Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 81

ENQUANTO SALAZAR DORMIA.jpg

 

  

Título – ENQUANTO SALAZAR DORMIA…

Autor – Domingos Amaral

Editora – Casa das Letras

Edição – 23ª, Setembro de 2017

 

«Memórias de um espião em Lisboa» é o sub-título.

 

Como de costume, recorro à contra-capa e às badanas para descrever minimamente o enredo sem incorrer em inconfidências que estraguem a leitura dos leitores futuros.

 

Assim, diz o narrador que a vida é aquilo de que nos recordamos, ou seja, as grandes histórias que vivemos. Nada, de repente, existia a não ser Lisboa, cinquenta anos atrás. A minha Lisboa, onde amei tanto e tantas vezes. A minha Lisboa, das pensões e dos espiões, dos barcos ingleses e dos submarinos alemães; a Lisboa das ligas da Mary em cima de um lençol branco; a Lisboa dos coscktails no Aviz enquanto eu perseguia Alice; a Lisboa do penteado «à refugiada» da minha noiva, a Carminho; a Lisboa dessa menina frágil e alemã, Anika, por quem arrisquei o pescoço; a Lisboa de Michael…

 

Lisboa, 1941, um oásis de tranquilidade numa Europa fustigada pelos horrores da guerra…

 

Narrativa que põe o leitor «dentro» do ambiente que se vivia naquela época na grande Lisboa num estilo leve de muitos diálogos entre personagens reais e fictícias, o que só é possível quando tudo se configura numa grande compatibilidade entre o real e o imaginário. Curiosa alternância entre o passado e o presente em que o personagem principal assume a função de narrador e a de actor.

 

Interessante, a cena em que a antecessora da PIDE, a PVDE, se vê na necessidade de prender dois figurantes (fictícios) para os livrar das garras da Gestapo. Si non é vero, é ben trovato.

 

Quanto ao que me tocou, refiro que parte substancial da trama romanesca é passada num cenário que corresponde às ruas que me são vizinhas, as das Embaixadas inglesa e alemã nesse período da História, ao da residência oficial do então Presidente do Conselho de Ministros, ao hotel em que o narrador se instala 50 anos depois de a paz ter regressado. Conheço-lhes o aroma das «damas da noite», tudo me pareceu acontecer em frente ao meu bigode. Mais: conheci pessoalmente um dos personagens verídicos que o Autor tanto cita e que tinha um dos primeiros Jaguar E que houve em Portugal.

 

O livro poderá não vir a dar o Prémio Nobel ao Autor mas eu li-o com interesse.

 

Outubro de 2018

007.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

(Jakarta, templo chinês, Setembro de 2018)

A CAMINHO DO CÉU… (6)

 

THE POWER “OR” THE GLORY[1]

MAGNATA.png

 

Hoje, escolho “O crepúsculo do dever”[2] como o livro de Gilles Lipovetsky que me parece mais apropriado para o tema que me move neste escrito, o da morte prematura da moral e da ética.

 

(...) A sociedade post-moderna ou post-moralista designa a época em que o dever se adocicou e tornou anémico, em que a ideia do sacrifício pessoal se ilegitimou socialmente, em que a moral já não exige que as pessoas se devotem a uma causa superior, em que os direitos subjectivos dominam os mandamentos. Na sociedade post-dever, o mal transformou-se em espectáculo, o ideal pouco engrandecido. Se perdura a crítica do vício, o heroísmo do bem enfraquece. Os valores que reconhecemos são mais tidos como negativos do que como positivos. Por trás de uma falsa revitalização ética, triunfa uma moral indolor, último estádio da cultura individualista democrática. (...) [pág. 57 op. cit.]

