Um ilustre diplomata português que exercia as funções de Cônsul de Portugal em Cantão, no final da II Guerra Mundial, quando ali se deu a retirada das tropas japonesas e o poder caiu na rua, nas mãos da turba famélica que atacava os soldados do seu próprio exército para se poder dedicar mais livremente ao saque, sofreu, em conjunto com colegas de outras nacionalidades, verdadeiros horrores. Foram eles agredidos, espoliados de seus bens e atirados para cárceres imundos onde passaram fome, eram espancados e contraíram doenças. Finalmente liberto e conduzido a Hong-Kong, o diplomata português enviou longo ofício ao Ministério dos Negócios Estrangeiros relatando a sua via cruxis e rematou-o do seguinte modo:
"Aquilo por que eu passei foi tão mau que não desejo tal sorte ao meu pior inimigo e nem sequer a um colega de carreira".
Academia Portuguesa de História na actualidade
Pensava eu que este ressentimento - por vezes bem humorado - inter-colegas era específico dos diplomatas até que um dia, por dever de ofício, fui assistir a uma sessão solene na Academia Portuguesa de História, sita então no Palácio da Rosa, à Mouraria.
No decurso da sessão, os académicos elogiaram-se reciprocamente. Eram todos doutos, eruditos, brilhantes, rigorosos, etc.. À saída e ainda no vestiário, notei contudo que, enquanto aguardavam os seus agasalhos, os ilustres académicos aproveitavam para criticar - em surdina - a petulância, ignorância, e outros predicados menos estimáveis dos colegas e confrades que acidentalmente não estavam ali.
Não me surpreendi pois quando este Verão rebentou uma polémica em torno de uma nova História de Portugal. Insultam-se agora os historiadores - e já não mais em surdina - por razões ideológicas. Parecem entender que a ideologia dispensa o decoro. Esquecem porém que há uma diferença entre historiador e panfletário. Na realidade, o que os nossos historiadores estão a dizer ao grande público é que a historiografia portuguesa contemporânea ficou presa nas malhas ideológicas e portanto privada de rigor científico.
Merece, mesmo assim, esta literatura inquinada a nossa atenção?
Só poderíamos saber se merece ou não se antes formos capazes de responder a outra pergunta:
Não sendo músico nem musicólogo, de acordo com o dicionário serei um musicista, da mesma forma que não sendo poeta nem poético, há manifestações das duas artes que me parecem universais e eternas.
A música de Pachebel, Bach, Vivaldi, para referir só alguns dos chamados barrocos, a dos grandes mestres clássicos como Mozart, Beethoven, Liszt e tantos outros, as óperas italianas de Verdi, Rossini, os clássicos espanhóis como Manuel de Falla, Joaquin Rodrigo, Albeniz, as canções napolitanas, e já bem mais perto de nós, o Tango, Louis Armstrong, Aznavour, Amália Rodrigues, os Beatles, etc., ficarão para todo o sempre. Admiradas por todos, de todas as idades.
Da mesma forma os grandes poetas: Dante, Camões, Schiller, dificeis de ler, marcos das línguas em que escreveram, mas... “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”, e onde cantaram com uma beleza imensa Gonçalves Dias, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Morais, e sempre outros mais.
Foi grande o Brasil na poesia e na música. Desta logo vem à memória Pixinguinha, Noel Rosa, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, António Carlos Jobim, Adoniran Barbosa, e mais outra imensa plêiade de artistas, chamados universais. Como os poetas.
Mas, assim como acabaram os impérios Sassânida, Romano, Britânico, a hegemonia da cultura grega, a grande civilização egípcia, possivelmente por terem gasto com demasiada rapidez os seus trunfos, em termos de líderes intelectuais ou militares, a música e a poesia parecem estar na mesma fase de decadência. Infelizmente rápido demais.
Para ouvir um concerto clássico, uma ópera, um fado, Jobim e outros, faz-se silêncio, embebe-se o ouvinte com a beleza e harmonia das músicas, e das suas letras, e por fim sai com a alma limpa, sempre a desejar mais e mais.
Hoje uns quantos artistas sobem aos píncaros da fama e grana, levados por empresários sedentos de lucros, elas exibindo-se eroticamente, com instrumentos gritando e holofotes encadeando, eles, maquiados, vestidos de palhaços, berrando como condenados, e uma turba de largos milhares saltando, agitando os braços, muitas delas encavalitadas nos ombros, pescoço e..., e mesmo sem conseguirem ouvir – jamais apreciar – pagam quantias exorbitantes para ficar ao relento a olhar um espectáculo que nem de circo seria digno.
E as letras dessas chamadas músicas? A maioria das vezes não são letras de música, nem de coisa alguma. Por vezes são simplesmente letras. Ruídos..
A grande moda que agora o Brasil exporta, e faz sucesso em todo o mundo, são músicas (?), que não têm nem música nem melodia, talvez só ritmo, inferior ao clássico batuque africano, e dele dizendo-se descendente, mas cuja letra só recém nascido deve poder compreender.
