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A bem da Nação

ALEXANDRE CASTRO CALDAS – Neurologista – 3

 

alexandre_castro_caldas.jpg

Aos 65 anos, neurologista rejeita uma idade para a reforma e defende mais oportunidades para idosos terem os seus projectos

 

Perdemos capacidade intelectual quando envelhecemos?

A linguagem mantém-se mas há curvas de perda de memória. Mas é uma perda de episódios e não de procedimentos. Isso acontece porque há zonas do cérebro que reduzem a sua actividade. Mas mais uma vez: não sabemos se resulta de menos uso. Enquanto sou miúdo preciso de ir guardando informação para me adaptar à vida. Quando começo a ver que «isto já sei e aquilo já sei», tendo a guardar menos. Se não usar, o cérebro é económico, desactiva. Acho que a perda é secundária, se as pessoas insistirem em aprender, conseguem. 

Portanto é falso que burro velho não aprende línguas.

Sim. As pessoas mais velhas aprendem e se não aprendem mais é porque talvez não tenhamos desenvolvido metodologias adaptadas. É interessante que mesmo pessoas com problemas cognitivos graves têm reacções que revelam o cérebro a processar mesmo coisas subtis. Tenho casos em que um filho se queixa que o pai ou a mãe passa muito mal as noites e na casa do irmão isso não acontece. Há situações mais dramáticas em que morre o marido ou a mulher e a pessoa fica tranquila. De alguma forma processava a ansiedade do outro. Uma coisa que se tem percebido é que o contacto físico é muito importante na relação com as pessoas com demência. 

Falta informação sobre como cuidar nessas circunstâncias?

Não há um livro de instruções mas cada vez mais temos de ter técnicos preparados e isso é um problema gravíssimo em Portugal. Estamos de costas voltadas para o problema das demências. Há alguns projectos pontuais mas não há uma visão geral.

Mas há um programa prioritário de saúde mental da DGS e um Conselho Nacional de Saúde Mental.

Mas o que é que está feito? O que é que está no terreno? Nada. Uma pessoa que se vê com um familiar com uma demência neste momento, não sabe o que há-de fazer à vida.

Sobretudo não tendo dinheiro?

Mesmo tendo dinheiro. Há poucas instituições que sabem o que estão a fazer. As instituições nem sempre vão buscar os profissionais mais habilitados. Não têm formação e reagem à pessoa com demência como a uma pessoa sem demência. Com estas pessoas tem de se ser actor de teatro, perceber o papel a desempenhar. A pessoa que entra com demência numa instituição ou num lar tem uma história de vida que é deitada fora para ficar normalizado. Querem lá saber se foi calceteiro ou professor catedrático...

Faz diferença no contacto?

Claro que sim. Se tiver sido toda a vida professor, não me identifico por Senhor João, não me reconheço, não percebo que é comigo. É preciso ter noção do passado cultural da pessoa. Mas há um problema mais grave: na maioria das instituições não há planos de trabalho individual. Uma pessoa não pode ir para uma instituição para se sentar à frente da televisão e ter refeições à hora certa. Estar ali vai passar a ser a vida daquela pessoa. O plano tinha de estar escrito, ser pensado e revisto.

Esses planos de vida deviam ser obrigatórios nos lares e instituições?

Está previsto e devia ser mas há uma grande falta de conhecimento. Ainda há dias conversava com uma Senhora que tem uma instituição. Dizia-lhe que era benéfico haver rotinas numas coisas mas não de outras. Por exemplo, não faz sentido os lugares marcados para almoçar, faz sentido ir mudando de mesa, conhecer pessoas novas. Ela respondia que isso era muito complicado: assim têm sempre o guardanapo e a medicação no mesmo sítio. Então mas não podem antes de se sentar ir buscar o guardanapo e a medicação?

Pedem-lhe muitas vezes conselho?

Às vezes e ficam muito admiradas. As pessoas percebem muito pouco de comportamento humano, há uma ideia errada de normalização.

(continua)

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