A ILUSÃO
Digo eu que o velhote vai ali ver a vista sobre o vale com o Tejo lá ao fundo; digo eu que o velhote deixou cair a bengala e não vai ser capaz de a apanhar; digo eu que isto havia de acontecer agora que o Sol se põe e não tarda muito a ser noite; digo eu que vou lá meter conversa e disfarçadamente pôr-lhe a bengala à mão em vez de continuar aqui no carro a ler e a ouvir a Suite nº 1 para violoncelo solo de Bach.
E fui...
Eu – Boa tarde!
Ele – Boa tarde!
Eu – Então veio aqui ver o pôr-do-Sol ou cuidar da horta?
Ele – Vim aqui espantar os macacos que tenho na cabeça. Lá dentro só se vêem desgraças. Isto aqui é tudo uma ilusão. A vida que se leva aqui é quase o caixão. Nós só ainda não percebemos que isto é tudo uma ilusão. Faz de conta que isto é a vida... Dizem que deviam ser os filhos a tomar conta dos pais mas eles não têm casas para poderem cuidar dos pais. E têm que trabalhar... Eu não tenho filhos e os meus três irmãos e sete sobrinhos não querem saber de mim para nada. E olhe que fiz por um sobrinho o que mais ninguém podia fazer quando ele foi lá para a terra fraco dos pulmões e eu lhe dei tudo para ele se curar. E curou-se.
Eu – E o Senhor donde é?
Ele – Sou de Pombal, Freguesia de Albergaria dos 12.
Eu – E porquê 12 e não 13 ou 14?
Ele – Olhe! Já me fizeram essa pergunta dezenas de vezes. Talvez mesmo centenas. É do tempo em que inventaram os Correios e lá se fez uma casa para os homens dos cavalos e das galeras passarem a noite. E essa casa era um albergue onde podiam dormir 12. Também se lhe chama albergaria a essas casas. Os Correios ainda hoje têm o boneco do homem a cavalo.
Eu – Pois claro, bastava eu ter pensado um pouco e havia de ter descoberto. Mas é mais agradável conversar do que ficar a pensar nas coisas sozinho.
Ele – Mas às vezes havia mais gente a precisar de dormir e então as casas das aldeias à volta punham uma candeia de azeite por dentro da janela a dizer que ali havia quarto para quem quisesse passar a noite.
Disfarçadamente, apanhei a bengala e encostei-a ao tronco da árvore em que ele tinha a mão direita encostada.
Ele – E os que passavam diziam «ali tem» (quarto para dormir). E assim ficou a chamar-se àquelas terras Santiago de Litém e S. Simão de Litém.
A minha mulher já estava junto do carro a fazer-me sinais porque a visita de Natal à antiga costureira chegara ao fim.
Eu – Isso é mesmo muito interessante. Gostei muito desta nossa conversa mas agora tenho que ir, a minha mulher já me chama.
Ele – Obrigado pela visita e quando cá voltar olhe para aqui a ver se eu ainda cá estou e venha cá conversar mais um bocado. Agora vou para dentro, para a ilusão e para aquelas desgraças todas. Vou ajudar a dar a sopa a umas que já não conseguem comer por elas. O pessoal é muito bom mas eu gosto de ajudar. Enquanto posso. Mas o Senhor volte cá para a gente continuar a conversar. Boa noite e obrigado pela visita.
Acenei-lhe de longe e ele respondeu-me com a bengala no ar a agradecer-me ter-lha posto junto da mão. Dei a volta ao carro e lá vinha ele pelo meio do relvado, a caminho da ilusão, dar a sopa às que já não conseguem comer por elas. Mais vale isso do que suportar a solidão. As que já não conseguem comer por elas não percebem que estão sós; ele sabe que o está e isso é tremendo.
Terei feito bem tirando-o por momentos daquela ilusão?
Henrique Salles da Fonseca