Há pouco foi o belo poema “Ai, se eu te pego” única frase de todo o tempo em que os instrumentos fazem barulho. Um sucesso estrondoso. Pouco antes foi o “Olha o tchan, tchan, tchan” e agora aparecem outras com o mesmo nível de musicalidade, harmonia e poesia!
Uma com a bela letra “Bará, bará, berê, berê” e outra, do mesmo nível, mas que – talvez – se possa escrever assim: “Tcherê, tchê, tchê”.
Não será isto uma, talvez louvável, tentativa científica de imitar alguns animais, ficando atrás dos microfones a grasnar, grunhir, relinchar, zurrar, rugir, e dando saltos que nem acrobáticos são?
Estão a matar a poesia e a assassinar a música!
Só para uma pequena comparação – se tiverem uns minutos – vão clicando nos links abaixo.
Volta que não volta, remexo em livros já lidos, por vezes mais do que uma vez, porque a memória começa a ficar perdida, sem saber o que sabe! Já Dante dizia que não podemos nunca atingir o conhecimento se não o conservarmos!
E encontro coisas curiosas!
O tal pai da psicanálise teve tiradas de “mestre”! Uma delas ao analisar um escrito de Leonardo Da Vinci, em que este descreve um sonho de infância – “Um abutre desceu até mim, abriu-me a boca com a cauda e bateu com ela muitas vezes contra os meus lábios” – Freud afirma logo que este sonho era prova de homossexualidade latente! Está mesmo a ver-se Leonardo da Vinci a fazer amor com um urubu! Segundo estudiosos, Freud interpretou mal os escritos de Leonardo, mas “glorioso”, assim mesmo, emitiu a sua opinião!
Eu não me lembro de ter sonhado com qualquer urubu, mas com passarinhos bonitos, delicados, borboletas e outras “mariquices”. O que diria Freud de mim?
Mais tarde o mestre concluiu que o olhar da Mona Lisa, Santa Ana e a Virgem, eram o reflexo do seu carinho pela mãe, uma pobre criada de servir.
Sabia “à brava” o tal de Sigismund! Até de criadas de servir.
Em outro livro reencontro a evidência do princípio das grandes crises financeiras que hoje enfrentamos. O enriquecimento baseado não na produção, mas nas transacções financeiras! Tal como hoje, quando com um só telefonema se podem ganhar, ou perder, milhões, sem que haja trabalhadores a produzir o que quer que seja.
Começa esta “festa” na Itália quando são “inventados” os bancos. Para se evitar que os comerciantes que cruzavam a Europa em todos os sentidos, carregassem consigo grandes quantidades de dinheiro, sujeitos a assaltos e roubos, uma rede de “agentes bancários” foi-se estabelecendo, emitindo “lettere di credito” e... ganhando, ganhando.
Mas não foram só estes que enriqueceram. Foram também aqueles que, sobretudo, comerciavam mercadorias de luxo. Como hoje, quando um mesmo relógio cheio de brilhantes pode valer entre 1.000, 2.000, ou 20.000! Valor arbitrário.
Este ano a Forbes apresentou um bilionário francês, cuja fortuna aumentou 45% em 2010. Como? É dono ou sócio maioritário de grandes marcas de luxo, desde roupas a jóias, relógios e outras inutilidades!
Quando a Europa se viu invadida com as imensas quantidades de ouro roubadas da América pelos espanhóis e, quantas vezes aproveitadas pelos corsários, o ouro excedeu de tal forma o ritmo de produção de mercadorias, que o resultado foi a primeira grande e catastrófica inflação que a Europa sofreu.
E para que servia o ouro? Para ostentação! Porque na realidade vale tanto como papel-moeda. Se um indivíduo se perder, no meio do nada, esvaído de fome e sede e tiver baús cheios de ouro e notas... de que lhe valem? De nada. Daria até toda essa “fortuna” por uma galinha, ou duas batatas ou bananas! E até por um copo de vinho!
Hoje vemos os preços das malfadadas commodities a subir, quando o custo de produção baixa, porque os intermediários são os mesmos, que parece pretenderem levar o mundo à ruína.
A “coligação” está entretida a destruir o máximo de material de guerra de que dispõe o louco assassino da Líbia. Claro que ele, assassino perigoso, como já o provou, merece ser enjaulado, julgado e esculhambado. Mas assim que a Líbia entrar na normalidade (quando, e se???) a primeira visita que receber desses “amigos coligados” será para venderem novas armas!!!
Está tudo louco.
Praticamente na mesma data, e sem se conhecerem, dois homens escreviam duas teses diametralmente opostas, sobre a conduta dos homens e dos governantes.
Enquanto um, meio platónico, cristão, preocupado com o sofrimento do povo e a arbitrariedade dos governantes, escrevia sobre a igualdade e classificava o dinheiro como a origem de todos os males, um autêntico utópico, o outro, pés no chão, diz-nos que aquilo a que temos que nos ater é ao que os homens fazem e não ao que deviam fazer!
Para aqueles, simples montanheses, em quase nenhum estado de civilização, quando ainda são puros, poderiam fundar uma república ideal, enquanto que os que vivem em cidades, se habituam depressa à corrupção e ao mal.
