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A bem da Nação

TEMÁTICAS PARA TODOS OS GOSTOS

 

 

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Releio livros antigos, aparentemente ligeiros, de Françoise Sagan, que, desde o seu «Bonjour tristesse», imediatamente desencadeador de escândalo e admiração, (esta última causada pela precocidade da escritora) protagonizaram um piparote nos costumes burgueses, encarcerados nos convencionalismos das chamadas hipocrisias sociais, impeditivas da transparência nas acções do foro pessoal e familiar. Estas, acondicionadas na ciência das conveniências, não impediram nunca, contudo, tantas das tais violências que uma sociedade machista possibilitou - e, ao que parece, continua a possibilitar, mau grado o travão que a defesa dos direitos humanos instituídos propõe.

 

As liberdades concedidas com o desenvolvimento cultural, as permissividades que as acompanharam, nos capítulos do feminismo, da prostituição, da homossexualidade, do desgaste das relações humanas, tudo isso perpassa sem convicção na obra de Sagan, em que, muitas vezes ela é figura principal, que encara cinicamente todas as questões morais ou amorais, na consciência da sua irrisão. Admiro-lhe, pois, o estilo, onde a psicologia se casa com o conhecimento humano resultante de experiência de vida, sem dogmas de verdades absolutas E as personagens surgem leves, sedutoras, ingénuas ou grotescas, e simultaneamente indiferentes, na sua intelectualidade que põe em causa todos os princípios da racionalidade, o ser afirmando-se superior a quaisquer princípios – caso dos irmãos suecos Sébastien e Eléonore, cínicos e belos e parasitas, tanto na comédia “Château en Suède” , como na novela “Des bleus à l’âme” traduzida em português como “Viver não custa”, em que surgem como cúmplices na procura de quem os sustente momentaneamente, aliciado pela sedução e indiferença que ambos revestem.

 

Estes e outros livros – “Aimez-vous Brahms?”, “Dans un mois, dans un an”, li-os há muito, como algo de novo que varreu concepções antigas e me ajudou a pensar, a voz da narradora, presente ou não, que se afirma na solidão irreparável da miséria humana, que as filosofias existencialistas tornaram mais percucientes. Vou-os relendo, sempre no mesmo encantamento, a “pobreza” não aparecendo entre as suas temáticas, na intelectualidade e bem-estar das sociedades que transpõe aos seus livros, desde os tempos recuados do seu “Bonjour tristesse”, no local paradisíaco da Côte d’Azur.

 

Pobreza é tema que amam os nossos escritores neo-realistas, na tristeza de uma pátria pobre e pouco intelectual, que amam os nossos deputados da esquerda com fins revestidos de uma generosidade ambígua, pobreza, o tema escolhido por Vasco Pulido Valente para a sua crónica de 11/10, clarificadora de mensagem e história. “A natureza da coisa”, assim se chama. Não mostra quanto é obscena, de facto, a pobreza, que, apesar dos tais direitos constitucionais, invade o mundo, com cada vez maior amplitude, lembrando o universo em expansão, de galáxias afastando-se. A riqueza em expansão, a pobreza em expansão. Tal o universo e as suas galáxias. Não deixa de ser obsceno, pese embora a nossa descrença nas intenções desses tais deputados da esquerda. Porque não atentam no facto de os que governaram quererem eliminar isso, tanto quanto possível.

 

Em minha humilde opinião, esses tais de que fala Vasco Pulido Valente estão ansiosos por generalizarem a pobreza a todo o país, quais galáxias expandindo-se no espaço.

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

 

A natureza da coisa

Vasco Pulido Valente.png Vasco Pulido Valente

Público, 11/10/2015

 

A pobreza foi descoberta pelos filhos da burguesia no século XIX. Até ali não era visível, como hoje ainda em grande parte não é, ou era considerada uma característica geral da criminalidade.

 

Foi já em 1958 que o historiador Louis Chevalier escreveu um livro em que distinguia as “classes laboriosas” das “classes criminosas” e explicou ao mundo essa particular cegueira da civilização ocidental. Houve, evidentemente, desde o princípio da Restauração dos Bourbons (1815-1830) uma espécie de literatura que explorava o equívoco entre o “povo” bom e o “povo” mau, que a gente “com qualquer coisinha de seu” lia com delícia, cujo exemplo mais conhecido é “Os Mistérios de Paris” de Eugène Sue, mil vezes copiado e recopiado, mesmo por Vítor Hugo na obra épica “Os Miseráveis”, que continua a ser na forma de opereta ou na forma de filme um sucesso contemporâneo.

 

No século XIX descobrir a pobreza (como descobrir o sexo) mudou a vida a muita gente. Não só essa estranha revelação abria o caminho para a idade adulta e para a cidadania, mas porque o adolescente “rico” se sentia por uma vez parte da humanidade e frequentemente com a missão de a reformar. Claro que primeiro vinham os sentimentos: a indignação, a fúria, a tristeza, o ódio por uma sociedade que permitia aquela atroz miséria. Mas, com o tempo, esses sentimentos cristalizavam numa vontade de acção: ou se trepava para uma barricada ou se escreviam utopias “socialistas”, para inquietar os poderes do dia e aliviar os remorsos. E aqui nesta luta pela transformação do mundo, que se achava radical e definitiva, nasceu um equívoco perene.

