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A bem da Nação

A GRAVATA

gravata vistosa.jpg

 

Alto, penteado, sempre chiquemente vestido, usa umas gravatas vistosas e com um nó que também ele dá nas vistas.

 

Profissional de mérito, ganha a vida honestamente, chefia família cordata e vive confortavelmente. Faz-se transportar em carros que fazem lembrar os nós das suas gravatas.

 

Sim, já deu para perceber que tem o defeito da vaidade. Mas não só: gosta de ensinar os outros a viver mesmo que os putativos alunos não lho peçam nem sequer se ponham a jeito de lhe escutarem as lições.

 

Até que um baixote insignificante mas sem paciência para lhe aturar os ensinamentos, o interpelou com bonomia: - Diga-me cá, amigo, como é o mundo visto por cima dessa gravata?

 

O vaidoso não achou graça e a conversa morreu ali. Resta saber se a vaidade foi ou não substituída por alguma ponta de humildade.

 

 

Março de 2015

 

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Henrique Salles da Fonseca

 

 

 

«JE NE M’APPELLE PAS CHARLIE»

Wahhabismo.jpg 

 

Hoje serei dogmático.

 

Afirmo que a religião não se discute e, mais concretamente, afirmo que a fé, fundamento de qualquer religião, é matéria do foro íntimo de cada um e, portanto, não tem que ser discutida. E quanto à publicidade que cada um dela faça, é opção individual que cada um assume sem esquecer que a sua liberdade termina onde começa a do parceiro.

 

Eis o dogma que a liberdade de expressão nem sempre consegue digerir; eis os limites que muitos querem saltar como se fossem os únicos detentores da verdade universal e absoluta.

 

E que fazer ao proselitismo? Há que o domar, tout court.

 

Não quero a verdade na lâmina duma espada nem na boca de um canhão, quero que todos se contenham e se comportem com urbanidade. E terei a legislação em vigor para que os incontidos e os mal-comportados sejam acusados, admoestados, punidos e confinados.

 

A liberdade de expressão não pode ser confundida com abuso de expressão.

 

Charlie abusou e por isso «je ne m’appelle pas Charlie».

 

Janeiro de 2015

 

De Denang para Hué.JPG

Henrique Salles da Fonseca

A VIRTUDE DA TOLERÂNCIA DESAFIA A VIRTUDE DA CORAGEM

 

Níveis da Justiça e da Ética no Desenvolvimento das Pessoas e das Culturas

 

O medo, o anseio por segurança, a leviandade mental são característicos de uma sociedade em redemoinho que destrói a personalidade e impede a reflexão individual do cidadão para o engavetar em padrões sociais medíocres.

A insegurança e o medo domam as energias criativas e impedem a compreensão da vida, conduzindo a uma situação de pânico que provoca uma reacção de ânsia de sucesso imediato material e espiritual. A insegurança e a arbitrariedade no julgamento de práticas políticas e religiosas fomentam um moralismo preconceituoso e precipitado longe de uma ética reflectida abrangente. Deixa-se de combater por ideais nobres para se pelejar com guerrilheiros que se encontram mais próximos ou que são mais oportunos.

A falta de discernimento conduz a opiniões precipitadas e intolerantes, pela positiva ou pela negativa. Daí a importância de distinguir entre ética e moral e de constatar a evolução da ética e dos costumes a nível de pessoas, instituições e civilizações para possibilitar um diálogo interactivo e produtivo entre pessoas e culturas. As culturas só têm a oportunidade de se aproximarem ou de se guerrearem. Se a sociedade continuar com a mesma política dos últimos 60 anos a guerrilha proliferará de maneira avassaladora.

Ética é a orientação consciente por regras ou normas; implica uma conduta de vida criteriosa e ter a capacidade de decidir com discernimento entre acções boas e más.

Moral diz respeito ao cumprimento das normas por que se orienta a maioria e que correspondem a determinadas ideias/imagens na vida interpessoal. As normas adoptadas podem ser aplicadas consciente ou inconscientemente.