Os homens são perversos e não guardarão a sua palavra perante ti! Um príncipe não hesita em intrujar o seu povo e enganá-lo.
O primeiro enaltece um quase paraíso na Terra, onde não houvesse dinheiro, a raiz de todo o mal. E vislumbrava já a conspiração dos ricos procurando vantagens em nome da comunidade; inventam e planeiam todos os meios e possibilidades para usar do trabalho dos pobres, pelo mínimo possível de dinheiro. E estes planos quando os ricos os decretam... tornam-se leis.
Enquanto um “ensinava” os governantes a aparecerem perante o povo ricamente adornados, o outro dizia que odiava ver os homens mourejando para fazerem coisas frívolas e inúteis, ávidos da própria vaidade, para superar os outros, com a vã ostentação de “inutilidades gloriosas”.
Um rejeitava a ideia do Estado onde governantes impõem os seus desejos pessoais. E ia mais longe: será extremamente raro encontrar um homem bom, disposto a usar de meios perversos para se tornar príncipe, mesmo quando o seu objectivo é bom, como encontrar um homem mau que, depois de príncipe, esteja disposto a trabalhar para bons fins, ou que lhe viesse ao espírito usar para bons fins a autoridade que adquirira por meios depravados. O outro considera que os fins justificam os meios e, daí, a psicologia da guerra.
Depois destes fracos considerandos, imagino o que Freud diria de mim: um platónico, utópico... um idiota! Aqui, sou obrigado a aceitar o veredicto do mestre psicanalista!
Resumindo:
1.– O primeiro, o bom, acabou decapitado.
2.– E quem alguma vez chegou a governante sem ter feito trapaça, corrompendo, ou entrado em guerrilha contra os próprios irmãos?
Resumo: Publicada em oito volumes, a colecção História Geral da África está agora também disponível em português. A edição completa da colecção já foi publicada em árabe, inglês e francês; e sua versão condensada está editada em inglês, francês e em várias outras línguas, incluindo hausa, peul e swahili. Um dos projectos editoriais mais importantes da UNESCO nos últimos trinta anos, a colecção História Geral da África é um grande marco no processo de reconhecimento do património cultural da África, pois ela permite compreender o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações a partir de uma visão panorâmica, diacrónica e objectiva, obtida de dentro do continente. A colecção foi produzida por mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento, sob a direcção de um Comité Científico Internacional formado por 39 intelectuais, dos quais dois terços eram africanos.
John Ruskin (1819-1900), historiador inglês de Arte europeia, artista desenhador por mérito próprio e um dos espíritos que mais influenciou o pensamento artístico e a estética no século XIX, teve o seu primeiro arrebatamento sentimental quando se deparou com a estátua fúnebre de Ilaria di Caretto, sobrejacente ao seu túmulo, na igreja de San Martino, em Lucca. Ilaria tinha sido a segunda mulher de Apulo Guinigi, senhor de Lucca, e morrera muito nova, logo após o casamento. A estátua obedece aos cânones medievais tardo góticos. É obra de Jacob della Quercia e foi executada no início do século XV, logo após a morte de Ilaria. A jovem defunta é representada deitada, com a cabeça coroada por um turbante apoiada em duas almofadas, vestida com a simplicidade medieval e tem aos pés um cão, símbolo da fidelidade (conjugal, supõe-se).
O esteta de Além-Mancha ficou deslumbrado com a doçura do rosto oval, a singeleza e graça do gesto dos braços e mãos e, sobretudo, com a finura do recorte dos lábios onde aflora um sorriso enigmático, quase giocondino, que nunca se sabe se inspirado por Deus ou pelo diabo. E tudo isto lhe era oferecido gravado em mármore imaculado. Ruskin teve ali e então a sensação sublime de ter alcançado a vera essência do belo: - a graça imarcescível.
Em carta aos seus pais, John confessa que sentiu um impulso quase irresistível para se estender ao lado de Ilaria, partilhar com ela as almofadas de pedra, cobrir as mãos frígidas da jovem com as suas e deixar-se ali ficar para todo o sempre na doce companhia da beleza pura e eterna. Ao cabo de repetidas visitas, decidiu-se finalmente: - desenhou o perfil de Ilaria e guardou o desenho entre as suas coleções (posteriormente famosas) de sketchs. Ilaria porém não se resignou com a condição de apontamento e continuou a fazer-lhe sentir o seu encanto de forma cada vez mais aguda.
John Ruskin retratado (com as pedras) por um pintor pré-rafaelita
Fonte Wikimedia Commons
Após o regresso a casa, JR foi à Escócia onde visitou os Gray, velhos amigos de seus pais. Deparou-se então com a beleza irradiante da filha do casal, Euphemia (1828-1897), agora feita mulher. Sem mais, pediu-a em casamento e a mão da jovem foi-lhe prontamente concedida. Effie, como ficou conhecida, seria festejada em Londres pela formosura da sua pessoa e vivacidade do seu espírito. Em Veneza, onde o casal passou um ano que permitiu a John escrever um dos seus livros mais apreciados - "As Pedras de Veneza", Effie tornou-se o centro da vida social. Ao que se sabe, os cônjuges sempre se estimaram. Assim mesmo, ao cabo de cinco anos, o casamento foi anulado por não consumado. Ao depor no inquérito conduzido pelas autoridades eclesiásticas, o artista-crítico justificou o seu abstencionismo com a alegação de que não quisera macular a beleza de sua esposa. Acrescentou que não desejaria encher a casa de crianças porque não tinha paciência para "putti". Se o motivo foi este, o escritor andou bem-avisado pois Euphemia, no seu segundo casamento, presenteou o novo marido com nove filhos.