 

Na sequência do que chegámos à filosofia do poder, aquela em que o grande objectivo é o poder e que resulta claramente de um espírito de permanente competição. Como cada vitória tenderá a elevar o nível dessa mesma competição, o final lógico de tal filosofia é o poder ilimitado e absoluto. Aqueles que buscam o poder podem não aceitar as regras éticas definidas pelos costumes, a tradição e, pelo contrário, adoptam outras normas e regem-se por outros critérios que os ajudam a obter o triunfo. Tentam mesmo convencer as outras pessoas de que são éticos no sentido do objectivo supremo por eles definido tentando conciliar o poder e o reconhecimento da moralidade.

 

Assim foi que se sentaram na cadeira do poder muitos daqueles para quem a ética dos costumes virtuosos, das leis naturais, da fé, do voluntarismo e da disciplina são palavra vã. Daí ao poder absoluto, à ausência de regras consensualmente construídas, ao Direito «pret à porter» e à dissolução do Estado de Direito, vulgo o fascismo, não dista muito ou não dista mesmo nada. Ignorados os princípios que definem o bem-comum, instala-se o “salve-se quem puder”, instala-se a razão da força em oposição à força da razão.

 

Globalizado e sacralizado o império da competição desenfreada, não mais resta qualquer esperança de sobrevivência aos que não sejam campeões. E a alternativa para os não campeões – em que o 2º classificado mais não é do que o 1º vencido – é unicamente a de serem servos. Servos mais ou menos mitigados, mais ou menos engravatados, numa gaiola mais ou menos doirada mas servos e apenas servos.

 

O poder mal alcançado é o oposto da glória e por isso me apetece voltar a Popper para, com ele, lastimar que, perante tanta desgraça, «só nos reste ir para o Inferno».

 

Mas não, pelo contrário, opto pelo título verdadeiro do romance de Graham Greene, «THE POWER AND THE GLORY».

Yoguakarta-templo hindu.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

(templo hindu, Yogyakarta)

 

[1] - Corruptela do título do livro de Graham Greene, “THE POWER AND THE GLORY”

[2] D. QUIXOTE, 4ª edição, Maio de 2010

A CAMINHO DO CÉU… (5)

 

ESTE MUNDO É UMA ALDEIA

OU

O TRIGO E O JOIO

 

trigo e joio.png

 

É quando menos esperamos que nos cruzamos com gente conhecida e assim também acontece com pensamentos nossos, actuais, em escritos alheios muito anteriores.

 

Foi o caso de andar eu a confabular sobre estas matérias da liderança e tanto da legitimidade como da transparência do Poder e ter começado a ler um livrinho de Karl Popper sobre questões epistemológicas[1] deparando logo no Prefácio com linhas que eu poderia subscrever.

 

Diz Popper ser naturalmente favorável à democracia, mas não do mesmo modo que a maioria dos seus defensores. Citando de Churchill a célebre frase «A democracia é a pior forma de governo com excepção de todas as outras», reconhece que não temos alternativa ao respeito pelas decisões livremente expressas da maioria mas acrescentando que um governo democrático é responsabilizável sendo que a responsabilidade perdura individual e colectivamente para além do exercício do período do respectivo mandato. Trata-se duma responsabilidade moral e ética, mais do que uma responsabilidade meramente cívica ou mesmo criminal. E essa é a grandeza da democracia – a responsabilidade moral e ética.

 

Não fora cruzar-me com estes pensamentos de Popper e lá estaria eu a dar razão ao poeta alemão Hölderlin[2] quando dizia que «somos originais porque não sabemos nada». Pior, lá estaria eu a fazer meu o que genuinamente era alheio.

 

Então, a responsabilidade e possível responsabilização moral e ética fazem a diferença para com os governos que se dizem «do povo» que, no final, provam ser apenas modos de servir os interesses de nomenklaturas frequentemente demagogas e falaciosas. Estas, acabam normalmente julgadas por critérios criminais; e se o não forem no plano judicial efectivo, são-no certamente pela História e perante a Humanidade.

 

Eis a grande diferença entre as elites que devem liderar pelo exemplo da elevação e as nomenklaturas que devem ser judicialmente responsabilizadas.

 

É a diferença entre o trigo e o joio.

