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A bem da Nação

A CULPA É DA «PIZZA»

 

 

Ele - Qual a razão que leva os italianos a serem assim como são?

 

Eu - Assim como?

 

Ele - Gesticulosos, bravatosos, sonoros, teatrais.

 

Eu - Mas também têm grandes pintores, cantores, actores, escritores, teólogos, escultores, compositores…

 

Ele - Sim, sim! Mas podiam ser isso tudo sem tanta gritaria, sem bravata, sem a teatralidade com que querem impressionar os outros… ou a si próprios…?

 

Eu - Não creio que Paulo VI usasse essa teatralidade; nunca o ouvi alterar o timbre da voz, nunca o ouvi bravatar. Mas é claro que nunca fui com ele ao café da esquina, nunca lhe perguntei o que pensava de Sofia Loren ou do «Inter de Milão». Pelo contrário, li alguns dos muitos documentos produzidos durante o seu pontificado que primam pela elevação doutrinária, de escrita enxuta, sóbrios mesmo.

 

Ele - Exacto! Os italianos são o contrário disso: nada têm de sóbrios.

 

Eu - Pelos vistos, Você preferia que os italianos fossem suíços.

 

Ele - Sim, claro!

 

Eu - Mas foram os italianos que encheram o mundo de ópera, enfim de tudo aquilo que já referi no plano da cultura ocidental. Basta lembrarmo-nos duma quantidade enorme de Papas, de Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Dante Alighieri e por aí fora… E os suíços, o que produziram de genuíno?

 

Ele – Não sei.

 

Eu – Não sabe? E quer que os outros povos se assemelhem a eles? Bem, então eu dou uma ajudinha. Os suíços têm duas obras verdadeiramente genuínas: o relógio de cuco e o queijo «Tigre».

 

Ele – Está a gozar!

 

Eu – A gozar? Então diga-me lá outras coisas que os suíços tenham feito de verdadeiramente original.

 

Ele – O sistema bancário mais poderoso do mundo.

 

Eu – Sim, tenho que reconhecer que eles fizeram a maior máquina de lavar dinheiro sujo. E acha isso positivo? Acha que isso serve de exemplo para as outras Nações?

 

Ele – Sim, sou obrigado a reconhecer que isso é mau. Basear o seu próprio progresso naquilo que por si só pode representar desgraça alheia, é, pelo menos, imoral. Ou até, pior, amoral. Mas, pelo menos, são sóbrios. E logo ali ao lado, os italianos são uns espalhafatosos que mais parecem uns palhaços. Porquê?

 

Eu – A culpa deve ser da «pizza».

 

Ele – Por vezes fico sem saber quando Você fala a sério ou a brincar.

 

Eu – Então, se não é da «pizza», pode ser do «Chianti» ou do «vermouth».

 

Ele – Ora, ora! Também não os vejo assim sempre entornados. Mas até parece…

 

Eu – Entornam-se tanto como quaisquer outros europeus.

 

Ele – Os russos…

 

Eu - … sim, esses «nadam» em vodka mas têm muitos que nem sequer são europeus.

 

Ele – Mas dos russos não europeus há muitos que são muçulmanos e que, portanto, não bebem álcool.

 

Eu – Mas os russos não são o motivo da sua preocupação e, se fossem, teríamos de contar com outros parâmetros que não os dos italianos e dos outros europeus.

 

Ele – Quais?

 

Eu – O ateísmo forçado durante 70 anos e a religião muçulmana sobrevivente. O cristianismo ortodoxo sobrevivente não é assim tão diferente do catolicismo para, por si só, provocar diferenças abissais com os outros povos europeus.

 

Ele – Mas voltemos à «vaca fria» italiana.

 

Eu – Sim, voltemos. De um modo geral, acredito que a dieta alimentar influencia a maneira de ser das pessoas mas ainda acredito mais que o nível cultural ainda influencia mais. Ou seja, um italiano culto é de certeza um teatreiro muito mais interessante do que um italiano buçal. Mas ambos espalhafatosos. Veja a fleuma britânica e os «hooligans». Os ingleses medianamente cultos (e educados) devem saber que têm de se conter para não deixarem vir ao de cima o «hooliganismo» que lhes deve correr nas veias desde os tempos em que usavam capacetes metálicos adornados com cornos. 

 

Ele – Isso eram os vikings.

 

Eu – Também serve. O que eu quero dizer é que a educação, a instrução e, de um modo geral, o nível cultural, é que moldam os usos e costumes mas, ao fim de alguns séculos de hábitos alimentares, a genética deve ser influenciada pelo tipo de moléculas ingeridas e, dai, uma herança de atitudes que se pode tipificar por grandes cozinhas. Quem come um «cozido à portuguesa» fica suficientemente saciado para se manter numa atitude serena e quem come uma fatia de «pizza» fica suficientemente esfomeado para ficar irritado com o destino que Deus lhe deu. A serenidade induzida pelo «cozido» sugere ao comilão que não se rale com o que se passa à sua volta; a irritação induzida pela pequena fatia de «pizza» pode levar o italiano a ter que lutar por outra fatia e, portanto, ele tem que assumir uma atitude bélica que, à falta de vítimas específicas, o levam a mostrar “urbi et orbe” que é melhor que os outros e só por isso merece mais «pizza».

 

 

Ele – “Si non é vero é bene trovato”.

 

Eu – Sim, é claro que estou a falar em termos anedóticos. Mas há dias um primo meu lembrou que os «barões» que estão representados no Padrão dos Descobrimentos em Lisboa tinham uma dieta sem batata e que os seus descendentes, nós todos desde o início do séc. XVI, estamos abatatados e deixámos de dar «novos mundos ao mundo».

 

Ele – Amolecemos?

 

Eu – Transformámo-nos em puré. Apuresámo-nos em vez de nos apurarmos.

 

Ele – A dieta mediterrânica é que é a responsável pelo baixo teor de colesterol, diz a publicidade, em simultâneo com um nível energético muito grande dado pelas azeitonas e alcaparras. Será? Já os gregos se dedicavam muito ao teatro porque tinham facilidade em assumir atitudes teatrais.  

 

Eu – Fica o tema para esclarecimento por quem saiba disso. Eu nada sei e, entretanto, digo que a causa da teatralidade italiana é da «pizza» e dos restos de boçalidade que ainda por lá vagueiem.

 

Ele – Pois. E os ciganos?

 

Eu – Ah! Sim… A minha doutrina ainda precisa duns retoques.

 

Junho de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

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