Havia contudo alguma coisa mais. John Ruskin, numa carta a um amigo citada pelo seu biógrafo Tim Hilton, opina que a realidade carnal da mulher estraga o seu encanto. "A carne não é material que inspire e estimule um artista; a pedra é", afirmou o esteta. Para amar, seria preciso manter as distâncias. Sem prudente afastamento, a imagem que o homem forma da mulher na sua mente evapora-se num ápice. Tal confissão foi vista ao tempo como indício de que J.R. não suportava a mulher como organismo vivo, ilação que não condiz com a teoria de beleza por ele próprio enunciada. Nos seus escritos diz-nos que "a Beleza da forma é nos revelada nos organismos que se desenvolvem perfeitamente de acordo com as suas leis de crescimento e nos dão a aparência de execução bem conseguida da função que lhes é própria". Ao que parece, a coerência não seria talvez a maior virtude de Ruskin.
***
A história porém não acabou aqui. Já beirando os sessenta, John Ruskin apaixona-se vivamente por uma jovem que frequentava a sua casa onde vinha receber lições de desenho. Tratava-se de Rose La Touche, filha de um irlandês puritano radicado em Londres, em Park Lane, no Mayfair. A jovem ia nos seus dezoito anos quando JR lhe propôs casamento. Ela pediu-lhe que esperasse três anos. Ruskin aceitou e, ao cabo de três anos, Rose rejeitou-o apenas para morrer de doença, solteira, pouco tempo depois. Ruskin fica louco e entra em delírio. Nos sucessivos poemas que dirige à sua antiga discípula, confunde Rose com Ilaria. Chega a afirmar que logo na primeira vez que a viu percebeu que Rose era Ilaria reencarnada. Ilaria saíra lá das profundezas do esquecimento para o visitar em sua casa. Ruskin tinha enfim encontrado a reposta à dúvida que o perseguia desde Lucca. - Quem inspirara - Deus ou o diabo - o sorriso ambíguo esculpido por Jacob della Quercia nos lábios de Ilaria? Agora sabia: - não fora Deus. E assim concluiu: - "a mulher apaixona-se por mando de Satanás".
John Ruskin recuperou paulatinamente a saúde mental e viveu até final do século, tendo sido objecto de inúmeras homenagens mas a obra literária que produziu a partir de então nunca mais atingiu o brilho que a caracterizara anteriormente.
Só se pode ter orgulho de uma nação, quando nela não haja uma classe que a envergonhe.
Não há princípio que, considerado objetivamente, seja tão errado como o princípio parlamentar...
O parlamentarismo é uma estufa onde se cultiva a irresponsabilidade.
Que pode fazer o estadista que só consegue pela lisonja conquistar o favor da aglomeração parlamentar para os seus planos?
Uma nação em que metade da sua população vive na miséria, trabalhada pelas maiores preocupações, ou mesmo corrompida, dá de si uma impressão tão pouco edificante, que ninguém por ela pode sentir orgulho.
A massa popular, nos seus profundos sentimentos, não é consciente e deliberadamente má. Devido à simplicidade do seu caracter e menos corrompida, é mais frequentemente vítima das grandes mais do que das pequenas mentiras. Em pequenas coisas elas também mentem, mas das grandes têm vergonha.
O maior perigo que pode ameaçar um movimento é o exagero no número de adeptos adquiridos em conseqüência do êxito fácil.
É prejudialissimo erro julgar que a grande massa é tola: é-o menos do que parece.
O efeito imediato de uma guerra é o devorar os melhores entre os melhores.
A idéia de poder dividir para sempre o mundo em Estados com direitos desiguais, será sempre aceita apenas por uma das partes.
Os armamentos são uma ameaça para a paz, e então são-no em todos os Estados; ou não constituem ameaça de guerra, e, nesse caso, não o são em nenhum Estado. O que não é admissível é que um grupo de Estados apresente os seus armamentos com um pacífico ramo de oliveira e ou outros como a forquilha do diabo.
Os direitos humanos estão acima dos direitos do Estado.
A autoridade do Estado não se apóia no palavrório dos parlamentares, nas leis de proteção ou nas sentenças judiciais destinadas a amedrontar os covardes e mentirosos, mas na confiança geral que a direção política e administrativa de um país deve inspirar.
A economia não pode prosperar se não se encontrar uma síntese entre liberdade do espírito criador e a obrigação da coletividade nacional.
A economia dirigida é um empreendimento perigoso. Facilmente provoca a burocratização e com ela o estrangulamento da iniciativa individual, eternamente criadora.
No domínio da vida econômica há uma lei que determinará todos os atos: O povo não vive para a economia e a economia não existe para o capital. O capital serve a economia e esta o povo.