 

Talvez não fosse mau darmos uma vista de olhos pelos escritos de Gilles Lipovetsky[3]. Já lá iremos…

 

SET18.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

 

[1]A Vida é Aprendizagem – epistemologia evolutiva e sociedade aberta”, Karl Popper – EDIÇÕES 70, ed. de Fevereiro de 2017, pág. 11 e seg.

[2] Friedrich Hölderlin (1770 - 1843)

[3] Gilles Lipovetsky (Millau, 24 De Setembro de 1944) é um filósofo francês, teórico da Hipermodernidade, autor dos livros A Era do Vazio, O luxo eterno, A terceira mulher, O império do efêmero, A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo, entre outros.

A CAMINHO DO CÉU… (3)

 

Anjo.jpg

 

O TER PELO SER

 

Então, todos querem tudo e já!

 

Assim é que, sob o culto do consumismo de bens, serviços e notícias, colhe perguntar se resta lugar para valores éticos e morais.

 

Mais concretamente, a questão está em saber qual é o lugar dos valores superiores num mundo de factos e como podem aqueles entrar neste mundo primário.

 

Poucos são os homens de Ciência que escrevem sobre valores porque a grande maioria considera que isso não passa de mero palavreado.

 

Contudo, os valores emergem juntamente com os problemas e frequentemente estes dizem respeito a factos.

 

Uma coisa, uma ideia, uma teoria ou uma mera abordagem podem ser admitidas como válidas para ajudar a resolver um problema mas só passam a pertencer ao mundo intelectual se forem submetidas à discussão, à crítica. Antes disso, pertencem muito provavelmente apenas à esfera do empirismo. Até porque tudo começa empiricamente e só depois é que evolui para outros patamares.

 

É que o mundo mais primitivo, desprovido de vida, não tinha problemas e, como tal, não tinha valores porque os problemas entram no mundo pela mão da vida e não apenas pela da consciência. Daqui resultam dois tipos de valores: os criados pela vida, pelos problemas inconscientes tais como os do reino vegetal; os criados pela mente humana com base em soluções anteriores na tentativa de resolver problemas. É este último tipo de questões – formadas pelo conjunto de problemas historicamente originados em factos, respectivas soluções, críticas para o despiste de erros, teorias globalizantes e valores consequentes – que dá forma ao mundo da intelectualidade.

 

O mundo dos valores transcende, pois, o mundo sem valores e meramente factual, o mundo dos factos brutos.

 

O drama está quando se disfarça de intelectualidade a mera discussão de factos e, mais gravemente, de pessoas.

 

Eis a imensidão do que fica por fazer entre o primarismo factual e a elevação dos valores.

 

Resta a esperança de que uma elite consiga preencher esse imenso vazio.

 

Então, a primeira questão é: - O que são elites?

 

Sendo que a segunda questão é: - A elite é-o porque tem ou porque pensa e, portanto, é?

 

O materialismo considera que a elite tem.

 

A terceira questão é: - Alguém duvida sobre o que nós pensamos?

 

008.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

A CAMINHO DO CÉU… (2)

 

TUDO, JÁ!

 

Para além da espiritualidade, todas as religiões tratam de questões sociais de tal modo que cada uma delas construiu o seu próprio Código de Conduta e, daí, a sua civilização: civilização hindu, civilização budista, civilização judaica, civilização cristã, civilização muçulmana, …

 

Assim foi que tempos houve em que eram os teólogos a ditar essas normas sociais e quando os argumentos lógicos não bastavam, avançava-se com a ameaça da ira divina; e se mesmo esta não bastasse, ditava-se o dogma. Exemplos? Tantos que é impossível enumerá-los: não comer carne de porco; não beber álcool; não comer carne à sexta-feira; não cobiçar a mulher alheia; etc…

 

E foi da base dogmática e sequente exegese que derivou o quadro jurídico que a partir de certo estádio se tornou progressivamente mais «civil» e menos espiritual. Relativamente a nós, ao Ocidente, a Revolução Francesa foi decisiva para esse corte entre o Clero e o Povo.