 

Do genuíno sofrimento pela pobreza não derivam conclusões seguras sobre a natureza da história ou sobre o regime em que a humanidade deve viver. Pelo contrário, o sofrimento leva quase sempre a ideias que não têm um uso prático ou a planos que escondem ou ignoram a realidade. Basta ver a nossa extrema-esquerda. Não nego que andem por lá pessoas bem-intencionadas. Sucede que a noção de que os sentimentos chegam para reformar a sociedade e o fanatismo em que a acção de costume se perde e se transforma podem quanto muito produzir alguma destruição sem nexo, não podem mudar nada duradouramente. Não por acaso a extrema-esquerda (de qualquer pinta ou nascimento) se parece toda com uma igreja, com o seu zelo e o seu ódio teológico. São pássaros da mesma pena.

 

 

 

 

MISÉRIA ENVERGONHADA

 

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Uma das tónicas das campanhas demolidoras a que os noticiários já nos habituaram é a da miséria envergonhada e nós, ouvintes ou telespectadores, cá estamos, passivos, a tomar em conta tudo o que nesses oragos as pitonisas de ambos os sexos propalam. As misérias envergonhadas acontecem sobretudo naqueles que, até recentemente auto-sustentados, foram entretanto atacados por problemas de sobrevivência e envergonhadamente recorrem à caridade. E por que é que tal aconteceu? Porque estávamos a viver na mentira, os balões de oxigénio rebentaram e claudicaram os que não estavam preparados para a verdade.

 

Dito assim, com esta rudeza, até parece que estou a querer obter audiências como afanosamente fazem os jornalistas. Mas há modos menos grosseiros de dizer o mesmo, não procurando aplausos nem picos de audiência.

 

Recorrendo ao «economês», poderá dizer-se que o modelo de desenvolvimento baseado no consumo falhou e está agora a instalar-se um novo modelo baseado na produção de bens transaccionáveis. Mas, entretanto, a elasticidade da mão-de-obra não é suficiente para que os empregados nas empresas «viciosas» do velho modelo migrem directamente para as «virtuosas» do novo modelo; o desemprego aumenta e as novas situações de desamparo tentam passar despercebidas.

 

Recorrendo a linguagem mais sintética, dir-se-ia que, num modelo, a dívida infinita de cada um perante uma acolhedora sociedade envolvente define um dever absoluto que molda o comportamento individual e garante a homogeneidade social; por contraste, quando o bem se resume aos prazeres e ao útil, o egocentrismo privilegia-se e vinga o «sauve qui peut». Porque o que está em causa é a fricção entre o modelo moralista e o do pós-dever, o do dever perante o bem comum e o individualismo egoísta, do hedonismo e do desprendimento de toda e qualquer definição ética.

 

Baixando aos cenários noticiosos, eis o contraste entre a democracia cristã segundo a filha de um Pastor luterano criada na rude escassez comunista e o socialismo ocidental que floresceu na abundância materialista e que agora, exaurida a espiral consumista, cai na insustentabilidade por via da falência pura.

 

Numa época de ruptura do modelo hedonista em que o endividamento das famílias ultrapassara todos os limites definidos pela razoabilidade, em que mais valia ter do que ser e em que no futuro da despesa pública vingava o slogan «os ricos que paguem a crise», a solidariedade orçamental na União, afinal, não passava duma falácia dos propagandistas. E as dívidas devem agora ser pagas por cada devedor seja ele micro ou macro.

 

Tudo ficou assim subjugado ao pontual cumprimento do serviço das dívidas públicas de cada Estado e privadas de cada falido, sob pena de brusca cessação das ajudas externas entretanto obtidas e da ilusão criada pelos políticos adventistas do paraíso na Terra. E mais: no ponto a que se tinha chegado, a alternativa à austeridade seria o racionamento. Mas isso é uma evidência que os demagogos escondem dos seus eleitores.

 

Então, as mudanças estruturais trazem à evidência o engano que reinava pela mão de quem apregoava que o consumo gerava riqueza e os novos pobres têm agora vergonha das mentiras em que se tinham deixado cair. Mas os telejornais encarregam-se de evidenciar estas novas aflições cumprindo a saga que se auto-outorgaram de relatarem exaustivamente a objectividade dos factos eximindo-se a qualquer juízo moral. E os novos pobres são incentivados a ultrapassarem a vergonha e a gritarem contra os «maus da fita», os credores.

 

Será este o estertor do espectáculo pós-moralista e o anúncio duma nova ética do dever, mesmo que light? Não se trata duma aporia, apenas chegou a hora da verdade.

 

Eis a guerra em que todos hoje participamos e em que cada um é livre de escolher a sua própria barricada, a da verdade ou a outra.

 

Agosto de 2015

 

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 Henrique Salles da Fonseca

A FORÇA DO OCIDENTE

 

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A infame submissão da mulher muçulmana aos caprichos masculinos é dos aspectos mais negativos com que o Ocidente se depara ao acolher as hordas de imigrantes que todos os dias arriscam a vida no Mediterrâneo.

 

Não está em causa a legitimidade da busca de melhores condições de vida – de sobrevivência, até – para essas populações; o que não se pode admitir é que esses imigrantes queiram transpor para a Europa as condições degradantes que na origem impõem à mulher.

 

Unânimes na condição inferior feminina, para a maior parte dos muçulmanos elas nem sequer têm alma, são instrumentos que existem apenas para servir os interesses do homem. E como instrumentos, não têm que ter vontade nem opinião.