Foi possível que o dinheiro se tornasse o poder dominante na vida de hoje, mas um dia virá em que os homens venerarão outros valores bem mais elevados.
O sindicato, só por si, não é um elemento de luta de classes. O marxismo é que fez dela o seu instrumento.
Não há doutrina que se possa impor como doutrina de destruição, pois tudo tem que servir a vida.
Toda a força que não provém duma firme base espiritual torna-se indecisa e vaga. Faltar-lhe-á certa estabilidade que só repousará no fanatismo.
O mundo não foi feito para os covardes.
A humanidade tornou-se grande na luta eterna; na eternidade ela perecerá.
Não se deve estudar história somente para saber o que aconteceu, mas para que ela possa orientar o futuro das nações.
A escola deve reservar mais tempo para os exercícios físicos. A função dos esportes não é somente tornar os indivíduos ágeis e destemidos, mas ainda de prepará-los para suportarem todas as reações.
A fé, auxiliando o homem a elevar-se acima do nível da vida vulgar, contribui verdadeiramente para a firmeza e segurança da sua existência.
Para o chefe político, as idéias e as instituições religiosas do seu povo, devem permanecer sempre invioláveis.
Em todas as épocas houve indivíduos sem consciência que não tiveram pejo de fazer da religião um instrumento dos seus interesses políticos.
É fácil iludir os homens, não é possível subornar o Céu.
O mais alto resultado obtido pela comunidade humana, ao contrário do que pensam em particular os economistas, não é o que se chama a economia, mas a cultura.
O nosso ideal de beleza deverá ser sempre a saúde.
Nenhum povo sobrevive se não subsistirem as obras que testemunham a sua cultura.
"Não nos devemos preocupar com o dinheiro; quando é preciso, ele aparece".
(Comentário à decisão de Azeredo Perdigão de apoiar o seu projeto de criação de uma rede nacional de bibliotecas itinerantes.)
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"Um homem pode, ao longo da sua vida, racionalizar e aperfeiçoar os seus conceitos e atitudes em função da experiência adquirida; porém, quando a crise chega e estão em jogo interesses vitais, reage de acordo com a sua formação de raiz. Não o faz por teimosia mas por temor."
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"Se o autor não conseguiu despertar e prender a atenção do leitor na primeira página do livro, o leitor deverá pôr o livro de lado pois, garantidamente, o autor não conseguirá interessá-lo em qualquer outra fase do livro".
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"O estilo é bom quando não se dá por ele."
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"Conferências, nem fazê-las, nem ouvi-las. Não há pior meio de comunicação."
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Anedotário
Dizia o inglês surpreendido: - "O Branquinho não fala inglês?! Mas quando estivemos a conversar, ele disse sempre oh! nos momentos certos e com a pronúncia certa".
Na minha terra adoptiva, Kassel, no Estado do Hesse, Alemanha, há uma lei que regula os dias santos e feriados. Ela proíbe eventos de dança desde as 4 horas de Quinta-feira Santa até às 24 horas de Sábado Santo. No Domingo e Segunda-feira de Páscoa é proibido festejar entre as 4 e as 12 horas tal como nos outros feriados nacionais.
O partido dos Piratas e a Juventude dos Verdes recorreram ao Tribunal Constitucional, no sentido de poderem organizar danças para Sexta-feira santa, dado esse dia não lhes dizer nada. O Tribunal Constitucional, porém, não aceitou tal plano pelo facto do assunto ser da competência de outro tribunal; vários tribunais do Hesse proibiram as demonstrações contra a lei dos feriados, planeadas pelos referidos grupos, para Sexta-feira Santa.
Na Sexta-feira Santa, o dia do silêncio, é comemorada a morte de Jesus. O alemão para designar a Semana Santa utiliza a velha expressão ”Semana das lamentações”.
Interrupções no ritmo trabalho-compra-diversão revelam-se como salutares para o equilíbrio psíquico humano. Na Alemanha há uma forte aliança entre Igreja, Sindicatos e Associações no sentido de se não ocupar os Domingos e feriados com o trabalho.
O Homem não é de pau, nem vive só de pão, nem foi criado para estar continuamente disponível para um mercado de trabalho que quer ocupar todos os espaços humanos.
Na União Europeia já há muita gente que reconhece a necessidade de tempos de sossego e de calma, pelo que vários deputados europeus formaram uma iniciativa em defesa do Domingo como dia livre de trabalho.
Uma sociedade sem espírito público, de tendências individualistas eliminaria o estado social que se baseia em valores comuns.
Naturalmente que cada convicção deve ser respeitada mas não cair no extremo duma anonimidade geral. A regularmo-nos apenas pelo individualismo teríamos de abolir todos os dias santos e feriados, todos os nomes de ruas. O que para uns é afirmação para outros pode constituir uma provocação.
