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A bem da Nação

ARÁBIA FELIX – 8

 

Ainda a propósito do Ibadismo, alternativa ao Sunismo e ao Xiismo, fiquei a saber que Omã vem servindo de intermediário entre aquelas duas facções do Islamismo não só em termos diplomáticos na guerra (civil?) que actualmente assola o Iémen mas também nas coisas mais comezinhas que se pode imaginar. Por exemplo, a Arábia Saudita tem falta de cabras e o Irão é um grande produtor desses simpáticos cornúpetos pelo que se servem da intermediação omanita para fazerem o comércio que não ousam estabelecer directamente. E quem gere essa intermediação? Pois bem, foi-me dito pelo guia egípcio que são esses tais «portugueses abandonados» lá pelas paragens do Estreito de Ormuz que, para além da actividade pesqueira, vão buscar carregamentos de cabras ao Irão e as vendem aos encarniçados sunitas de Meca.

 

Se esta informação se confirmar, dá para recordar que o Império Português teve o comércio como uma das suas bases essenciais pois havia que ganhar dimensão «lá fora» para resistir à pressão raiana exercida por «nuestros hermanos».

 

A propósito da guerra em curso no Iémen, contou-me outro egípcio que, mais do que uma divergência religiosa, se trata duma quezília com motivos bem prosaicos.

 

Assim, recordou-me ele que a etnia árabe teve a sua origem no Iémen o que dá aos iemenitas um sentido de grande superioridade em relação aos outros árabes, os que eles consideram na diáspora. E aqui entra em acção o conceito de que é aos filhos que cumpre cuidar dos pais aquando da velhice destes.

 

Como assim?

 

Pois saiba-se que o Iémen não tem petróleo (se o teve, já o consumiu – não fui investigar) e que a Arábia Saudita ainda não explorou uma gota das suas reservas centrais.

 

Então, os iemenitas querem uma redefinição das fronteiras de modo a que possam chegar à vertical dessas tais reservas inexploradas. Está-se mesmo a ver que os sauditas vão mobilizar todos os topógrafos à superfície da Terra para redesenharem o traçado da fronteira como os iemenitas paternalisticamente exigem.

 

Sanaá-Iémen.png

Sanaá, capital do Iémen

 

E o que tem Omã a ver com tudo isto? Então, não esqueçamos que o petróleo é a principal fonte das receitas omanitas e que logo no início do reinado de Kaboos, houve uma invasão iemenita do seu território cujo objectivo anunciado era o proselitismo comunista mas que, na verdade, já era a cobiça petrolífera.

 

Felizmente para Kaboos, não lhe foi pedido que assumisse uma posição no conflito em curso pelo que o Sultão se limita a fazer como aquele fulano muito magrinho que tentava passar entre os pingos da chuva sem se molhar. Até quando? Até que a Arábia Saudita se farte disto tudo, assuma o poder em Sanaá e diga ao mundo que o Iémen foi um país que em tempos existiu no extremo sul da sua Península. Já vimos como o príncipe herdeiro saudita age, não estranhemos que lhe chegue rapidamente a mostarda ao nariz.

 

A ver, como se diz em Oftalmologia…

 

(continua)

 

Março de 2019

Omã, algures.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(Omã, algures)

ARÁBIA FELIX – 7

 

S. Joaquim e Stª Ana.png

VALHA-NOS S. JOAQUIM!!!

 

É da religião que deriva a moral e é desta que resulta a ética. Religião, moral e ética definem as bases de uma qualquer Civilização.

 

Para conhecermos uma Nação, temos que saber qual a Civilização nela predominante.

 

O Ibadismo é a religião predominante em Omã. Desconheço o que daí resulte em moralidade e ética mas eles lá se vão entendendo pelo que admito que a «coisa» funcione. Não há-de ser muito diferente do que se vê nas outras vertentes islâmicas. Será?

 

Do ponto de vista teológico, os ibadistas rejeitam a interpretação literal do Corão, a representação antropomórfica de Alá e negam a possibilidade de O verem tanto nesta vida como no Além.

 

Fui buscar estas informações à Internet e calo os comentários que me possam ocorrer devido à escassez da informação mas não gosto muito dessa hipótese de no Além não nos podermos sentar junto do Pai. Caramba, pelo menos, de pé.

 

O Ibadismo foi fundado por 'Abd Allah ibn-Ibad em Bassorá (actual Iraque) por volta de 680 d.C. como um grupo moderado que se opunha à rebelião armada e aos assassinatos políticos, estando dispostos a viver em harmonia com os outros muçulmanos.

 

O vídeo seguinte pode dar uma ajuda no conhecimento do Ibadismo:

https://vimeo.com/112047896

 

Não informado localmente destas particularidades, visitei a mesquita (linda, imponente) de Mascate e não notei qualquer diferença para as outras mesquitas que conheço, sunitas.