Podemos considerar quatro etapas do desenvolvimento da ética e das sociedades que a praticam:

Na primeira etapa é permitido castigar uma acção sofrida com uma acção pior. Exemplo: alguém rouba algo e como castigo é-lhe cortada a mão (cf. lei da Sharia no Islão); o homem é o lobo do homem (homo homini lupus!). Na segunda etapa da evolução ética passa a ser aplicado o princípio de talião que corresponde a responder a uma acção com outra acção correspondente: “olho por olho e dente por dente” (vingança igual). A terceira etapa que se encontra já no Antigo Testamento, no Hinduísmo, Confucionismo e na Filosofia grega, orienta-se pela “regra de ouro” que determina: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” ou “Faz aos outros o que queres que te façam a ti”. A quarta etapa da ética é a ética das Bem-aventuranças, a ética do amor ao inimigo e do vingar o mal com o bem; é declarada no Sermão da Montanha mas muito difícil de praticar e em certos conflitos levará até à eliminação do bem, tal como aconteceu com a crucificação do maior Mestre aparecido na História. Pelas obras se mede a qualidade ética das acções, que se tornam mais ou menos virtuosas.

Virtude é a capacidade de comportamento determinado por um valor. Pressupõe uma decisão baseada numa atitude e numa mundivisão (experiência de vida, idealismo). A virtude tem como actor contra ela (o vício) a agressão (o outro lado da calma) dado a agressão parecer o meio natural de auto afirmação (movimento egoísta contra altruísta) na intenção de formar e afirmar identidade.

O filósofo Aristóteles distinguia entre duas espécies de virtudes: As virtudes racionais (dianoéticas) inteligência, sabedoria, o pensamento científico, etc. e as virtude éticas ou da vontade. Para se determinar a virtude, Aristóteles elaborou o padrão do Meio-termo, o meio justo (Mosóteles), vulgarmente dito na expressão, “a virtude está no meio”. Por exemplo, coragem é o meio entre covardia e imprudência (Temos o momento da falta, o momento da virtude e o momento do exagero, exemplo: falta: Sofrer de injustiça – virtude: justiça – excesso: praticar a injustiça).

A virtude depende de um valor mais alto. Na história da ética reconhece-se como valor mais elevado, a felicidade, Deus, o paraíso (nirvana), espiritualidade… A virtude pressupõe educação, hábito e relação interior através da compreensão, da alegria e do sofrimento.

Max Klopfer, na sequência de Aristóteles, nomeia, para a determinação de cada virtude, as seguintes características gerais: a) o meio entre dois extremos (aspecto formal), b) fundamento num bem maior (aspecto material); e para uma determinada virtude as características especiais dela: a) baseada numa determinada situação e b) relacionada a uma determinada pessoa (subjectividade).

As virtudes encontram-se todas numa relação de reciprocidade. Platão fala de quatro virtudes cardeais: sabedoria, coragem, prudência e justiça. Aristóteles fala de 14 virtudes: Sabedoria, coragem, prudência, justiça, serenidade, serenidade nobre, generosidade, magnanimidade, elevação, honra, amizade, dignidade, indignação justa, sinceridade, destreza social.

O cristianismo acrescentou-lhes, fé, esperança e caridade. A Burguesia do século XIX acrescentou-lhes as virtudes secundárias: ordem, aplicação, limpeza, pontualidade, etc. Hoje, a sociedade europeia parece esgotar-se na virtude da abertura e da tolerância esquecendo que estas são virtudes secundárias de outras virtudes oprimidas por uma sociedade demasiado preocupada com o pragmatismo político.

O homem no decorrer do tempo histórico foi deixando as marcas do seu desenvolvimento ou reacção às experiências sociológicas e antropológicas prévias.