Temos que viver uns com os outros, cada qual suportando o peso e a riqueza do seu gene e apesar de tudo manter um sentimento grato pelas tradições que nos deram o ser cultural. Trata-se de nos suportarmos uns aos outros num espírito de benevolência sem nos querermos afirmar à custa dos outros. Doutro modo teríamos que criar uma sociedade irreal abstracta reduzindo tudo a números. O Cristianismo (gregos, romanos, judeus e outros) gerou-nos, como cultura, constituindo os nossos fundamentos. Trazemos em nós os genes da cultura assim como somos portadores dos genes de nossos pais, sem eles não seriámos nós, quer queiramos ou não eles são e estão em nós tanto no cómodo como no incómodo, no defeito como na virtude. Não reconhecer isto é fuga. Constituiria um testemunho de pobreza se nos fixássemos num espírito de contradição obstinado contra a nossa cultura. Importante seria reconhecer seus defeitos e virtudes em nós; só então estaremos prontos para nos descobrirmos a nós.
A nossa sociedade tem-se preocupado muito com a afirmação a nível individual. Não pode esquecer porém que indivíduo e comunidade são as duas faces da mesma moeda, a pessoa.
Tudo o que se faz ou deixa de fazer só se legitima tendo por base a defesa e o serviço da pessoa humana. Por isso é preciso tomar a sério muitas solicitações da Igreja. A Igreja preocupa-se pela defesa da pessoa no seu todo enquanto o Estado e as Empresas se preocupam mais em considerar a pessoa como indivíduo, como pagador de impostos, como cliente.
A Semana Santa é o dia grande da cristandade em que a metamorfose da vida e do mundo se resumem num só acontecer, num processo de morrer para renascer.
Para os protestantes, Sexta-feira Santa é por assim dizer o dia santo “mais evangélico” pelo facto de “no sofrimento e morte de Jesus Cristo se experimentar a proximidade de Deus neste mundo, até à morte”, como diz o bispo Martin Hein.
Numa realidade de morrer e renascer, defensores e contrariadores terão de aprender a levar a cruz uns dos outros, dado cada um de nós ser, em parte, a cruz do outro.
Murchas, foi como nos cumprimentámos ontem, a minha amiga a lembrar que lembrava o mesmo de sempre e que não tinha emenda, e eu a referir o susto provocado nessa manhã de domingo, com os dizeres da arrogância sapiente do “Eixo do Mal” a respeito da Grécia e da vitória da Syriza, a Esquerda Radical Grega, tão apoiada pelos nossos partidos da Esquerda, com o intelectual Louçã à cabeça, tão certos da sua vitória contra a “paz podre” dos partidos da “austeridade”, que já retiravam a Grécia das patas da Europa troikista, da Europa “tout court” de que ela foi cabeça – ou ventre - para a fazerem sucumbir, com os seus dracmas, sob as patas da Turquia, da Rússia, até mesmo, salvo erro, da China.
Creio que foi a Clara Alves que evocou esse cenário que, confesso, me aterrorizou, na minha credulidade ignorante, que já passou por outros cenários, dos que falavam em “paz podre” referindo o salazarismo também austero, e desejando alterá-la para “guerra sã”, ou “guerra santa”, nem sei bem, porque a favor dos pobrezinhos, como se tem visto, que enriqueceram à custa da mudança.
Felizmente que eles não acertaram nas suas esclarecidas previsões e a Syriza perdeu a favor da chamada Nova Democracia que volta a pegar nas propostas troikistas da tal paz podre actual, que faz espumar de raiva os que afirmam que estamos a saque, nós, os pequenos. Eu nisso concordo, mas desejo que o nosso país consiga vencer o impasse, e a Grécia também.
Mas a minha amiga não acredita que consigamos, e eu então lembrei-lhe umas trovas antigas, embora sem “saudade louca”, nem “cantigas a bailar de boca em boca”, nem mesmo “guitarras a gemer de mão em mão”, como lhes chamaria o nosso Carlos do Carmo, que é um fadista também muito erudito e crente, ao contrário de nós, cépticas por experiência própria, tal como o Velho do Restelo. São elas de Duarte da Gama, poeta do Cancioneiro Geral e chamam-se “Trovas às desordens que agora se costumam em Portugal”, de um conservadorismo tacanho e reaccionário, tal como o nosso, embora não tão passadista como o dele, valha a verdade, que se enraivece contra o novo-riquismo ambicioso trazido pelos descobrimentos marítimos e o envilecimento dos costumes, como agora também sentimos, sem tanta raiva contudo, por muito que o enriquecimento actual tenha provindo também de esforços, mas, apesar de tudo, menos trabalhosos do que os daquele tempo de navegações e naufrágios, o que é sempre um factor prestigiante e de modernidade, por estar assente no conceito hedonista da existência, o prazer sendo o que se leva desta vida. Vejamos então algumas dessas 32 trovas, de uma dimensão temporal à prova de fogo:
1-“Não sei quem possa viver
Neste reino já contente,
Pois a desordem, na gente
Não quer deixar de crescer;
A qual vai tão sem medida
Que se não pode sofrer:
Não há aí quem possa ter
Boa vida.
2- Uns vejo casas fazer
E falar por entre-solos(= a ocultas, ruminando os seus projectos de grandeza?)