 

Mas foi preciso chegar a Salalah para que me enchesse de espanto ao constatar que o Profeta Nabi Imran– sepultado naquela cidade - é, nem mais nem menos, o nosso S. Joaquim, pai da Virgem Maria a quem todos os muçulmanos chamam Miriam.

Túmulo de S. Joaquim-Salalah.png

 

Trata-se de túmulo com 30 metros de comprimento e, perguntados, não me souberam (quiseram?) responder por quê tanto metro. Só posso concluir que se trata duma expressão de respeito por parte de quem arquitectou tal monumento fúnebre. Será?

 

E assim foi que passei a saber que a Issa (Jesus) e a Miriam (Nossa Senhora) se junta também Nabi Imran (S. Joaquim) como divindades nossas que, afinal, também são deles.

 

Espero continuar a aprender…

 

(continua)

 

Março de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

(algures em Omã)

ARÁBIA FELIX – 6

 

 مسقط

 

O que está ali em cima escrito e que o meu leitor não descortina é o nome da capital do Sultanato de Omã, Mascate, a que actualmente há quem chame Muscat. Mas isto é a corruptela inglesa do nome original, o que nós, portugueses, trouxemos para a escrita em caracteres latinos nos idos de 1500 da nossa era. Sim, há situações em que os ingleses lêem o «u» como «â» e, consequentemente, vice-versa também. Eis como ao nosso som «mas» eles acabaram por copiar na escrita como «mus» e eternizaram o erro.

 

Enfim, desculpemos os tradutores britânicos que por certo seriam bons artilheiros mas que deveriam saber muito pouco de etimologia.

 

Portanto, pondo um ponto final na discussão etimológica, a capital do Sultanato de Omã chama-se Mascate, seja qual for o tipo de caracteres utilizado. Confesso que não fui investigar como se escreve em hindi nem sequer em chinês simplificado. Mas admire-se o meu leitor de que haja por essas bandas outras ou ainda piores corruptelas…

 

E foi a Mascate que aportámos depois de uma noite de navegação desde que zarpámos de Khasab[i] na Península de Musandam, exclave omanita na margem sunita do Estreito de Ormuz.

 

É em Mascate que reina o Sultão Kaboos, um autêntico «rei do petróleo». E falar dele é contar um pouco da história omanita das últimas décadas.

 

Qaboos ibn Sa’id Al ‘Bu Sa’id (nascido em Salalah a 18 de Novembro de 1940) é Sultão desde 1970 quando, a 23 de Julho, por golpe de Estado, depôs o seu próprio pai.

 

Como Sultão, detém, em conformidade com a tradição regional, o poder absoluto. Acumula os cargos de Chefe do Estado, de Primeiro Ministro, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Ministro da Defesa e de Ministro das Finanças. Apesar da sua riqueza e poder, é considerado geralmente como autor de uma política moderada. Conhecido por ser um mãos largas (a que eufemisticamente se chama «desinteressado e generoso»), é-lhe creditada uma firme política anti-terrorista (é seguidor do Ibadismo que é diferente do Sunismo e do Xiismo).

 

O primeiro problema que Qaboos teve que enfrentar após assumir o poder foi uma incursão comunista armada do Iémen do Sul que derrotou rapidamente com escassa ajuda externa.

 

Governando com mão de ferro, desde há alguns anos tem dado passos no sentido de alguma democracia, nomeadamente com eleições parlamentares nas quais as mulheres podem votar e ser até candidatas.

Qaboos.png

- Legislem à vossa vontade mas a decisão final é minha.

 

Contudo, é grande a apreensão dos súbditos porque não se lhe conhece mulher (os comentários são emitidos sem grande contenção mas com muitos subentendidos) e, portanto, que se saiba, o trato sucessivo não está assegurado. Diz-se que há uma determinação de que ao terceiro dia após a sua morte, o Conselho de Família deverá abrir o cofre em que se encontra guardado o documento no qual ele próprio designa o seu sucessor. Quem será? Aguentar-se-á no «balanço»? Mistérios que ensombram o futuro de Omã como Sultanato.

 

Não nos esqueçamos de que a estabilidade política deste Estado não é «coisa» menor pois que se trata de um muito importante exportador de petróleo. E nem vale a pena buscar mais argumentos para explicar o perigo que por ali paira. E o homem já não é criança nenhuma.

 

Uma curiosidade não despicienda: o Rial (dividido em mil sub-unidades) é actualmente a moeda mais poderosa no planeta pois vale cerca de US$ 3,00 e de € 2,50. Imagine-se o que será comprar um Rial de pevides…

 

(continua)

 

Março de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

(frente à mesquita de Khasab)

 

[i] - Khasab é um lugarejo sobre que me eximo de escrever

ARÁBIA FELIX – 5

 

Zarpando do Dubai um pouco antes da meia noite, navegámos lentamente contra uma ondulação que nos fez afocinhar mais do que o desejado por muitos dos nossos companheiros de viagem e acordámos atracados a Khasab, no exclave omanita na Península de Musandam, o mesmo é dizer que na margem árabe do Estreito de Ormuz.