 

E a pergunta é: e se essa mulher imigrante na Europa decidir alcançar o mesmo estatuto de plena dignidade humana e social que observa na mulher europeia?

 

Então, a resposta terá muito provavelmente a ver com a maior desorientação masculina nessa sociedade imigrante.

 

Bastará que a Europa decrete a proibição de qualquer pessoa transitar na via pública com o rosto tapado para que a vida se complique para os mais radicais; bastará que o acolhimento ao imigrante seja em tudo igual às politicas de conforto social que os Estados europeus dispensam aos seus próprios naturais para que o tão propalado parasitismo imigrante esmoreça; bastará que cada Estado europeu prossiga políticas de integração e não facilite a criação de guetos.

 

Bastará que uma rejuvenescida Ana de Castro Osório ou Carolina Beatriz Ângelo avance por essa Europa além como estandarte da emancipação da mulher imigrante.

 

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Mais recentemente, tivemos «as três Marias» - Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta – cujo exemplo poderia servir de nova bandeira ao feminismo na Europa assim mostrando uma das maiores forças de que o Ocidente dispõe, a dignidade da mulher.

 

Agosto de 2015

 

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Henrique Salles da Fonseca

LA CONCIÈRGE VINDICATIVE

 

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Politicamente correcto? Aujourd’hui, ça j’ne connais pas.

 

Puxar para cima quem está em baixo, fazer com que todos tenham acesso aos níveis mais elevados de instrução. Reconhecer a todos por igual segundo as suas capacidades, não segundo as suas origens e muito menos segundo as suas necessidades.

 

Das necessidades trata a caridade; a economia reconhece as capacidades. E uma das capacidades tem a ver com as origens, as que dão crédito e permitem até os avales pessoais do paizinho, da mãezinha ou mesmo do avô que já está esquecido e entrevado mas ainda é capaz de assinar atravessado.

 

E quem não tem crédito? Bem, quem não tem crédito, tem que o conquistar pela prática da competência, da honestidade e de mais uns quantos atributos de que os banqueiros gostam. E isso é justo? Não sei se é justo ou injusto, sei apenas que não pode ser de outro modo. Quem tem os capitais, empresta-os ou não conforme os seus próprios critérios e como o dinheiro é dele, é a ele que compete determinar as condições em que o empresta. Uma das condições é a dos juros.

 

Bandidos, agiotas e outros epítetos que tais, eis o que bradam os que não dispõem do capital que tanta falta lhes faz para lançarem o seu próprio negóciozinho ou, mais comummente nos dias que correm, para consumirem duradouramente. Pois se até há políticos que nos dizem que é aos ricos que cumpre pagar a crise… Não hão-de eles ter vontade de lhes passar, aos ricos, um baraço pelo pescoço.

 

E que mais dizem esses da política? Ah!, que todos temos irreversíveis direitos adquiridos, que todos temos direito a toda a felicidade JÁ!, que «eles» é que têm os livros e por isso lhes compete decidir dentro das mais amplas liberdades.

 

Lavei quilómetros de soalhos, abri e fechei milhares de vezes as portas do edifício para «eles» passarem, despejei centenas de caixotes de lixo, sentei-me horas infindas à porta do prédio tentando segurar a cabeça tal a soneira que me dava, tenho todos os direitos, tudo me é devido, eu quero tudo, JÁ! e por inteiro.

 

Vi – e não me peçam que conte mais uma vez – as vergonhas de muitas cá da rua; só comentei uma vez com as minhas colegas para elas saberem com o que contam nos prédios delas. Se não fossemos nós, o que seria a pouca vergonha por aí fora…

 

E se essas cabras não se portarem como eu acho que elas se devem portar, aí eu passo-me dos carretos, ponho a boca no trombone e elas vão-se ver aflitinhas da vida. Ai vão, vão! As cabras.

 

Mas se me derem a reforma por inteiro, deixo-as com as poucas-vergonhas delas e vou para a terra fazer a horta que a minha mãezinha que Deus tem me deixou. Sim, porque me fartei de trabalhar para pagar o curso da minha filha que já é Doutora.

 

Doutora em quê? Ah! Isso eu não sei; é Doutora lá das letras. E ela trabalha em quê? Ela agora está no desemprego mas já tem um namorado que vai a casa dela todos fins de tarde e lhe paga os lanches. Ele é um rapaz muito fino que até tem bigode e tudo. Ele tem um ofício ali na rua a proteger umas amigas que ganham a vida ali por perto… É segurança? Sim, é isso! O Júlio é segurança, agora me lembro do que a minha filha contou. O pior é a porteira que ela lá tem no prédio que não a deixa sossegada com os mexericos que tece à pequena. Uma porca, essa porteira que só vê mal em tudo. Um dia vou lá e digo-lhe das boas.

 

E sabe que mais? Isto está precisado é duma revolução! Uma revolução das porteiras? Sim, das porteiras! E a porteira do prédio da sua filha também vai a essa revolução? Ah! Essa não sei se a deixo lá ir; não sei, não!

 

É isso! O que está a dar é ser-se gigolo e chamar-se Júlio.

 

E é disto que temos que aturar, nós os que temos outras profissões e nos chamamos de modos diferentes.

