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A bem da Nação

A CULPA É DOS UCRANIANOS

 

Dois documentos históricos, duas interpretações – são os artigos do Público: de 21/3 o de Vasco Pulido Valente, A balança, de 23/3, “Desta vez é diferente”, de Teresa de Sousa.

Sobre o conflito da Ucrânia, Pulido Valente historia o passado ambicioso da Rússia, pela posse do mundo e a necessidade de um mar que a ligasse ao mundo, não lhe bastando a terra que se espraiava por dois continentes. O Mar Báltico, bastante gelado, apesar de um São Petersburgo de desenvolvimento favorável, requereu a busca do Mar Mediterrânico mais aquecido. Tornava-se, por consequência, a Crimeia, imprescindível para esses fins, Sebastopol de Catarina a Grande, ocupando a posição da cidade de Pedro, também Grande.

Tão fácil de perceber! A Crimeia o ponto de mira para uma Rússia poderosa, Sebastopol o ponto de arranque para fins expansionistas mais aconchegados. A Ucrânia, que ainda há pouco adquirira a sua autonomia relativamente à URSS, virava-se agora para o Ocidente, com a Crimeia a reboque. O Ocidente encorajou, mas logo a Rússia ocupou a Crimeia, o ponto estratégico da sua retomada de forças e de posição no mundo.

Teresa de Sousa responde que não vai ser assim. O retorno da Rússia ao seu antigo estatuto de união de repúblicas de que fora usurpadora já não ia processar-se, apesar do desprezo de Putin pela fraqueza ocidental, que impõe sanções à Rússia na esperança de que a Rússia recue. Uma guerra nesta era nuclear não interessa, de facto, a ninguém. Teresa de Sousa confia no peso da democracia, que já venceu fascismos e comunismos, para fazer frente a retornos desses pavores.

Oxalá tenha razão, Teresa de Sousa.

Nisto tudo, parece-me que os Ucranianos é que falharam, na sua maioria, tanto os da Crimeia como os da Ucrânia que lutam pelo pãozinho, que lhes vem da união com a Rússia, e que não desejam perder, mais importante do que essa outra coisa que é a da liberdade sem pãozinho, que é como nós cá, por estas terras democráticas andamos a viver. Com as devidas excepções, na questão do pão.

Lembro este nosso pequeno país, muitas vezes sem pãozinho, mas lutando pela sua independência (com excepções também, na questão da luta), apegados ao seu torrão, à sua história, aos seus artistas. Poderíamos servir de exemplo aos Ucranianos pró-Rússia, que desrespeitam os seus irmãos que desejam ser livres.

“A BALANÇA”, por Vasco Pulido Valente:

 

Como império continental, o império russo sempre teve o problema de estabelecer para si, e sob seu domínio, uma saída para o mar. Pedro, o Grande, construiu Petersburgo, julgando que ficava mais perto da Europa. Mas só parcialmente conseguiu o que queria; durante muitos meses por ano o Báltico oriental gelava e não permitia qualquer espécie de navegação. O verdadeiro ministro dos Negócios Estrangeiros do império, por exemplo, acabava por ser o embaixador em Londres. Catarina, a Grande, resolveu parcialmente o problema quando conquistou a Crimeia e construiu Sebastopol. Agora, sim, adquirira um porto de águas quentes, que estava aberto o ano inteiro e, por isso mesmo, se tornou a via principal da influência russa no Ocidente. Militar e comercialmente, era insubstituível.

Não foi por acaso que a única invasão triunfante da Rússia nos tempos modernos (1853-1856), pela Inglaterra e a França de Napoleão III, se pôs como objectivo principal conquistar a Crimeia. Toda a gente sabia que, sem Sebastopol, a Rússia voltaria ao seu isolamento e pouco a pouco perderia o seu peso na Europa. Como não foi por acaso que na I Guerra a Alemanha trouxe a Turquia para o seu lado e na II Hitler aturou (com dificuldade) a sua neutralidade e tomou Sebastopol logo que pôde (von Manstein). A ajuda aliada veio pelo Pacífico, com o prejuízo que implicava transportar o material para a frente de combate, e pelo mar Branco, transitável poucas semanas por ano e sujeito ao ataque dos submarinos da Alemanha. Sem Sebastopol, o império enfraquecia.

 

Claro que com o advento do comboio, e a seguir do avião de carga, as coisas mudaram. Sucede que tanto o comboio como o avião custavam muito mais do que o navio de mercadorias. E, além disso, a Rússia continuava impedida de construir no Ocidente uma marinha de guerra, capaz de agir a qualquer momento (supondo que a Turquia a deixava passar para o Mediterrâneo). Não admira que Sebastopol se tornasse num emblema do nacionalismo russo e da sua “porta aberta” para a Europa e para o Atlântico. A UE e a América não perceberam a tempo que o renascimento do império, com Putin ou sem ele, iria levar ao programa primário de recuperar a Crimeia. E encorajaram a Ucrânia, a que a Crimeia pertencia por uma extravagância de Khrutchov, a criar uma dependência, se não uma “aliança”, com a Europa. O que devia suceder, sucedeu: não o regresso à guerra fria, o regresso à velha balança das potências do século XIX.