Ética da lei

Na tradição judaico-cristã vale a orientação pelos dez mandamentos, em especial o amor ao próximo e a Deus (Mat. 22,37-40). Não se trata aqui de preceitos exteriores mas de configurações internas fluidas, não empedernidas na letra mas a serem sempre actualizadas pela atitude sempre nova e viva. A referência cristã mais que de um livro ou norma é a pessoa do JC. A ideia base é a igualdade de todas as pessoas baseada na semelhança de toda a humanidade com Deus. Friedrich Nietzsche lamenta a herança cristã dizendo: “Na igualdade das almas perante Deus é dado o padrão de todas as teorias dos mesmos direitos para todos”.

A ética muçulmana, essa sim, é uma verdadeira ética da lei ou do livro que dificulta qualquer teologia porque Deus se formaliza no Corão não dando lugar à teologia, quase se esgotando na jurisprudência.

Ética do dever – orientação pelo senso comum

Kant criou a ética do dever como um tipo especial da ética que se fundamenta na racionalidade humana. Para o filósofo o dever é claro e incondicional; a acção não depende de condições pelo que se torna num imperativo categórico desde que o modo de agir possa ser generalizado e a dignidade e liberdade da pessoa respeitada.

Os estóicos já tinham ligado a moral ao dever, fundamentando-a na ideia do direito natural, baseado na natureza e que tinha como objectivo o domínio dos afectos e do prazer. Seguir o prazer pressuporia desconhecer a essência do próprio ser; para o estóico, é sábio e livre quem ultrapassa a felicidade e a infelicidade; para ele tudo é indiferente. No outro pólo desta filosofia encontrava-se o epicurismo.

Ética do útil (Utilitarismo)

Epicúrio (um 341 a.C.) centrava a ética no proveito individual dirigido para a felicidade e o prazer. Pretende fomentar necessidades que maximizem o prazer e o mundanismo radical. Enquanto para Epicúrio o objectivo era a felicidade individual, para os anglo-saxões era a felicidade do grupo.

Nos países anglo-saxões (Bentham, 1748-1832) o critério de avaliação da acção é o princípio da utilidade para todos os participantes. Bom é o que é útil para todos; a diversidade das necessidades individuais não conta grande coisa.

Segundo O. Höffe a ética utilitária inclui 4 princípios: o princípio das consequências (não interessa a atitude mas os resultados para decidir da acção); o princípio da utilidade (a avaliação das consequências orienta-se pelo bem abstracto, trata-se de consequências úteis); o princípio do prazer (o fim último é a felicidade, bom é o que dá prazer e traz alegria); princípio social (não conta a felicidade individual mas a de todos).

O utilitarismo favorece o direito das maiorias. Hoje, o fim não pode justificar os meios, estes têm de ser aferidos pelos direitos fundamentais do Homem.

Ética da responsabilidade

O agir responsável pensa nas consequências que a acção actual tem para as próximas gerações. O ser humano tem de julgar ética e moralmente as consequências da sua maneira de agir. Não se pode fazer tudo o que se pode, embora a técnica o possa permitir, a vontade tem limites se quer assumir responsabilidade e garantir sustentabilidade. A ética da responsabilidade presume uma educação para a liberdade; uma educação que não instrumentalize o medo como meio de tornar o Homem maleável e funcional no sentido das instituições actuais.

Continua em “Ética da Responsabilidade pressupõe a Educação para a Liberdade”

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 António da Cunha Duarte Justo

AINDA AS PEDRAS E AS ORQUÍDEAS

 

 

Disse há dias da comunicação social o que Maomé não disse do chouriço mas, sem me negar no diagnóstico, creio conveniente para a serenidade dos espíritos de quem me leu, transcrever um pequeno texto de Gilles Lipovetsky do seu livro «O CREPÚSCULO DO DEVER», ed. D. QUIXOTE, 4ª edição, Maio de 2010, pág. 265 e seg.

 

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Em escassos quarenta anos, a comunicação social adquiriu, em particular através da hegemonia cultural da televisão, um papel e um poder excepcionais. Assim se impõem como poder autónomo capaz de modificar notoriamente tanto a vida política como a económica, cultural e a moral.