 

Na sequência da tomada da Bastilha e com a chegada das forças populares ao Poder, o Regime laicizou-se e a ameaça da ira divina foi substituída pela «obra» bem mais terrena do médico Joseph-Ignace Guillotin.

 

Guillotin.png

 

Então, na ausência de uma justificação sobrenatural, qual passou a ser o rumo dos povos? E a resposta está no regresso à filosofia platónica em que o objectivo da vida é a obtenção do prazer - não há mais uma vida edénica para além da morte, há, na vida terrena, um direito inalienável de obtenção do prazer. Que tipo de prazer? O prazer de todos os tipos, desde o virtuoso ao vicioso. E como a fé numa vida para além da morte deixou de ser crível pelos actuais «senhores da guerra», há que obter de imediato o máximo de prazer.

 

E a filosofia de vida passou a ser, «Tudo, já!»

 

007.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

A CAMINHO DO CÉU… (1)

nuvens-ceu-azul.jpg

 

DA NATUREZA HUMANA

 

 

O crescimento não é um mero pormenor na ideologia do mercado livre. É toda a sua essência.

Jonathan Franzen, in «Liberdade», ed. D. Quixote, 4ª edição, Setembro de 2015, pág. 442

 

 

É da natureza humana ambicionar para o futuro algo melhor do que o presente já que ao presente lhe cumpre mostrar ser melhor que o passado.

 

E ao que não decorra deste modo se lhe chama contra-natura.

 

Dando-se a circunstância de a vocação da política ser precisamente a de desenhar o caminho entre a situação presente e a situação futura que se pretende melhorar, não há programa político que não refira o objectivo do crescimento como instrumento para se alcançar um determinado tipo de bem-comum. Até porque o decrescimento está associado à recessão, à perda de qualidade de vida.

 

Então, é na definição do bem-comum e no caminho para lá se chegar que diferem as diversas propostas partidárias, as quais, em democracia, são ciclicamente postas a referendo popular.

 

Ganha o melhor? Não propriamente; ganha o que melhor souber «vender o seu produto». Mais concretamente, ganhará aquele que fizer as promessas mais apetecidas pelos eleitores. E assim tem sido desde que a ditadura do número – a que chamamos democracia - passou a ser o melhor regime que se nos oferece. Contudo, as forças políticas que tradicionalmente (desde o final da II Guerra Mundial) têm dominado o cenário europeu, vêm ultimamente sofrendo sérias ameaças e até rudes golpes por parte de novas forças a que os «velhos» se apressam a apelidar de populistas. E esses «novos» não são apenas de direita (a Alternative für Deutschland, o francês Front National, o Freiheitliche Partei Österreichs, etc.) mas também de esquerda (o Bloco de Esquerda em Portugal, o Podemos em Espanha, o Sirysa grego, etc.). E nas bocas dos «velhos», todos estes novos passam por populistas… como se eles, os tradicionais, não tivessem sempre sido isso mesmo. A essência da democracia é o populismo e dizer o contrário é ser elitista, platónico.

 

E se já nos cenários tradicionais o que para uns era positivo e para outros podia ser negativo, actualmente, as diferenças radicalizaram-se. Ou seja, as variáveis dos diversos modelos económicos (e sociais) têm interpretações diferentes conforme o campo político a que pertençam os observadores e quanto mais actores buscarem o protagonismo, mais essas diferenças tenderão a acentuar-se.

 

Aos eleitores são apresentados leques mais profusos de alternativas e resta saber se o eleitorado distingue o trigo do joio, ou seja, o plausível do utópico.

 

Há quem considere a produção como o grande motor do desenvolvimento mas outros há que consideram que o grande motor é o consumo; há quem aposte na indústria a há quem aposte nos serviços; há quem queira erradicar o analfabetismo mas também há quem considere que a felicidade está na ignorância… Mas todos apregoam que querem o crescimento.

