolucionários árabes sobre unidade, nacionalismo, pan-arabismo, socialismo, etc., transformou-se em palavreado inútil. O homem deve interiorizar, antes da pátria, da política e do regime, a essência dessa liberdade, mesmo antes de todas as crenças e de ideologias, terrestres e celestes. O pensamento único prevalente no árabe, que conhecemos do sistema de partido único, não é mais do que uma servidão política, ideológica, económica e social que convém à ditadura. Para impor o respeito desses direitos (civis), o corpo cultural árabe deve sair da etapa de subordinação e do compromisso para poder entrar numa fase de confrontação, como sugere Adonis. Já não bastam as críticas, há que passar à acção num campo de direitos e liberdade que ultrapassa toda a ideologia, toda a doutrina, sobretudo a religiosa fundamentalista que aprisiona os espíritos. A sociedade é uma estrutura civil não doutrinária. A sociedade é para todos, a religião para cada um, individualmente, segundo a sua consciência e fé, não imposta pelo Estado, o que não acontece nos regimes árabe-muçulmanos.

 

O mal dos árabes é o poder estar indissociavelmente ligado à religião e comandado por clérigos que actuam como se ainda vivessem na Idade Média – um mundo habitado por religiosos com doutrinas fechadas, não por cidadãos civilizados -, à semelhança do que se passou com os cristãos nessa época, antes da Renascença e da Revolução Francesa. “Violar a religião é declarar guerra a Alá”, como declaram os membros da Comissão Jurídica do Parlamento Iraniano. A vocação da teologia na Idade Média foi transformar Deus em propriedade privada do clero e do poder subalternizado a este.

 

Nos países árabes, o regime substitui-se à pátria. O cidadão transforma-se em cidadão do regime-pátria, isto é, da tribo, do clã e da família, não da nação. Constamos alguma semelhança com os regimes de partido único, em que, acima do Estado e da Nação está o Partido.

 

Porque será que os árabes nunca conseguiram estabelecer, até à data, uma sociedade civil onde a cidadania constitui o fundamento do Estado, em substituição da religião e da doutrina? Os árabes estão amarrados ao seu passado e não põem em causa as “verdades” de há séculos, a ponto de querem reconstituir esse passado que vão ruminando; até nas vestes imitam Maomé, usando saia e roupa branca. Afinal, a verdade é que a sociedade nunca progride em função ou partindo do passado mas de outras iniciativas que até podem pôr em causa o passado.

 

O que o Alcorão apelida de “gentes do Livro”, isto é, os não-muçulmanos – cristãos e judeus – que viviam nas sociedades muçulmanas, pagando um tributo às autoridades para serem protegidos, já não pagam tributo nenhum, mas não têm direito de se apresentarem como candidatos à magistratura suprema do seu próprio país e não têm nenhuma segurança.

 

O árabe-muçulmano toma à letra o que vem no Alcorão, como, de resto, alguns cristãos, quando se sabe que os textos religiosos, quer sejam muçulmanos, cristãos, judeus, budistas, dizem uma coisa e o contrário. Contêm tolerância e fanatismo, rejeição e respeito do próximo. Intrigante é os árabes, não o Islão, terem sido os primeiros a se interessarem pela alteridade grega, pela sua sabedoria. A razão islâmica aceitou, entre outros, os dois filósofos Platão e Aristóteles, embora não-muçulmanos, interpretou as suas obras a partir dos quais uma filosofia árabe-muçulmana foi fundada. Hoje, tudo se modificou por se ter privilegiado uma perspectiva diferente por uma leitura política da religião com os seus dogmas.

 

Todas as constituições árabes anunciam que o Islão é religião do Estado, como acontecia com os países europeus na Idade Média. Esta cláusula é a negação do respeito pelo outro e aviso para eventual violência, quando não respeitada. Há que separar o político do religioso e reconhecer ao indivíduo o direito de ter ou não ter religião, decisão que prevaleceu na Europa após a Revolução Francesa, que o Catolicismo teve de aceitar e praticar, fazendo a sua revolução, separando a religião da política, e, actualmente, o Papa Francisco relembra esse direito aos crentes. Sem isso – o que acontece entre os muçulmanos – continuaremos a ter regimes teocráticos e fundamentalistas como, por exemplo, a Arábia Saudita, que até prescinde de uma constituição, do Irão e outras monarquias e “repúblicas” do Próximo Oriente, com a agravante de serem aceites e protegidos pelo Ocidente, por serem ricos, aliados, bons consumidores de armas e bens ocidentais e utilizarem os seus bancos.