 

Esta omnipresença mediática, traduzida num poder de influência sem precedentes está na origem do regresso em força da preocupação ética: quando o poder aumenta, a interrogação sobre os limites justos do poder torna-se inevitável; quando os órgãos de comunicação se transformam em «quarto poder», a questão central já não é a dos direitos da informação, mas a dos deveres que resultam do papel crescente da «mediacracia».

 

Acontece com a ética da informação o mesmo que com a bioética ou a ética ecológica: a consideração das consequências deploráveis ou catastróficas para os homens e as instituições democráticas serve sempre de alavanca para a reactivação do princípio da responsabilidade.

 

Na sociedade pós-moralista, a ética não emerge socialmente como ideal incondicional, mas como resposta das sociedades liberais aos receios suscitados pela excrescência dos novos poderes, quer eles sejam tecnocientíficos ou mediáticos.

 

A vontade de uma ética da informação existe à imagem das sociedades pós-modernas viradas prioritariamente para as preocupações do presente e afastadas dos grandes desígnios colectivos e históricos.

 

A exigência social de uma informação responsável acompanha a falência de todas as «religiões seculares»; quanto menor é a fé futurista, mais se intensifica a importância da fidelidade aos acontecimentos do presente; quanto menos for a ideologia messiânica a dar uma visão de conjunto do mundo, maior será a preocupação de recolha, selecção e apresentação de factos pontuais; quanto menos se detém as chaves da história, mais se impõe o valor mínimo de honestidade na apresentação quotidiana da informação.

 

Quando os grandes confrontos sobre o sentido da história estão caducos, os debates em torno da responsabilidade da informação e da cidadania mediática tornam-se preponderantes.

 

O ressurgimento da intenção ética nos órgãos da comunicação constitui a resposta.

 

***

 

Como serão as orquídeas que vão brotar das pedras da actual «intifada»?

 

Se vier a ser como diz Lipovestky, então dá para acreditar que será possível das pedras nascerem orquídeas. Mas… ou somos nós a fazer por isso ou nem a Senhora dos Aflitos nos valerá.

 

Agosto de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

A IMPORTÂNCIA DE SER POLIDO

 

 

Estudando a “ficção jurídica” denominada Ética nas últimas décadas, pude constatar que uma das carências do convívio contemporâneo é a polidez. A indigência vernacular dos que não leem pode suscitar a indagação: “O que é polidez?”. Não custa, então, fornecer sinônimos: amabilidade, civilidade, cortesia, delicadeza, diplomacia, educação de berço, gentileza, lisura, urbanidade.

 

Um ser “polido” é a criatura afável, amável, atenciosa, ética, áurea, bem-criada, bem-educada, cerimoniosa, correcta, cortês, distinta, galante, luzidia, urbana.

 

Dá para entender por que falta polidez na convivência? O que mais se vê é a grosseria, a indelicadeza, a falta de modos. Mesmo pessoas escolarizadas – nada a ver com polidez o facto de ostentar diplomas – não cumprimentam, não se levantam diante de mulher ou de pessoa mais velha. Ignoram a presença do próximo.

 

Daí para a rispidez, para a irritação, para a impaciência em grau crescente, até à violência, é um caminho inevitável. Reflectir sobre isto é fundamental para um Brasil cada vez mais pródigo em ostentar níveis preocupantes de violência. Aquela escancarada, a resultar em número absurdo de mortes – somos o 5º país em perdas vitais resultantes da violência – e aquela disfarçada na insensibilidade, na frialdade do trato, na indiferença que não deixa de ser uma espécie de crueldade.

 

O mundo inteiro apercebeu-se de que algo há-de ser feito para reverter a tendência egoística. Foi assim que aplaudiu Tony Blair que, em 2003, declarou guerra à incivilidade. Após a sua terceira vitória nas eleições legislativas, insistiu na urgência de restabelecer a “cultura do respeito”.