 

Crescer até onde? Tem o crescimento um tecto ou pode ir até ao Céu infinito? Se não tem, tudo bem, o modelo político pode continuar; se tem, o discurso político extingue-se. E depois?

 

Depois, teremos que mudar de políticos.

 

 

A bordo Dawn Princess-3.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

LIDO COM INTERESSE – 80

essa-dama-bate-bue.jpg

 Título – ESSA DAMA BATE BUÉ

Autora – Yara Monteiro

Editora – GUERRA E PAZ

Edição – 1ª, Setembro de 2018

 

Romance do mais realista que pude alguma vez imaginar. E logo eu que deixara de ler romances…

 

Quem quiser ter uma ideia bem aproximada daquilo em que Angola se transformou desde que assumiu a plena soberania, não pode deixar de ler este pequeno livro com apenas 197 páginas de texto distribuído por capítulos curtos.

 

Para não cometer inconfidências, extraio da contracapa que a personagem principal, Vitória, nasceu em Angola mas foi criada pelos avós na Malveira, em Portugal, para que se transformasse numa «boa esposa». Mas, não ultrapassando o trauma de ter sido abandonada pela mãe, uma guerrilheira, foge para Angola pouco antes do casamento à procura da mãe.

 

Chega a uma Luanda completamente caótica, de flagrantes contrastes sociais, aguarela em que tragédia e comédia roçam ombros. A Autora traça aqui um quadro tão realista que dá ao leitor a impressão de se encontrar envolvido pelo cenário absurdo que descreve a selva que é a actual capital angolana.

 

Mais do que isto, o drama por que vêm passando tantos angolanos na tentativa de recomposição duma sociedade destruída por décadas de guerra civil, a ditadura dos «todo poderosos» do regime político instaurado, o «salve-se quem puder» a que os simples se têm que entregar para garantirem a sobrevivência.

 

* * *

 

Da badana extraio que a Autora nasceu no Huambo em 1979 mas que com dois anos de idade veio para Portugal, que casou, que vive no Alentejo e se dedica à escrita a às artes plásticas.

 

* * *

 

Partes que chamaram a minha atenção:

 

Num último abraço de despedida, os braços trocaram de corpos, os rostos trocaram de olhos, que trocaram de alma. (pág. 16)

 

Conforme nos vamos aproximando do povoado, a mais visível marca da guerra é o silêncio imposto à vida diária. Até mesmo o capim tem a respiração suspensa. (pág. 17)

 

«Faz de conta que estás na tua casa» é uma formalidade da boa educação que intenta colocar a pessoa convidada à vontade. É bem-intencionada mas é falsa. Ou, pelo menos, assume que os hábitos na nossa casa são os mesmos do que dos de quem nos recebe. Por norma, não é o mesmo. Não fazer de conta que estamos na nossa casa é meio caminho andado para garantir uma boa convivência quando se é visita. (pág. 37)

 

(…) mãos que choram lágrimas caladas. (pág. 84)

 

[No aeroporto, ele] gosta de observar os viajantes. Imagina-lhes a vida que levam e a que tentam esconder. O mestre sabe que a aparência é enganadora. Confia mais na ausência da luz que revela a sombra. (pág. 135)

 

A Lua acomoda-se na parte do céu que mais lhe convém. (pág. 156)

 

[Em romagem, as mulheres vão] caminhando apoiando os pés na fé. (pág. 191)

 

* * *

 

E, concluída a leitura, a pergunta que me ocorre é: - Terão os povos angolanos evoluído algo no relacionamento entre si próprios desde os tempos em que por lá andou Paulo Dias de Novais?

 

Outubro de 2018

 SET18.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

MERDEKA – 10

 

Antes que me esqueça, uma nota muito positiva à qualidade do piso das estradas principais, secundárias e mesmo rurais (ou quase vicinais) por que andámos tanto em Java como em Bali. Nas muitas centenas de quilómetros que percorremos, não sentimos um único solavanco.