 

Julho de 2015

 

Henrique Salles da Fonseca em Curaçao (2011)

Henrique Salles da Fonseca

SÃO HEROÍNAS, AS MULHERES PORTUGUESAS

 

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É com o entusiasmo de sempre que releio Simone de Beauvoir, que sempre me pareceu pôr nos seus livros uma densidade de vida que nos fazia devorar a sua leitura e viver com ela as experiências dos seus passeios, dos seus convívios, das suas dores e prazeres, dos seus conceitos, dos amigos que foram povoando e deixando a sua vida, da sua escrita nada rebuscada mas de uma elegância e eficácia de traço perfeitos, resultado de uma inteligência e dom de observação verdadeiramente superiores. Uma mulher que absorveu a vida, que lhe sofreu as tragédias e que pôs nos romances de ficção, como L’Invitée, a mesma seriedade e despojamento íntimo das suas Memórias, quer as da rapariga bem comportada, quer as da força da idade, quer as do após guerra, em “La Force des Choses” em dois volumes que ando a reler. Lembro em “La Femme rompue” a tragédia da mulher dona de casa, mãe galinha e esposa exemplar, que descobre que o marido a atraiçoa, novela que tanto me emocionou na altura, tal o realismo da sua escrita forte e apaixonada, com que exemplificou a condição da mulher subjugada, por princípio machista que a marginalizou para as suas funções próprias de procriação e domínio caseiro, apesar dos escritores que ao longo dos tempos foram alertando para outras possibilidades de realização feminina. Em Le Deuxième Sexe Simone de Beauvoir junta-se ao rol das defensoras da emancipação feminina com essa sua obra filosófica de análise e responsabilização dos dois sexos na defesa dos direitos femininos.

 

Vem isto a propósito do artigo de Maria Filomena Mónica – As mulheres portuguesas são parvas – que o Ricardo me enviou, com apreço pela análise. Maria Filomena Mónica fez-me recuar para Simone, não por identidade de comportamentos – Simone de Beauvoir foi, de facto, uma mulher livre, que se assumiu como tal numa sociedade de que conquistou o respeito – mas nos traços com que se descreveu, os mesmos que, segundo Simone de Beauvoir, os pais e a sociedade esperavam dela – o casamento, a procriação, uma vida sem escândalo. Maria Filomena Mónica é uma mulher bonita, realizada, que luta pelos direitos das mulheres.

 

Ao contrário do que sucede noutros países, em que o dinheiro do trabalho feminino é dispensável no orçamento do lar, podendo as mães permanecer em casa e educar os filhos nos primeiros tempos, em Portugal isso não acontece, os ordenados de ambos os cônjuges indispensáveis para o equilíbrio orçamental. Segue-se que as crianças sejam entregues cedo à vida em comunidade pré-escolar ou escolar, os pais sempre numa sarabanda de movimentação – levar os filhos antes do trabalho, buscar os filhos depois do trabalho, tratar dos filhos. E das refeições. E das roupas. E da casa, suponho que só à noite ou nos fins-de-semana. Vejo isso, do meu sossego de reformada, que de vez em quando fica com os netos. E admiro as mães e os pais com os seus filhos ao colo, pega, despega, num cansaço de rins, mas numa satisfação de cumprimento e de amor.

 

Simone de Beauvoir não teve filhos, foi uma mulher livre que pôde mergulhar na vida e nos livros das suas paixões. É claro que não acontece isso à maioria das mulheres, mas o que me parece – mau grado uma conjuntura laboral que não favorece as mulheres grávidas – é que muitas delas também não querem engravidar porque preferem absorver a vida nos seus prazeres, como fez Simone de Beauvoir. É preciso muito despojamento, muito dom de si, para acumular trabalho e filhos e casa. Felizmente os rapazes hoje em dia já têm mais a noção de uma partilha de tarefas caseiras. O quadro da mulher “escrava”, descrita por Filomena Mónica, aponta para a mulher que se assume nas suas funções de maternidade e de dona de casa, como antigamente. Tem isso a ver, certamente, com a falta de educação ou de interesse cultural de que enferma a nossa sociedade. A verdade é que se pode conciliar trabalho, filhos, casa, interesses culturais. A mulher-a-dias pode ajudar, se os ordenados o permitirem. E o carro tem lugar cimeiro nas suas andanças, é claro.

 

As mulheres portuguesas são parvas

Maria Filomena Mónica.png Maria Filomena Mónica

(Historiadora)

Quando casei, o que de mim se esperava, além da procriação continuada, era que passasse o dia a arrumar a casa, a cozinhar pratos requintados e a vigiar a despensa. Hoje, a estas tarefas vieram juntar-se outras. As mulheres modernas são também supostas ser boas na cama, profissionais competentes e estrelas nos salões

Nos últimos tempos, fui entrevistada por vários jornais, os quais, suponho que devido à crise económica, me enviaram mulheres muito novas. Eram geralmente bonitas, espertas, altas, modernas e rápidas. Eis, pensei, a Nova Mulher. Inesperadamente, o final das conversas tendeu a escorregar para a dificuldade que elas encontravam na compatibilização entre o trabalho e a maternidade. Num caso, aconteceu mesmo ter eu descoberto estar a desempenhar o papel de psicanalista, dando conselhos sobre a forma como a jornalista em causa, que acabara de ter um filho, podia e devia reivindicar para si, sem se sentir culpabilizada, um maior espaço de autonomia.