 

Para nós, militantes da arena jurídica, o respeito não é senão reflexo do princípio norteador da dignidade humana. Ver o outro – qualquer outro – como finalidade intrínseca, não como meio, é imperativo categórico kantiano. Mas não precisamos de sofisticação alguma, nem de singular erudição para sermos polidos. “Sem a polidez”, dizia o ensaísta Alphonse Karr, “não nos reuniríamos senão para combater. É preciso, portanto, ou viver só, ou ser polido”.

 

É o que pais e mães – ou os que exercerem o seu papel – têm obrigação de lembrar a seus filhos.

 

 Renato Nalini

Juiz

«DAS PEDRAS NÃO NASCEM ORQUÍDEAS»

 

 

Referia-se a Autora desta frase, Manuela Gonzaga, no seu livro «Moçambique – Para a mãe se lembrar como foi», à sordidez da vida em ambiente de guerra mas logo que a li me lembrei de que dos telejornais também nada de positivo pode resultar tanto para quem directamente os vê como para a sociedade que alberga tão desgraçados telespectadores.

 

Dá até para nos perguntarmos como é possível que haja quem ganhe a vida a divulgar tudo quanto de mais sórdido se passa pelo mundo numa campanha que parece visar a conquista duma competição de parangonas sobre a desgraça que «eles», os malvados (nem sempre identificados), lançam sobre uma mole de desgraçadinhos a quem a justiça é torpemente sonegada.

 

E se a escolha da informação a emitir segue o critério da exploração do escândalo, da desgraça dos pequenos e da injustiça perpetrada pelos grandes, isso nada mais pretende do que avivar a morbidez dos espíritos desatendidos pela cultura, dar seguimento aos demagogos que anos a fio propagandearam que tudo são direitos e que só «eles», os de cima, é que têm obrigações[1]. Quem são esses «de cima»? Não interessa! São «eles», numa geometria variável ao gosto de cada um dos desgraçadinhos a quem a informação se destina. E quantos mais estes forem, melhor. A publicidade paga.

 

Nivelar por baixo a qualidade da mensagem transmitida para nivelar por cima a receita recebida.

 

Ética? Connais pas!

 

O «fazedor» de noticiários parece não ter um critério selectivo de qualidade da informação transmitida, de conveniência educativa, de oportunidade global; pelo contrário, parece que para ele há que informar sistemática e exaustivamente temendo que alguém o apelide de censor, tem a certeza de que não é a si que cabe qualquer função educativa e quanto à oportunidade isso é matéria que a outros deve preocupar pois a si próprio cumpre fazer a agenda da oportunidade e os outros, os «eles», que se adaptem.

 

Bem comum? Connais pas!

 

Tudo isto porque a moral deixou de ser imperativa, passou a ser doce e apenas na medida em que seja tolerada.

 

Contudo, a ética ainda hoje fixa os limites legítimos da acção humana restando apenas definir essa legitimidade. Lá iremos, na esperança de fazermos nascer orquídeas no meio das pedras que Fernando Pessoa foi encontrando e com que construiu um castelo.

 

Agosto de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca



[1] - «OS RICOS QUE PAGUEM A CRISE»          

POR QUE É QUE AS PESSOAS COMEÇAM A ROUBAR?

 

 

Por que é que as pessoas roubam? Ou melhor, por que razão começam algumas pessoas a roubar como forma de vida? Por que razão a vidinha do crime, mais ou menos organizado, passa a ser uma opção?

 

A explicação dada pelo ar do tempo é sempre económica. Diz-se que as pessoas roubam porque têm fome, porque sentem necessidades, porque são pobres, porque não têm oportunidades. Esta explicação sempre me irritou. Nasci pobre, cresci em bairros populares, estou certo de que serei sempre um pé-rapado, conheci vários trafulhas mais ou menos profissionais e mais ou menos desdentados, mas nunca conheci ninguém a roubar por necessidade.