 

Os meus leitores desculparão que eu passe por cima do passeio de elefante já que esse simpático trombudo não é típico de Bali; os antepassados da “Gigi” que montei vieram de Samatra onde, aí sim, são indígenas. Também não vou dar grande relevo à visita que fizemos ao vulcão Batur à vista de cuja cratera almoçámos sempre com um olho alerta para qualquer fumarola que aparecesse. Não apareceu. Os tremores de terra e tsunamis que aconteceram durante a nossa visita à Indonésia ocorreram no arquipélago das Celebes que dista de Bali tanto ou mais do que Berlim em relação a Lisboa.

 

A simpática «Gigi» em Bali.JPG

Mas não passo por cima de uma outra visita que efectuámos com alguma solenidade ao templo hindu da fonte sagrada «Tirta Empul» a cujas águas são atribuídos efeitos de rejuvenescimento eterno. E porquê solenidade? Porque andava por lá quem acredita nessas qualidades sobrenaturais e uma das minhas características é a de nunca bulir com a fé alheia.

 

Tirta Empul - 4.JPG

  

Houve aqui um companheiro de viagem que teve a gentileza de chamar a minha atenção para a juventude que acorre ao santuário e, de facto, os únicos adiantados nas respectivas idades eramos nós próprios, os forasteiros.

 

Que fiquem eternamente jovens, é o que lhes desejo. Nós, os anosos, não acreditamos que os poderes daquelas águas consigam tirar-nos os anos por que já passámos e, portanto, cumprimos a exigência de envergar o sarong mas não nos banhámos.

 

(continua)

Tirta Empul - 1.JPG

Henrique Salles da Fonseca

MERDEKA – 8

 

 

A visita ao palácio do Sultão deu-me a sensação desagradável de estar em casa de alguém sem ter sido convidado. Porquê? Porque Sua Alteza vive lá e não veio à porta receber-nos. Mas como tinha mandado uma guia falante de espanhol esperar por nós ao portão, pude presumir um convite subentendido. E como pagámos bilhete de acesso ao palácio, fiz de conta que o bilhete era o convite. Mas a sensação desagradável de estar a furar o ambiente íntimo de Sua Alteza não se desvaneceu por completo.

 

A pompa real exige muitos servos a quem o Sultão paga modestos salários mas a quem oferece casa de habitação que entra no património do servo e pode ser transmitida aos respectivos herdeiros que não ficam obrigados à vassalagem que originou a posse do imóvel. Ou seja, nos vastos domínios urbanos que circundam o palácio e respectivos jardins, reside muita gente que já não tem qualquer relação funcional com o Sultão.

Presente português ao Sultão de Yogy.JPG

Mamarracho oferecido a um anterior Sultão pelo Estado Português em data não identificada e representando sabe Deus o quê pois parece um energúmeno qualquer a fazer mal a um cão.

 

Pergunta que saltou da boca de alguém do nosso grupo: - O Estado Indonésio paga as despesas do Sultão?

 

Resposta: - O Estado paga apenas as despesas directamente relacionadas com as funções oficiais do Sultão na sua qualidade de Governador; tudo o mais é suportado pelo próprio Sultão.

 

Nova pergunta: - Os bilhetes de acesso ao palácio são suficientes?

 

Nova resposta: - Não, o Sultão é empresário, tem diversas fontes de rendimento.

 

Lembrei-me de que a Rainha de Inglaterra também tem rendimentos privados e de que, no final da nossa Monarquia, a Casa Real Portuguesa estava com as finanças viradas do avesso.

 

Mas voltando a onde estávamos, o palácio do Sultão de Yogy no centro histórico de Yogyakarta, ficámos a saber que tudo são pretextos para festejos reais, plebeus, privados e públicos. Sim, os indonésios são muito divertidos e não perdem pitada no que respeita a folguedos.