Suponho que o facto de ser mulher, mãe e avó convida a estas confissões imprevistas. Não me importei: as revelações das jovens serviram para me mostrar que as novas gerações femininas, pelo menos as da classe média, não têm a vida mais facilitada do que eu a tive há quarenta anos. Por um lado, as "criadas de servir", como antigamente lhes chamávamos, são hoje mais caras, por outro, a ideologia dominante sobre a função da mulher alterou-se menos do que eu pensava.

 

É isto que um trabalho, publicado por Karin Wall, do Instituto de Ciências Sociais, e por Lígia Amâncio, do ISCTE, veio demonstrar. A quase totalidade dos portugueses (93 por cento) considera que, num casal, tanto o homem quanto a mulher devem trabalhar fora de casa, mas um número impressionante (78 por cento) diz que uma criança pequena sofre quando a mãe trabalha. Cerca de metade da população afirma que as mães se deveriam abster de trabalhar quando têm filhos com menos de seis anos. Ora, devido aos salários reduzidos da maioria dos trabalhadores masculinos, Portugal possui a mais alta taxa de emprego feminino da Europa, uma situação que só pode conduzir a que as portuguesas vivam em estado permanente de culpabilidade.

Mas há mais. Os portugueses excedem-se verbalmente no seu amor pelas crianças: para 62 por cento, os indivíduos que não têm filhos levam uma "vida vazia". Ora, são estes senhores, que tanto dizem amar os filhos, que se não dão ao trabalho de lhes mudar as fraldas, de os levar ao médico ou de os alimentar. As mulheres portuguesas gastam três vezes mais horas do que os homens na lida doméstica: elas despendem, por semana, vinte e seis horas, eles apenas sete, o que dá uma diferença de dezanove horas semanais, uma média superior à europeia. As portuguesas continuam a ser exploradas, como se nada se tivesse passado desde o momento, na década de 1960, em que a minha geração ergueu a bandeira da emancipação feminina.

Algumas das jovens, que responderam ao inquérito, declararam conformar-se com a distribuição do trabalho vigente, chegando a dizer que "nós nunca nos zangamos por causa das tarefas domésticas", continuando a lavar a roupa, a passar a ferro e a mudar fraldas, como se os filhos não fossem responsabilidade de ambos. Sei, por experiência própria, que é mais fácil fazer greve às tarefas domésticas do que ao tratamento dos filhos. Apesar das minhas resistências iniciais, acabei por admitir que existe um laço afectivo diferente entre a mulher, que teve de carregar um feto na barriga durante nove meses, e o homem que se limitou a depositar nos ovários um montinho de espermatozóides. Mas isto não explica a exploração a que as minhas compatriotas são sujeitas, não só pelos maridos, como por uma sociedade que continua a atribuir-lhe todos os males contemporâneos, do consumo juvenil da droga à anomia cerebral dos alunos.

Nunca esperei que a situação fosse tão má quanto a que este inquérito revela. Na minha ingenuidade, pensei que, na História, havia domínios - sendo um deles a emancipação feminina - em que tinham verificado progressos. Depois de ler estes dados, tenho dúvidas. Algumas raparigas ainda parecem pensar que a sua única função no Universo consiste em desempenhar os papéis de esposas devotadas, seres paranoicamente ocupados com a limpeza do pó e mães tão excelsas quanto a Virgem Maria. De certa forma, o destino das raparigas na casa dos trinta ou quarenta anos corre o risco de ser pior do que o meu. Quando casei, o que de mim se esperava, além da procriação continuada, era que passasse o dia a arrumar a casa, a cozinhar pratos requintados e a vigiar a despensa. Hoje, a estas tarefas vieram juntar-se outras. As mulheres modernas são também supostas ser boas na cama, profissionais competentes e estrelas nos salões. Mas isto é uma utopia. Nem a mais super das super mulheres pode levar as crianças à escola, atender os clientes no escritório, ir à hora do almoço ao cabeleireiro, voltar ao escritório onde a espera sempre um problema urgente, fazer compras num destes modernos supermercados decorados a néon, ler umas páginas de Kant antes de mudar as fraldas do pimpolho, dar um retoque na maquilhagem, telefonar a três "babysitters" antes de arranjar uma, ir ao restaurante jantar com os amigos do marido, discutir a última crise governamental e satisfazer as fantasias sexuais democraticamente difundidas pelos canais de televisão. Estou a falar, note-se, de mulheres socialmente privilegiadas. A vida das pobres é um inferno sem as consolações de que as suas irmãs de sexo, apesar de tudo, usufruem.

É por isso que a luta tem de continuar. Não sei se sou "feminista", nem me interessa debater a questão terminológica. Sei que sou contra todas as injustiças e, entre elas, contra a ideologia que nos quer manter encerradas numa Casa de Bonecas. Ao longo dos anos, tenho ouvido de tudo, incluindo mulheres que dizem estar contra a emancipação feminina. Pensei então que não valia a pena perder tempo com tontas. Mais madura, considero hoje que o melhor é retirar-lhes o direito ao voto, o direito ao divórcio e a protecção legal contra a violência doméstica. Se gostam de ser escravas, que o sejam. Acabou-se o tempo das contemporizações. Quem luta, tem direitos; quem se resigna, fica de fora.