 

Como é óbvio, as pessoas que desenvolvem a desculpa economicista do larápio nunca foram pobres e nunca frequentaram bairros do povo, aliás, estou desconfiado que começam a sentir falta de ar logo ali na Calçada de Carriche. É por isso que não percebem que este raciocínio é um insulto a quem nasceu pobre. Porquê? Porque estabelece uma relação de causa-efeito entre um conceito económico (pobre) e um conceito moral (roubar), ou seja, assume que pobre é sempre um ladrão em potência.

 

Nunca encontrei, repito, esta associação imediata entre pobreza e ladroagem. Além disso, alguém me explica por que razão muitas betinhas são apanhadas a roubar lojas de roupa e quejandos? Alguém me explica o crime de colarinho branco? Alguém me explica a alta ladroagem também conhecida por corrupção ou isso-é-um-banco-demasiado-grande-para-cair?

 

A resposta, portanto, só pode ser psicológica e imaterial, as causas são morais e não materiais, estão na cabeça e não na carteira.

 

Neste sentido, vale a pena olhar para três portas diferentes.

 

Em primeiro lugar, a vida de gatuno é um desafio à inteligência. Quem é muito inteligente sente sempre um fascínio pela vidinha do crime, porque a recompensa é mesmo essa: mostrar a superioridade de uma cabeça, assumir o estatuto do tipo mais esperto do pedaço, «pá, eu roubo porque posso».

 

Em segundo lugar, roubar dá poder, gera uma tribo à volta do líder. Na Póvoa do antigamente, perdi a conta aos líderes históricos dos gangues, pequenos reis que andavam à procura não de dinheiro, mas de respect. Não queriam trocos, queriam território.

 

O grande motivo, porém, não está nem na inteligência nem no poder. Está, isso sim, na impunidade moral, ou melhor, na impunidade amoral. Tive o distinto prazer de conversar e partilhar pires de tremoços com uma série de bandidolas e todos partilhavam um ponto: a glorificação da impunidade, o prazer que sentiam por estarem acima do bem e do mal, sentiam-se pequenos deuses quando percebiam que os seus actos imorais eram invisíveis aos olhos da lei. A impunidade é o lado negro da força mesmo para um trafulha sem sabre de luz.

 

O chefão da filosofia ocidental, Platão, percebeu este ponto. Logo no início, A República confronta-nos com a metáfora do anel de Gyges, um anel que torna as pessoas invisíveis (sim, Tolkien furtou Platão). Se somos invisíveis, se ninguém vê os nossos actos, o caminho para a impunidade está aberto, porque fazer o bem passa a ser única e exclusivamente uma escolha moral e não uma imposição legal. Rico ou pobre, ninguém pode dizer que está livre desta tentação, ninguém pode dizer desta água não roubarei.

 

18 de Fevereiro de 2014

 

 Henrique Raposo

GERINDO A IRA DIVINA – 4

 

 

 

NO QUE FICÁRAMOS – construído o quadro jurídico internacional a partir do conceito de dignidade humana, por exemplo na Declaração Universal dos Direitos do Homem, no âmbito da macroética, como passar para a ética individual, a microética?

 

* * *

 

Dizemos nós que «em Roma sê romano» querendo com isto afirmar que quem se torna membro duma família, de um povo ou de um Estado, se deve integrar plenamente na sociedade envolvente sob pena de gerar anticorpos e se rodear de incómodos. E nessa integração não adquire apenas direitos mas deveres também, sendo que um dos principais é a manutenção de uma ordem moral como fundamento da ordem social e jurídica. Neste processo, a boa escolha inclui um juízo certo e uma preferência justa equivalendo à máxima «não faças aos outros o que não queres que te façam».

 

Assim chegamos à necessidade de uma ética da ordem justa, ou seja, válida para todos, não apenas para um grupo, classe ou raça e assente no bem.

 

E o que é o bem? O bem está conforme à síntese do ideal social definido pela expressão «o que é que eu quero, posso e devo fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que pode nem sequer ser nosso conhecido?». Uma atitude que parte do voluntarismo traduzido pelo «quero», que reconhece – com mais ou menos humildade – as limitações pessoais através do «posso» e que se auto impõe o «dever»: altruísmo, humildade, sentido do dever. Pelo contrário, o mal representado pelo egoísmo, pela arrogância, pela irresponsabilidade.