Que creio que têm mais dolos (= apoquentações)
Do que eu tenho de comer;
Outros, guarda-roupa, quartos
Também vejo nomear,
Que já deviam d’estar
Disso fartos.
3- Outros vejo ter cadeiras
De justo e de cruzado
E chamarem-lhes de estado:
Não entendo tais maneiras.
Outros vendem a herdade
Por comprar tapeçaria,
Dos quais eu ser não queria
Na verdade
…………………………………………
13- Outros não querem verdade
Falar, com ribaldaria (= desvergonha)
Falando por senhoria
A homens sem dignidade.
Ó usura conhecida,
Tratada por tanta gente,
Porque és no mundo presente
Tão crescida?
14 - Na cobiça dos prelados
Não é já para falar,
Que em vender mais que rezar
E em comprar são ocupados.
…………………………………………..
18 – A maneira de escrever,
Que costumam nos ditados,
É chamarem já preçados (= distintos, notáveis)
A mil homens sem o ser.
E quando na baixa gente
O costume for geral,
Há-de vir a principal,
A excelente.
………………………………..
21 – O cavalo desbocado
Nunca se pode parar
Sem primeiro se cansar:
Então logo é parado.
Assim creio que faremos
Nos gastos demasiados,
E depois de bem cansados,
Pararemos.
…………………………………………..
24 – A cidade de Cartago,
Depois de ser destruída,
Fez em Roma mor estrago
Que antes de ser perdida.
Os “Romãos” desde que venceram
Foram dos vícios vencidos,
E seus louvores crescidos
Pereceram.
25 – Assim, para não perecerem
Os tão antigos louvores
Dos nossos predecessores,
Convém que nos “reprenderem”
Dos vícios e da torpeza
Em que queremos viver,
Antes de se converter
Em natureza.
…………….
Não, a nossa conversa murcha, sempre “à roda”, embora antiga, não tem hoje trova que preste, de tão repetida, impecavelmente à moda.
Muito se criticam entre si os povos de culturas diferentes! Cada um acha que a sua cultura ou o seu Deus é que estão certos, criticam, ridicularizam, e, quantas vezes tentam interferir, e interferem, na vida dos outros. A bem ou na espada!
A história nos mostra dezenas, centenas de casos de intolerância!
Nós, ocidentais, continuamos indignados com algumas práticas selváticas, ainda em rigoroso vigor nalguns países, como a excisão feminina (ou circuncisão feminina). Uma forma de bestialidade é o domínio do homem sobre a mulher, que resignadas e medrosas sofrem toda a espécie de abuso.
Outra situação que não compreendemos é o usa da burca. A mulher obrigada a usar aquela carapaça, nos dias quentes, deve estufar.
Por outro lado há outros hábitos como o ichad (que deu origem a écharpe), aquele véu com que as mulheres árabes cobrem a cabeça deixando o rosto à vista, que podem considerar-se perfeitamente normais.
Todos os povos – mulheres – do mediterrâneo usavam, e muitas ainda usam esse lenço, como é fácil encontrar nas mulheres mais idosas, em Portugal, na Grécia, na Espanha. Não é uma invenção árabe, mas um costume que vem de muito antes do islamismo.
Nos séculos anteriores, do XX para trás, a evolução da moda fez muitas mulheres trocarem esse lenço, por chapéus, e os homens, os turbantes também por chapéus vários, como as cartolas, os “coco”, palhinha, etc.
No princípio do século XX, em Portugal, os homens ficavam excitados só ao verem o tornozelo das mulheres, ao subirem, por exemplo, para uma carruagem!
Mas enquanto a “evolução” não começou a despir homens e mulheres, sobretudo as mulheres, o interesse pelo sexo oposto era muito mais respeitoso. Era bonito.
Consta que um dos problemas que derrubou o Império Romano, foi a bandalheira de costumes em que se envolveram os seus maiores. Prostituição descarada, adultério, sodomia, eram exibidos como demonstração de “status”!
O mais grave de tudo isto é a destruição do núcleo central de qualquer sociedade: a família.
Causa até mau estar assistir-se hoje ao estímulo do sexo desenfreado, sexo livre, como se isso fosse um “valor adquirido”! Cada um dispor do seu corpo para fins unicamente de prazer... quando dá prazer! Isso é liberdade? Ou liberdade não será cada um impor a sua moral?
Qualquer revista, mesmo que o assunto seja literatura ou filosofia, “obriga-se”, para chamar a atenção dos idiotas, a trazer na capa a figura duma mulher despida ou mostrando estupidamente o quanto de silicone conseguiu colocar no peito! E não só no peito: na bunda, nas coxas, nas rugas da cara, e que as operações plásticas acabam por desfigurar.
Calcula-se que largas centenas de milhares de mulheres fizeram implantes nos peitos. Para quê tudo isso? Mas não são só as mulheres!
A quantidade de homens que fazem plástica, usam botox, ou implantes para mostrar braço e perna fortes, músculos abdominais (de mentirinha), passa dos 20% de todo esse grande negócio. Alguns conhecidos actores de cinema, hoje parecem mais bonecos de cera do que gente.
Mas há outros hábitos culturais, difíceis até de qualificar.