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

AINDA O LIVRO DE JOÃO MAGUEIJO

 

bifes mal passados, magueijo.jpg Nunca fui a Inglaterra e poucos ingleses conheci. Conheci o John, que vivia na África do Sul, com a Carol, um casal de uma educação modelar a quem acolhemos na nossa casa numa altura em que houve cheias em Lourenço Marques. Como tinham vindo a férias em roulotte, os amigos de estúrdia – o Rui, o Raposo, não sei se o Knopfli também – revezaram-se para os ajudar durante as férias, alagadas por vários dias. Discretos, educados, de uma alegria feita de contenção e sensatez, diferente da estridência que os amigos portugueses punham nas suas graças de boémia galhofeira, embora generosa e acolhedora. Um casal exteriormente belo, correspondendo a uma beleza interior, como me pareceram mais tarde os pais da menina inglesa Maddie, passeando a sua tragédia de mãos dadas e forma aprumada e tensa, a impor ao mundo a sua dor real, suscitando no mundo uma real piedade. E todavia, não ignorei que esse mundo lhe proporcionou bons ganhos, anualmente, quando se despoletava nova arremetida em busca do mistério do desaparecimento de Maddie, e voltava a encontrar esses pais sempre belos, sempre unidos, sempre trágicos e contidos, com a televisão acompanhando-os, e creio que amigos britânicos poderosos também, castigando o polícia português – que ousara desmistificar o mito, ao alvitrar diferente solução para o caso – enviando os seus farejadores ingleses – homens e cães – num desprezo superior pela polícia portuguesa ineficiente. Lembrei novamente o mediático caso, que me fez suspeitar de que talvez Magueijo não falseasse a verdade na sua crítica acerba, estranhando, contudo, que cuspisse assim na mão de quem lhe estendera os braços para a ciência e para o emprego, e que, apesar disso, o continuava a aceitar desportivamente.

 

Também Garrett descreve os ingleses, ou antes, as misses inglesas das paixões de Carlos anteriores ao enamoramento com Joaninha. E Eça, nas “Cartas da Inglaterra”, nos traços de cupidez e domínio imperial britânicos, e em que o “Times” surge como exemplo da inflexibilidade e convencionalismo vitorianos por vezes comprometidos com uma tal partida alheia maliciosa, manchando-lhe a reputação. Ou no próprio “Os Maias”, o exemplo de um Craft de carácter e sensibilidade superiores, no tipicismo da sua fleuma contrastando com a vibratilidade espirituosa e exaltada de Ega ou com a pose pedante e vazia dos Gouvarinhos oficiais portugueses. Ou as figuras de “Uma família Inglesa”, de Júlio Dinis, a impecável e extremosa miss Jenny, o seu convencional e rígido pai, Mr. Whitestone, contrastando com o leviano mas sensível irmão e filho Carlos, que o amor regenera romanescamente para o trabalho e a responsabilidade familiar. Uma sociedade de bons princípios burgueses, que Júlio Dinis colheu nas leituras de Jane Austen, das irmãs Brontë, e que retomamos nas velhas misses Marples e outras personagens da Agatha Christie, quer dos livros quer do cinema, bem como em tantas figuras do cinema britânico, que nos fizeram estimar ou repelir a rígida sociedade aristocrática inglesa, que Óscar Wilde – sobretudo – é perito a descrever, quer nos comportamentos quer através das falas de personagens, exímias na exploração do paradoxo e da sátira a essa própria aristocracia a que pertence. Num plano mais realista, percorremos com Charles Dickens não só os sombrios caminhos da nevoenta Inglaterra – que os filmes sobre Sherlock Holmes igualmente mostram, bem como os contos fantásticos de Edgar Poë – como certos antros de miséria material e moral, perversa ou burlesca das classes mais desprotegidas.

 

Contudo, a “loira Albion” surge no meu espírito sempre na sua altivez e riqueza interior que a nós próprios, portugueses, originou uma família de Avis marcada pelo génio, pela mão materna de D. Filipa de Lencastre, “ínclita geração” de quem dependeu a descoberta do mundo para lá dos mares, mundo que, de resto, os ingleses, mais do que os outros povos, avassalariam, com a sua cultura, a sua língua, a sua civilização, colhendo nele os frutos da sua ambição poderosa e organizada, e deixando nele as marcas civilizacionais específicas, derrotados embora pelos protestos dos pacíficos Gandhis que não aceitaram a humilhação.

 

Eis os motivos da minha discordância com o livro “Bifes mal passados”, de João Magueijo. Talvez se eu tivesse que lá viver, também sentiria, na pele rebelde, certa zanga explícita nesse livro, contra a arrogância da discriminação social, em que são peritas as classes mais aristocráticas, tema igualmente das ironias de Eça. Mas conheço pessoas que lá viveram ou vivem e se deram muito bem. A minha irmã é das que lhes tem aversão, e concordo que ela sabe muito.

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

 

 

MAUS, OS QUE FICÁMOS...

 

 

...E BONS, OS QUE EMIGRARAM?

 

 

Há por aí quem diga que os bons portugueses emigram e que por cá só ficam os que não prestam.

 

Então, ocorre-me perguntar por que se emigra. Porque não se tem um modo de vida cá dentro que corresponda às expectativas.

 

E por que é que as expectativas excedem as condições internas e só se adaptam lá fora? Uma das razões é porque cá dentro estamos atulhados de licenciados em cursos que não servem para nada e lá fora esses licenciados em «gato por lebre» não se importam de lavar pratos ou desentupir esgotos enquanto cá dentro exigem o sábio estatuto de «Dr», «Mestre» ou até mesmo de «Doutor»; outra das razões é porque estamos atulhados de trolhas e esses faltam lá fora. E mais razões há...