 

E assim regressamos aos primórdios da história da humanidade nos constantes esforços de distinção entre o bem e o mal.

 

E foi necessária tanta conversa para, afinal, voltarmos ao início de tudo? E agora?

 

Agora vem lá o futuro, esse que nos cumpre construir.

 

Já lá vamos...

 

Janeiro de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

 

ÉTICA, Fritz Heinemann, in A FILOSOFIA NO SÉCULO XX, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 7ª edição, 2010, pág. 431 e seg.

GERINDO A IRA DIVINA – 3

 

 

FINAL DO TEXTO ANTERIOR:

 

Como designar então uma cultura que apenas recorre ao imperativo em circunstâncias extremas, que dá prioridade ao imediato desprezando ideais, que tem o hedonismo como um bem, que deixa a moral e a ética ao sabor do improviso mediático e, eventualmente, de interesses escondidos? Resposta múltipla: laxista, imediatista, hedonista, amoral, aética e talvez mesmo corrupta.

Mas há mais...

 

* * *

 

Cortados os laços que ligavam o homem comum à fé e seus mandamentos, tomado o livre arbítrio como direito indiscutível, finado o dever, resta a consciência moral como última «ferramenta» para trazer ao bom comportamento social os agnósticos, ateus e outros que também não temam a ira divina.

 

 

Mas não se pode pressupor que qualquer pessoa saiba no que consiste a consciência moral. Expressão ambígua, tem sido definida de múltiplas maneiras ao longo dos séculos tais como «o juízo da razão acerca do justo e do injusto» (S. Tomás de Aquino), «a expressão da razão moral» (Kant), «a voz da natureza que deseja ou valoriza» (Theodor Lipps), «o espírito da raça» (Leslie Stephen) e até como «a sensação dolorosa consequente à violação do dever» (John Stuart Mill); e se Nietzsche a comparou com um «rabo-de-cavalo conceptual que os nossos avós usavam na parte posterior da cabeça», os psicanalistas consideraram-na como «potencialmente doentia» e tentaram interpretá-la como a «voz do pai em nós» ou como «um espião que a sociedade implantou no nosso cérebro».

 

E sendo ela o que for dentre estas ou outras definições, só piorando o cenário, os Partidos políticos, os Sindicatos e os fazedores de opinião pagos a peso de ouro pelos lobbies da comunicação social, conjugam esforços para lhe coarctarem a liberdade.

 

Pobre última «ferramenta» que começa por não saber quem é nem de que espaço de manobra dispõe.

 

Como sair deste atoleiro?

 

Começando por saudar os que têm uma fé que os oriente (com ou sem temor da ira divina), centremo-nos nos outros, os intimoratos.

 

E se os grandes pensadores divergem na definição dessa última bóia de salvação social, a consciência moral, deixemo-nos de confabulações transcendentais e assentemos em algo mais prosaico: a consciência moral é a resposta da nossa natureza mais íntima a uma situação concreta à qual se encontra ligada uma decisão moral que tem de se procurar ou já foi encontrada.

 

Mas a consciência moral só pode gerar-se desde que existam regras e leis éticas. E aqui entramos num torvelinho – «o que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?» – que não podemos deixar que se transforme numa indeterminação. Transformemo-lo então numa relação biunívoca de tal modo que os valores morais se relacionem directamente com factos éticos e estes com valores morais.

 

Não existem modelos perfeitos mas a civilização ocidental assenta seguramente nas orientações do Decálogo e na valorização suprema da dignidade humana cujo conceito básico é o de que a pessoa é um fim em si mesma. E é mesmo neste conceito que se fundamenta o artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos do Homem – «Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos; dotados de razão e consciência devem viver uns com os outros em espírito de fraternidade».