 

O meu leitor compreenderá que eu tenha registado dois motivos de festejo: o da primeira menstruação de cada princesa; o da menopausa de cada uma das esposas do Sultão. À pergunta sobre se a menopausa das concubinas também é assinalada, a guia explicou que o actual Sultão só tem uma esposa (que era modelo antes de ser Sultana) e não tem concubinas (que se saiba).

 

Imaginei-nos em Belém à volta do pedestal de Afonso de Albuquerque a celebrar a menopausa da Dona Carmona com fragatas e varinos embandeirados Tejo abaixo e acima...

 

Basta de ridículo, fiquemo-nos hoje por aqui.

 

(continua)

Castelo de água, Yogyakarta.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

(na piscina real do Castelo da Água Taman Sari que foi obra de um arquitecto português do séc. XVII não identificado nas brochuras turísticas)

 

MERDEKA – 7

 

Nascidas nos meus tempos livres, estas croniquetas destinam-se aos tempos livres de quem as lê, devem ser leves, despretensiosas, não chatas. Apenas uma preocupação: a de cumprir as regras da Sintaxe e da Semântica daquele a que chamo o «português padrão». É que, mesmo em literatura de cordel, as regras gramaticais são para cumprir. E os linguistas - que com a sua «doutorice» cabimentam as burradas que tanto se propalam com base no sofisma de que «basta que alguém diga para que a fórmula exista» - que se danem. Quando esses intelectuais linguisticamente desordenados (para não dizer desleixados ou permissivos) deixarem de se entender com quem os rodeia, terão que fazer com a nossa língua o que os indonésios fizeram para se entenderem uns com os outros inventando uma língua comum. Ora bem, essa língua já existe e é o português padrão que se escreve em conformidade com o Acordo Ortográfico de 1945 e não com o absurdo de 1990.

 

Pode este preâmbulo parecer descabido nesta crónica sobre a minha viagem à Indonésia mas, na verdade, bem me lembrei de toda esta questão da língua comum quando soube do artificialismo do «bahasa indonesia».

 

E assim cogitando foi que, sem sairmos de Java, partimos de Jakarta para Yogyakarta num voo de mais de uma hora. Sim, as distâncias por ali não se medem com timidez.

 

A cidade tem características urbanas muito semelhantes às da capital nacional mas tem uma particularidade que eu não estava minimamente preparado para ouvir: trata-se da sede de um Sultanato.

Yogyakarta-Prambana.jpg

Templo hindu de Prambana, Yogyakarta

Um puzzle em minuciosa reconstrução depois de recolhidas e identificadas as pedras que por ali estavam ao abandono

 

E a pergunta que se impunha era: - Mas o Estado Indonésio não é laico?

 

A resposta não se fez esperar: - Sim, é laico mas não jacobino, não agride a cultura popular.

 

Eu insisto: - E o Sultão governa mesmo?

 

A guia responde: - A principal função do Sultão é a de ser o guardião da cultura e da tradição.

 

Pensei (mas não disse) que por ali o Sultão corresponde ao nosso Secretário de Estado da Cultura.

 

A guia adivinhou a minha insatisfação e completou a informação: - Aqui, na província de Yogy, o Governador é o Sultão que preside ao corpo legislativo que, esse sim, é eleito por sufrágio directo provincial. O mesmo se diga das Autarquias cujos órgãos também são eleitos por sufrágio directo local. O Sultão de Yogy é o único Governador (provincial) que em toda a Indonésia tem um mandato vitalício e hereditário. Mas agora há um problema: o actual Sultão só tem cinco filhas e nenhum filho varão. Ninguém ainda sabe como vai ser a sucessão. Talvez nem o próprio. É que por ali funciona o equivalente à Lei Sálica (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_s%C3%A1lica) e…

 

Na falta de solução por que pudessemos almejar no prazo da nossa presença em Yogy, deixei cair o tema e passei à frente…

 

Nota final em «economês»: quando a dívida externa portuguesa per capita era de US$ 47.632,00, a homóloga indonésia era de US$ 651,00.

 

(continua)

046.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

(em Yogyakarta, à porta do palácio do Sultão de Yogy)

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D