 

A tão promissora Primavera Árabe iniciada na Tunísia não chegou a ser revolução por não ter levado à subversão radical da sociedade árabe abrindo-lhe o horizonte à democracia, à liberdade civil, política e particularmente religiosa. O Islão deve ser uma religião do indivíduo, jamais colectiva, do Estado. Por necessidade histórica, o Estado deve ser laico, não religioso. Estes dois sistemas nunca se encontram, dado que a religião transcende a realidade, enquanto a laicidade a precede; portanto, dois contrários.

 

A cultura do assassinato permanente é apanágio árabe, mesmo no período áureo da Andaluzia. Não há, entre os árabes, a cultura do debate, do diálogo, mas a da confrontação porque o outro, o próximo, não crente ou com outra crença, deve ser eliminado, como estipula o Alcorão, sem perceber que a nossa identidade é uma relação com o outro, sendo o outro um elemento constitutivo do eu. Os árabes são escravos do Islão, o que agrada aos seus governantes venais.

 

Vamos assistindo, diariamente nas televisões, à violência dos terroristas árabes, aos kamikazes (homens-bomba) com coletes de bombas que explodem indiscriminadamente no meio de civis, militares e polícias; jovens que vivem no Ocidente se oferecem para se sacrificarem pela chamada guerra santa (jihad), por Alá; os bombardeamentos e destruição de cidades com morte de inocentes numa resposta ao terrorismo islâmico, sem querer saber, nem levar em conta, a possibilidade de solução por outros meios, de conhecer as causas reais desse desespero que levou a essa violência árabe-muçulmana. Quais as fontes dessa violência insana, desse terrorismo? Cito algumas: a corrupção, o analfabetismo, o desemprego, a opressão, a tirania e a agressão estrangeira sob as suas diferentes formas. De salientar a catástrofe humana que dura há meio século na Palestina e a política israelita de praticar toda a espécie de barbaridades coloniais: deportação, destruição de casas e de campos de cultura, marginalização, exclusão e expatriação do povo palestino com confiscação de bens, prisão, massacres, indiferença e não respeito das resoluções das Nações Unidas relativamente ao direito dos palestinos a terem uma nação ao lado dos israelitas na terra que sempre ocuparam, de que foram excluídos, desrespeito que não implica sansões, pelo contrário, Israel continua a receber anualmente três biliões de dólares dos EUA, que utiliza na aquisição de armas, na instalação de colonatos em território pertencente aos palestinos (o novo embaixador dos EUA de Trump para Israel concorda plenamente com a extensão dos colonatos) e beneficia do veto dos EUA no Conselho de Segurança da ONU para as resoluções deste. 

 

Para acabar com o terrorismo será necessário eliminar as suas causas. Em vez disso, tanto os EUA como a UE tomam o terrorismo como fachada de uma outra guerra para impor a sua dominação e poder. Invadem países sem invasão e ocupam sem ocupação. Protegem e suportam regimes árabes aliados infames sem tratados de aliança.

 

Não me parece que estejamos no bom caminho nem que venhamos a trilhá-lo no combate pela democracia, pelos direitos individuais, políticos e sociais, face à prevalência de populismo e insegurança, à recente eleição de Trump, cujos elementos do governo neoliberais têm por alvo a anulação da liberdade, à hipótese de um Trump presidente brasileiro (Jair Belsonara), de um político evangélico, senador e bispo da seita IURD, Crivela, eleito prefeito do Rio de Janeiro, e aos governantes de matriz fascista e nazi da extrema-direita que dirigem alguns países europeus e poderão vir a governar outros. Não podemos ser neutros face a essa deriva política, dado que a neutralidade da chamada maioria silenciosa acaba sempre por favorecer quem se propõe criar mais muros e a abater as pontes que nos podem levar ao futuro em democracia.

 

Parede, Dezembro de 2016

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Arsénio Fermino de Pina

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