Há dias, em Brasília, na piscina de um clube, um funcionário da Embaixada do Irão, enquanto nadava na piscina, com crianças, foi metendo a mão nas pernas de garotinhas de 10 a 12 anos. Uma, já de 14, foi queixar-se ao gerente do clube que logo interditou a piscina. E começa a polémica. O iraniano tem imunidade diplomática. O governo brasileiro reclamou e a Embaixada dos aitolás respondeu que não via nada de mal no assunto: era só uma questão de “culturas diferentes”! O caso está a ser investigado para ver se pode indiciar o miserável. Parece que entretanto ele já deu o fora para casa, onde, para manter a sua “cultura” viva deve ir meter a mão nas saias da mãe... do Hamanidejah ou do aitolá!
Outra “cultura” interessante é a dos americanos. Maravilha.
Para que não pensem ser invenção minha, passo a transcrever uma notícia escrita por um jornalista americano:
Quanta bobagem
Será difícil para qualquer país, mesmo do quinto mundo, conseguir superar a mais recente estultice dos Estados Unidos. Berço do politicamente correcto e incubadora das versões mais xiitas da prática, a nação americana acaba de ultrapassar um novo patamar.
Uma directriz da Secretaria de Ensino de Nova York enviada semanas atrás a várias empresas que elaboram testes educacionais para a prefeitura, parece saída de um programa de humor. Ela lista meia centena de palavras, tópicos ou referências que devem ser evitados, diz a instrução, "para não provocar emoções desagradáveis nos estudantes".
As palavras proibidas são tão anódinas que não mereceriam registo algum. Acopladas ao arrazoado que as acompanha para justificar o veto, contudo, elas adquirem vida nova e delirante. Alguns exemplos:
"Dinossauros" — segundo os zelosos educatecas nova-iorquinos, os simpáticos dinos, que de tão queridos pela garotada já foram rebaptizados pelo diminutivo, arriscam evocar a evolução das espécies e portanto ferir as susceptibilidades de crianças formadas dentro dos preceitos do fundamentalismo criacionista.
"Aniversários" — seguidores das Testemunhas de Jeová não costumam celebrar a data, portanto melhor evitar. Aproveitando a ocasião, convém também banir menção ao inofensivo (embora irritante) Halloween, o Dia das Bruxas, hoje imitado no Brasil, por sugerir paganismo. E "dança", seja na forma verbal ou substantiva, só se for na modalidade balet.
Na mesma linha, conceitos como "terrorismo" foram previsivelmente considerados por demais assustadores, e "escravidão", por via das dúvidas, também merece ficar fora de testes de avaliação.
Segundo a porta-voz da Secretaria Municipal da pasta, ouvida pelo "New York Post", alguns desses tópicos, "embora perfeitamente aceitáveis em outro contexto, não se enquadrariam numa avaliação mais ampla da realidade da cidade". Há quem divirja. O que fazer com Mitt Romney, o candidato (quase) oficial do Partido Republicano, encarregado de enxotar o Presidente Barack Obama da Casa Branca em Novembro próximo? Uma das instruções no novo léxico politicamente correcto recomenda passar ao largo luxos e riqueza, piscinas e mansões, para não melindrar sensibilidades sociais. "A intenção é evitar ofender ou prejudicar qualquer aluno por ele ter pouca familiaridade prévia com o tema", explicou o porta-voz da Core Knowledge, uma das fundações que elabora testes educacionais no país.
Coincidentemente, dias atrás, Romney liderou o noticiário em boa parte da mídia por algo tão tolo como a directriz sobre os testes, mas que nela encontrou um ponto de intersecção. Segundo revelou o jornal electrónico "Político", o ex-governador de Massachusetts aproveitaria a reforma que pretende fazer numa casa em La Jolla na costa do Pacífico, para instalar um elevador interno e uma lavadora automática para os quatro automóveis que mantém na casa de praia.
Foi um brouhaha. De uma hora para outra todo mundo queria detalhes desse elevador capaz de lhe trazer o carro quase até à mesa de jantar, e Romney arriscou ser crucificado por teimar em ser bilionário e usar o dinheiro da forma que melhor lhe convém. Ou, na ponta oposta do ideário partidário, ser admirado justamente por se ter tornado bilionário e usar a fortuna como quiser. Como opinou o tuiteiro David Waldman na secção de humor que o episódio gerou, "certamente há razões sólidas para se ter um elevador doméstico de carros. Você apenas não é rico o suficiente para saber quais são elas". Eike Batista, que até há pouco tempo tinha na sala a Mercedes SLTL-McLaren usada pelo filho Thor, além de uma Lamborghini, sabe.
Disparidades sociais são difíceis de deletar com uma canetada. Mais difíceis ainda do que convencer a molecada do Harlem ou do Brooklyn a não se interessar ainda mais pelos hábitos da actriz australiana Nicole Kidman, que recentemente se tornou a primeira moradora de Manhattan a ter um elevador que lhe leva o carro até à cobertura que ocupa em Chelsea.
DORRIT HARAZIM
Jornalista
Fica para a próxima o comentário sobre o tal de Mitt Romney, que estou a ver na minha bolinha de cristal!