A MULHER DO “POBO”
Sou uma mulher do pobo
Mal sei falar e iscreber
Qu’ o que me deu pr’aprender
No meu tempito d’iscola
Foi, umas contas piquenas
E umas letras mal feitas
Qu’eu aprendi a juntar
Só pra pensar que sei ler…
Mas, já num foi mau de todo
Pois as mais da minha idade
Nem de tal foro capazes
Qu’iscreber, ler e cuntar
Isso, era só prós rapazes…
Às raparigas, coitadas
Chigaba a casa cuidar
Arranjar home, casar
Parir
E pra num morrer de fome
Muntas bezes tinho d’ir
Lá prá jorna trabalhar.
Minha bida foi bem dura…
Mas aquilo de qu’eu me queixo
Esta mágua qu’aqui deixo
A bomecês meus sinhores
Bomecês que são doutores
Da saúde e do Guberno
É qu’anda tudo infermo
Das pessoas às culheitas
E da auga inté ò ar;
Dizeis qu’a bida milhora?!
Só a “beijo” piorar…
Num nos estais a inganar?
Tanta gente sem trabailho
E tanta fábrica a fichar
Tantos a morrer de fome
E tanto campo por labrar
Tanto pescador qu’é preso
Só por querer ir pescar;
Tanta casa cunstruída
Tantos a qu’rer lá murar
E o dinheiro a ingasgar…
Num nos andais a inganar?!
Chigou a noba mueda
O euro tão esperado
Eu num sou inteligente
E queria istar cuntente
Mas num ‘stou, nem um bucado!...
A berdade, berdadinha
Que se bê aqui im baixo
É qu’anda tudo agastado
À conta desta mudança;
Toda a gente faz lambança
Pra milhorar a bidinha
E todos dão boltas à pinha
A bêr s’arranjo um taicho;
Lá ‘star bem isto, num aicho!
BÓS podeis nem cuncurdar
Mas é qu’ás duas por três
Chego-me certas ideias
Ó ber as coisas tão feias…
Peço perdão outra bez!
Mas, já mi arde a guela
Da prégunta que me queima
E qu’aqui bos bim deixar…
O qu’é que bai ser de nós
Os probes, por este andar?!
Num nos andais a inganar?!...
3/7/02 (Abril/2010)
(quando escrevi esse poema, em 2002, escrevi-o tal como a minha Avó falava; em 2010 foi a primeira vez que o disse em público, numa comemoração do 25 de Abril, com a presença dum dos Capitães de Abril... infelizmente, continua actual)


