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A bem da Nação

A QUESTÃO GREGA E OS RESULTADOS DO EUROGRUPO

Grécia.jpg

 

O insuspeito “Le Monde” (ed. 21-22 Fev), um jornal conotado com a esquerda, comenta com este título o resultado da reunião do Eurogrupo de sexta-feira "Entre Bruxelles et la Grèce, un accord sans confiance", sublinhando " A atitude do Sr. Varoufakis, ministro grego das finanças, reúne a desconfiança dos seus homólogos", o que é sintomático do modo como se processaram as negociações. Estas, de acordo com aquele jornal francês, foram difíceis, dada a inexperiência e o estilo do novo poder grego que irritaram os europeus. Com efeito, sublinha o "Le Monde", o estilo Varoufakis não passa. A sua atitude arrogante caiu mal junto dos seus homólogos da união monetária.

 

Mais interessante, porém, é leitura da edição inglesa do jornal grego “Ekthamirini” A chave está aqui, creio eu: "Tsipras blinked on Friday night when it became clear that a bank run was gathering pace and capital controls would need to be imposed within days unless he did a deal with his euro zone creditors. The government itself would have gone bust in weeks" (ver http://www.ekathimerini.com/4dcgi/_w_articles_wsite3_1_22/02/2015_547541).

 

Mais. Desmentindo claramente a ideia de uma vitória para os gregos ou das perspectivas do copo meio vazio ou do copo meio cheio ou, ainda do que na Teoria dos Jogos se chama o equilíbrio de Nash, o PM grego teve de aceitar virtualmente tudo o que os seus credores, liderados pela Alemanha, exigiram. Não obstante Atenas obteve garantias firmes para uma concessão potencialmente importante: poderá propor a sua própria lista de reformas. Tsipras teve de engolir remédios muito amargos, designadamente uma monitorização pela impopular Comissão Europeia, BCE e FMI, ou seja a “troika” eufemisticamente designada, ao gosto helénico, como as “instituições”. Já, agora, também na nova terminologia o “MoU” (memorando de entendimento) chama-se, agora, o “actual acordo”.

 

José Manuel Fernandes refere no “Observador” de hoje, afirma: “A Grécia teve de ceder em quase tudo. De tal forma que pouco sobra das principais bandeiras eleitorais do Syriza. Porque a realidade é a realidade. E porque, ao negociar, a arrogância é má conselheira”.

 

O diário económico espanhol “Expansión” (na sua edição on-line, também de hoje) coloca o problema de uma forma curiosa: uma força imparável (Syriza) choca contra um objecto inamovível (Europgrupo) sendo impossível que ambos coexistam no mesmo espaço (Grexit). Todavia vai mais longe: “Los ministros de Finanzas de la zona euro pergeñaron el viernes una solución menos traumática: una prórroga de cuatro meses del rescate actual, siempre y cuando Grecia presente el lunes un plan de reformas que debe ser aprobado por la troika. Pero olvídense de lecturas buenistas. Grecia ha cedido en prácticamente todo. No por convicción, desde luego, sino porque el desaguisado que tiene montado en casa le obliga a pedir ayuda a sus socios. Pero eso estaba claro desde hace semanas. La gota que ha colmado el vaso es la fuga de depósitos bancarios y las advertencias del BCE sobre los límites de las líneas de liquidez de emergencia. Si Draghi desenchufa a la banca griega, lo primero que se encontrarían los ciudadanos griegos es un corralito y después, a poco que se ponga el Gobierno de turno, una emisión de nuevos dracmas.” Esta visão corrobora de algum modo a perspectiva do “Ekhtamirini”: a ameaça de bancarrota estava iminente e, a meu ver, está por ora adiada.

 

Tudo o que precede é já suficientemente claro para se fazer uma ideia do que se passou em Bruxelas e do que se vai seguir. Como sempre disse e repito: a cadeia rebentou pelo elo mais fraco, mas, à boa maneira bruxelense, compôs-se o quadro, com 3 ou 4 pinceladas de última hora. Resta saber que medidas serão apresentadas pelo lado grego, se serão necessárias e suficientes e como tal aceites pelo Eurogrupo, em que a unanimidade a 18 constitui a regra de ouro.

 

Por outro lado, não é menos certo que se assistiu a uma triangulação prévia à reunião de sexta-feira. Hollande terá convencido Merkel a não deixar cair a Grécia, ao que aquela terá aquiescido concedendo tempo, porém sob condições. Os dois terão, cada um por seu turno, obtido de Tsripas algumas garantias quanto ao respeito das regras do jogo e os compromissos assumidos pelo Estado grego.

 

Hollande terá, penso eu, tido receio de se aventurar no desconhecido e deixar cair Atenas de qualquer maneira, sem embargo da aparente solidez da moeda única e do Eurogrupo. O risco parecia-lhe demasiado grande, uma vez que se tratava de uma situação sem precedentes Merkel terá anuído para alguma exasperação do seu ministro das Finanças.

 

O folhetim continua.

 

Francisco Henriques da Silva.jpg

 Francisco Henriques da Silva

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