 

E nós, os que cá ficámos, podemos ser considerados em várias categorias:

  • Os que encontrámos um modo de vida correspondente às nossas expectativas;
  • Os herdados e mandantes;
  • Os que andaram por fora e voltaram;
  • Os estrangeiros que tomaram Portugal como país de acolhimento;
  • Os inaptos, os gatunos e outros «artistas» que tais...

Ah! Já me ia esquecendo dos políticos que o leitor arrumará na categoria que melhor considerar aplicável, com excepção da dos estrangeiros, claro.

 

Portanto, antes de chegarmos aos últimos da tabela, os que mais denigrem o nome de Portugal, temos todos os anteriores e, dentre eles, muitos de grande valimento e seriedade.

 

É claro que a emigração poderia ser menor se se escolhesse a instrução em função das reais necessidades do mercado nacional de trabalho e se o empreendedorismo fosse mais incentivado em substituição do tradicional objectivo de «fazer funcionários».

 

Dos que andaram por fora e regressaram, muitos já vêm aposentados o mesmo acontecendo com tantos estrangeiros que escolheram Portugal para gozarem a reforma sem as agruras climáticas típicas dos seus países.

 

Mas o mais importante que nos cumpre reconhecer é que Portugal é a «casa natural» de TODOS os que falam português e, portanto, pode e deve ser um refúgio de toda a lusofonia. Venham todos pois o dia da plurinacionalidade lusófona chegará.

 

Logo, os que cá estamos não somos os maus porque os bons emigraram. Não, nós somos bons, maus e assim-assim. Ou não fôramos uma sociedade humana e não de espíritos divinos irrepreensíveis.

 

Sim, bem sabemos que vagueia por aí um ou outro pecadilho… Mas daí a dizer que isto é tudo uma choldra, vai uma galáxia de distância.

 

 

Henrique Salles da Fonseca

O HOMEM-ESPUMA

 

 

Ele aí vem. Ligeiro, agitado, caprichoso, vão. Sem densidade e sem espessura. Sem raízes e sem passado. Nasceu hoje. Produto de uma sociedade sem pai e sem mãe, de uma sociedade espantosamente tumultuária e espantosamente célere no seu curso declivoso, o destino desse homem parece flutuar num momento e num momento sumir-se. Apareceu e desapareceu, embora a sua existência venha a ter mais de oitenta anos.

 

 

O homem-espuma sucede ao homem-máquina, ao homo mechanicus, de que fala Lewis Mumford. O homo mechanicus é um conquistador por natureza. Nenhum Alexandre, nenhum César, nenhum Tamerlão possui semelhante império. Nem de longe, na terra, no ar e no mar, esse império vastíssimo tende a alargar-se a tudo, a transformar tudo, a dominar tudo e absolutamente tudo. O homo mechanicus é o homem da ruptura. Da ruptura do equilíbrio entre ele e o seu meio (natural); entre ele e o outro (ou os outros); entre ele e ele; angústia, ansiedade, insatisfação, inquietude contínua, morbidez subjectiva, difícil, por vezes, de ser verificada clinicamente, mentalmente excessivo – irrompe mesmo nas próprias disciplinas científicas – sentimento de solidão até aos ossos. O homo mechanicus é o homo cyclopicus, género abarcando as três espécies que os mitógrafos gregos descrevem. À semelhança dos Ciclopes, ele sofre de gigantismo, à semelhança dos Ciclopes, ele tem uma só vista na testa, muito grande, muito fixa e muito profundamente cavada que só lhe permite ver num sentido – de frente – cortando-lhe todas as restantes perspectiva; à semelhança dos Ciclopes, ele possui, no prolongamento, mediato ou imediato do próprio corpo, um poder, uma força e uma energia que excedem tudo aquilo que a fantasia mais fecunda e mais ousada pôde imaginar ao longo de milénios da história humana.

 

 

[Salva-o o Homo Misericors, verdadeiro hino à misericórdia que é uma] constelação formada pela ternura, a bondade, a paciência, o respeito, a servicialidade, a compaixão, a reconciliação, a longaminidade, a indulgência – não demissiva da exigência – a atenção ao outro, nas suas dimensões do outro, a vontade de o aceitar, de o compreender, de o escutar ou, porventura mesmo, de o ajudar a libertar-se, de ir ao seu encontro, sobretudo se a sua situação é dolorosa, complicada e difícil.

 

A misericórdia não é sinónimo nem de pietismo privatista, nem de sentimento romântico, efusivo de mares de lágrimas sem sentido e sem motivo, nem paternalismo, materialismo e fraternalismo platónico ou platonizante. [A misericórdia] é um olhar que vivifica e não mata, salva e não condena, ergue e não deprime. É um impulso para agir sem cumplicidade e para reunir sem massificar. É uma vontade de sair de si,, da prisão do próprio ‘eu’, para transformar o mundo e se transformar a si mesmo em permanente e incansável reciprocidade.