 

E se este é o fundamento da actividade legislativa da comunidade internacional no âmbito duma macroética, então – inspirados em Hamlet – tenhamos esperança de que afinal nem «tudo vá mal no Reino da Dinamarca».

 

E a nível individual?

 

Já lá vamos...

 

Janeiro de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

ÉTICA, Fritz Heinemann, in A FILOSOFIA NO SÉCULO XX, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 7ª edição, 2010, pág. 431 e seg.

 

OS VALORES NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA, Maria Rosa Afonso e Maria de Lourdes Magalhães Oliveira, in BROTÉRIA, Dezembro de 2013, pág. 479 e seg.

GERINDO A IRA DIVINA – 2

 

 

 

FINAL DO TEXTO ANTERIOR:

Num cenário global pós modernista e hedonista, o abandono dos parâmetros sociais inculcados pelas religiões acabou com a cultura do dever, entronizou o livre arbítrio, facilitou a amoralidade e desprezou a ética.

Mas terá sido mesmo assim?

 

* * *

 

Sim, todos somos testemunhas de que a persistente secularização desparametrizou a sociedade e nos afastou muito de conceitos tão importantes como o bem comum.

 

Teria então o bem comum uma génese divina? Terá o dilúvio submergido efectivamente o homem depois da morte de Luís XV de França? Teria Karl Popper razão quando formalizou o desespero com a conclusão (por ele próprio desmentida) de que «então resta-nos ir para o Inferno»?

 

A partir das Luzes, nasceu a ambição de lançar uma moral independente dos dogmas religiosos, que não recorresse a qualquer revelação e em que a ameaça da ira divina não pendesse sobre os incumpridores. A moral, questão dos princípios, deveria laicizar-se; a ética, questão dos factos, deveria profissionalizar-se. Grosso modo, este processo desenvolveu-se entre 1700 e 1950.

 

 Immanuel Kant

 

Os primeiros liberais idealizaram a obrigação moral definindo com excepcional gravidade os deveres do homem, impondo normas austeras na vida privada e mantendo o conceito de dever absoluto perante uma dívida infinita para com a sociedade. Recordemos o Imperativo Categórico de Kant (1724 – 1804): «Age como se a máxima de tua acção devesse tornar-se uma lei universal». A pureza do dever a contrariar a licenciosidade dos direitos individuais do agnóstico e do ateu, a consolidação da Nação pela via da unidade moral da sociedade laica elevando o ideal ético, enaltecendo o sacrifício da pessoa no altar da família, da pátria ou da História. Tudo, como uma autêntica religião do dever laico.

 

Mas a partir de meados do século XX, entrou em funcionamento um novo processo de secularização: abandono da afirmação de que a ética e as religiões deviam gravitar em órbitas independentes e, mais drasticamente, negação das religiões e dissolução do dever. Eis a idade do pós-dever.

 

Pela primeira vez se chega a uma sociedade que ignora os mandamentos superiores, desvaloriza a abnegação, estimula os desejos imediatos, define o ego como o centro e pugna pela felicidade intimista e materialista.

 

As democracias vacilam num cenário além-dever, pós moralista e procuram gerir a crise com base numa ética minimalista, sem obrigação nem sanção; a liberdade correndo o risco de se transformar em libertinagem; a democracia em risco de se ver substituída por alguma forma de autocracia.

 

Como designar então uma cultura que apenas recorre ao imperativo em circunstâncias extremas, que dá prioridade ao imediato desprezando ideais, que tem o hedonismo como um bem, que deixa a moral e a ética ao sabor do improviso mediático e, eventualmente, de interesses escondidos? Resposta múltipla: laxista, imediatista, hedonista, amoral, aética e talvez mesmo corrupta.

 

Mas há mais...

 

Janeiro de 2014

 

 Henrique, Budapeste.jpg Henrique Salles da Fonseca

 

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

O CREPÚSCULO DO DEVER, Gilles Lipovetsky, ed. D. QUIXOTE, 4ª edição, Maio de 2010

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