“DESTA VEZ É DIFERENTE” por Teresa de Sousa

1. Estamos tão habituados a criticar a eterna indecisão da União Europeia quando se trata de questões de segurança internacional que, por vezes, não conseguimos detectar a mudança. Podemos talvez agradecer a Vladimir Putin o facto de, desta vez, as coisas não serem assim.

 

Podemos dizer que a União Europeia não prestou a devida atenção à sua estratégia brutal para regressar ao estatuto de grande potência a quem os EUA têm de fazer a devida vénia. É verdade. Imagina-se facilmente que, durante as negociações do Acordo de Associação com a Ucrânia, a eurocracia não deve ter prestado a mínima atenção à realidade política envolvente. Os líderes europeus andam há tanto tempo mergulhados na crise do euro, que pouca atenção devem ter prestado à “parceria oriental”, uma daquelas coisas que a Europa faz quase automaticamente e que já pouco tem a ver com a realidade europeia. Em Dezembro, Putin forçou o “seu” Presidente ucraniano a não assinar o acordo. No dia seguinte, foi o que se viu em Kiev. A velocidade dos acontecimentos deve ter surpreendido tanto a Europa como o próprio Presidente russo. A surpresa não o impediu de reagir aos acontecimentos de forma a ocupar a Crimeia e a demonstrar aos países europeus que fazem fronteira com a Rússia que mais vale portarem-se bem.

 

Putin calculou mal alguns aspectos da sua estratégia. Ocupou a Crimeia e integrou-a na Rússia em menos de oito dias, com um referendo que foi uma farsa e que, até agora, ninguém reconheceu como legítimo. Continua a ameaçar o território oriental da Ucrânia, alegando a protecção da minoria russa. Como escrevia Jim Hoagland, colunista do Washington Post, cometeu o erro de proclamar a sua nova doutrina: “Moscovo intervirá para proteger os russos étnicos noutros países contra perigos imaginários”. Esta doutrina não é apenas um desafio à União Europeia e à NATO, é também a mensagem errada para obrigar as antigas repúblicas soviéticas a integrar-se na sua União Euroasiática. Tudo isto já é conhecido. Mas Putin falhou na avaliação que fez da resposta europeia, cuja fraqueza olha com um enorme desprezo, contando com a suas eternas divisões, muitas delas ditadas pelos negócios, incluindo a energia.

 

Para que a sua avaliação tivesse sido correcta, era preciso que a Europa não tivesse percebido o óbvio: que a ocupação da Ucrânia e a ameaça a outros países foi aquilo que em língua inglesa se chama de “game changer”. Por mais distraída que viva em relação ao mundo que a cerca, há coisas que não pode ignorar. Foi o que aconteceu. “A conduta da Rússia é interpretada erradamente como o início de nova guerra fria com a América”, escreve a Economist. “Coloca uma ameaça mais ampla porque Putin conduziu um carro de combate contra a ordem existente”. Para Obama é um momento fundamental: “tem de liderar, não apenas cooperar”. Para a Europa, o reforço da NATO e o fim da dependência energética passam a ser cruciais.

 

2. A grande novidade é a Alemanha. Enquanto David Cameron ainda lia memorandos sobre como preservar a City do eventual congelamento dos bens dos oligarcas e a França se punha a fazer contas aos “Mirages” que queria vender à Rússia, Angela Merkel já tentava coordenar a sua resposta com Obama. Em todas as suas declarações, no Bundestag ou fora dele, a chanceler deixou claro que esta não era uma crise como as outras e que a resposta não poderia ser a mesma de sempre. Com o seu peso político, contribuiu decisivamente para que a Europa não se dividisse. Foi a principal interlocutora de Obama, mostrando que a Alemanha não se preocupa apenas com a economia. A partir daqui, o caminho vai ser mais difícil. No Conselho Europeu da semana passada, Cameron e Hollande já tinham deixado para trás a City e os Mirages, defendendo a quase inevitável “fase três” das sanções económicas, enquanto Merkel se mantinha mais prudente (não tanto sobre a sua inevitabilidade, mas quanto ao ritmo a que devem ser anunciadas). As relações económicas entre a Alemanha e a Rússia são enormes. Pode dizer-se que as sanções políticas aplicadas pelos EUA são muito mais duras do que as europeias. O comércio entre a União e a Rússia é 10 vezes maior do que o dos Estados Unidos e a dependência energética necessita de uma forma qualquer de encontrar alternativas.

 

 Berta Brás

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