 

É pela misericórdia que se salvam as relações de pessoa a pessoa, sobretudo quando essas relações, por este ou por aquele motivo, têm de ser longas, complexas, triturantes: no parentesco, na vizinhança, na situação profissional, no mais largo espaço social. É pela misericórdia que os grupos não se funcionalizam, não se homogeneizam e não se dissolvem. É pela misericórdia que a política não degenera em maquiavelismo de príncipe, individual ou colectivo. É pela misericórdia que inveteradas inimizades cessam, convertendo-se, porventura, no seu contrário. É pela misericórdia que diuturnos ressentimentos abrandam, lívidas invejas desaparecem, passos vacilantes se tornam firmes. É pela misericórdia que se abre o coração ao estrangeiro, se olha o insólito sem animosidade, como princípio, se encaram hábitos alheios e alheios sistemas de referência, sem atitudes condenatórias e sem julgamentos sumários. É pela misericórdia que se realiza a melhor apreensão e compreensão do mundo e da vida: a apreensão e compreensão dos místicos. (…)

 

A misericórdia é a grande via de acesso à transcendência.

 

 Manuel Antunes, SJ

 

In «Cristianismo e solidariedade: a utopia da misericórdia», José Eduardo Franco, BROTÉRIA, Julho de 2014, pág. 45 e seg.

POR QUE SE ESCREVE

Três costumam ser os fins por que se escreve: ou por virtude, ou por vaidade ou por interesse.

 

Os que escrevem por virtude não podem ter mais nobre fim pois é o de mostrar aos pecadores a torpeza dos vícios que erradamente seguem e dar-lhes os documentos necessários para a eternidade.

 

Os que escrevem por vaidade são aqueles que podem justamente conciliar a atenção dos Leitores com a delicadeza dos pensamentos que, quando eu era moço e se falava outra língua, ouvia chamar conceitos com a propriedade das vozes e com a constância harmónica dos períodos.

 

Os que finalmente escrevem por interesse, são os que sem eleição de assunto nobre tratam somente de agradar ao povo, a que só parece bem o que se conforma com a grosseria dos seus juízos.

 

Sou da terceira classe mas com certa distinção porque o interesse que me persuade a escrever não é o do lucro, é o interesse da glória da Pátria tirando do esquecimento, a que tudo está sujeito por fatal decreto da natureza, as memórias daqueles homens que por todas as razões a mereceram.

 

Dom José Barbosa

 

In «Elogio Fúnebre (MDCCXXXVIII)», Biblioteca Nacional

 

 

SOBRE O AUTOR: Dom José Barbosa nasceu em Turquel, Concelho de Alcobaça, em 1674 e faleceu em Lisboa em 1750. Padre, foi co-fundador da Academia Real da História Portuguesa, sócio da Academia Ericeirense, Cronista da Casa de Bragança, Examinador do Patriarcado e das três Ordens Militares. Por testamento, deixou a sua biblioteca à Ordem de S. Caetano que, com a extinção das Ordens, foi integrada na Biblioteca Nacional.

 

Alcobaça, 29 de Setembro de 2013

 

 Domingos José Soares Rebelo

 

 

PROIBIDO USAR BURKA NO ALGARVE

 

 

Uso da burka ou do tchador proibido no Algarve que também se usava noutras zonas do país.

 

Oficialmente, a sua extinção ocorreu em 1882 e por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve, foi proibido nas ruas e templos, embora continuasse a ser usado em Olhão até aos anos 30 do século XX em que foram vistos os últimos biocos.

 

Será que esta lei ainda está em vigor?

 

«Faço saber que pelo regulamento policial d’este Governo Civil, de 6 do corrente mês, com execução permanente aprovado pelo governo, determino o seguinte:

 

Artigo 32º – É proibido nas ruas e templos de todas as povoações deste distrito o uso dos chamados rebuços ou biôcos de que as mulheres se servem escondendo o rosto.

 

Artigo 33º – As mulheres que, nesta cidade, forem encontradas transgredindo o disposto no precedente artigo serão, pelas vezes primeira e segunda, conduzidas ao comissário de polícia ou posto policial mais próximo, e nas outras povoações à presença das respectivas autoridades administrativas ou aonde estas designarem, a fim de serem reconhecidas; o que nunca terá lugar nas ruas ou fora dos locais determinados; e pela terceira ou mais vezes serão detidas e entregues ao poder judicial, por desobediência.

Parágrafo único – Esta última disposição será sempre aplicável a qualquer indivíduo do sexo masculino, quando for encontrado em disfarce com vestes próprias do outro sexo e como este cobrindo o rosto.

 

Artigo 34º – O estabelecido nos dois precedentes artigos não terá lugar para com pessoas mascaradas durante a época do Carnaval, que deverá contar-se de 20 de Janeiro ao Entrudo; subsistirão, porém, as mesmas disposições durante a referida época, em relação às pessoas que não trouxerem máscara usando biôco ou rebuço.

 

Artigo 41º – O presente regulamento começa a vigorar, conforme o disposto no artigo 403º do código administrativo, três dias depois da sua publicação por editais – Governo Civil de Faro, 28 de Setembro de 1892. – Júlio Lourenço Pinto.»

 

O biôco (ou biuco) – Algarve

 


Raul Brandão escreve a propósito do biuco no seu livro "Os Pescadores", em 1922:

 

" Ainda há pouco tempo todas (as mulheres de Olhão) usavam cloques e bioco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis.

 

É um trajo misterioso e atraente. Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos.

 

Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. é uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."

 

Trata-se de uma capa que cobre inteiramente quem a usava. A cabeça era oculta pelo próprio cabeção ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas pareciam “ursos com cabeça de elefante”

 

Julho de 2014

 

 Eduardo Miranda

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