 

Dizem os folhetos turísticos que se trata dos «fiordes» de Omã mas… vou ali e já venho. Sim, há penhascos que descem quase na vertical até ao mar mas nada da imponência norueguesa. Também nada que tenha impedido a construção das estradas por que circulámos confortavelmente. Sinuosas, sim, mas nada que assuste turistas experientes em alturas e planuras.

 

E qual não foi o meu espanto quando o passeio matinal tinha (e teve) como objectivo a visita a um forte português numa das praias a que hoje se acede com facilidade mas que no século XVI só se alcançaria por mar ou pelos penhascos que ainda lá estão.

Khazab-Omã-forte português.jpg

 

Então, o mais curioso é que a parte mais «forte» do forte é a que está virada para terra já que do mar não esperavam os portugueses qualquer perigo.

 

Foi com alguma emoção que constatei o respeito com que em Omã se referem aos portugueses e ao esmero com que preservam a nossa memória edificada.

 

Perguntado sobre outras memórias da presença portuguesa, o nosso guia (um dos vários egípcios que para ali foram depois de o turismo ter caído a pique no seu país devido à instabilidade provocada pela Irmandade Muçulmana) referiu que há diversas localidades na região de Musandam e algumas ilhas no Estreito cujos habitantes – maioritariamente pescadores - se dizem portugueses e que falam um dialecto próprio.

 

Talvez um dia haja um operador turístico que se preocupe com este género de ocorrências históricas e proporcione visitas a estes (e outros) «portugueses abandonados». Talvez…

 

(continua)

 

Março de 2019

Forte português de Khazab-Omã.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(no forte português de Khasab, Omã)

ARÁBIA FELIX – 4

 

«Gargara», é a única palavra em língua urdu que conheço e significa algo como «ondulante». Pelo menos, foi esse o sentido da conversa que nos fez um dos condutores do rally amalucado pelas dunas do deserto dubaiano. Logo me lembrei de «gargarejo» que também é algo de sonoridade ondulante. E isso vem de «garganta». Quanta da etimologia resulta das malhas tecidas pelos Impérios…

 

E porquê urdu no Dubai? Porque é a tal questão da nacionalidade. Quem assim falou já nasceu no Dubai mas, não sendo filho de nacionais do Emirato, não conseguirá alguma vez na vida adquirir a nacionalidade. Mas se se casar com uma mulher que também lá tenha nascido, então os filhos comuns poderão ser admitidos no grupo restrito dos nacionais dubaianos. Deste modo, aquela família, não conseguindo adquirir a nacionalidade local, não teve até agora motivos para cortar com a cultura de origem e mantém a língua dos respectivos antepassados que, neste caso, é o urdu.

 

E também são muçulmanos, perguntei. Que sim mas nem mesmo assim conseguem a nacionalidade. E se vierem a ser pais de crianças com a nacionalidade? Nada feito. Serão pais de dubaianos mas disso não passarão.

 

Realmente, pensando melhor, se o Emir quiser manter as rédeas firmes do poder, não poderá deixar muitos forasteiros aderirem à nacionalidade sob pena de, a partir de certa altura, o Emirato passar a ser dominado por quem pensa como estrangeiro e os autóctones genuínos, árabes, perderem a exclusividade da Nação. Não esquecer que isto é um regime monárquico ditatorial em que a «abertura» política se limitou a promover a constituição de um Conselho Consultivo do Emir que este consulta se e quando quer e a quem não confere qualquer poder decisório.

 

Segue-se uma particularidade: os funcionários públicos têm a obrigação de vestir a indumentária típica do Emirato, ou seja, a Kandurah que é a túnica comprida usada pelos homens, geralmente branca mas que também pode ser bege, castanha e, raramente, preta; ao pano na cabeça chama-se Guthra e ao cordão que o segura na cabeça chama-se Agal.

Traje masculino típico do Dubai.png

 

E já que de início referi a Revolução Francesa, parece que aquela gente imita os «sans culotte». Em terras que podem aquecer até aos 50º Centígrados, sempre ficam mais arejados. E não repito os comentários que as excursionistas expenderam…

 

(continua)

 

Março de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

(no topo do Dubai Burj Khalifa)

ARÁBIA FELIX – 3

DIÁRIO DE BORDO.png

UM QUASE DIÁRIO DE BORDO À MINHA MANEIRA

 

14/03/19, 05:08 - Vamos aportar a Salalah onde entrarão os snipers a bordo para nos protegerem na zona perigosa.

A "trincheira" que me está destinada é no casino, atrás duma slot machine. Eis por que associo pirataria a "Bally", o modelo da máquina.

Os snipers mandaram dizer ao Comandante do barco que ultimamente não tem havido pirataria e que com navios de cruzeiro nunca houve. Que talvez seja desta...

17:30 – Os snipers são 14 tunisinos e estão autorizados a atirar a matar TUDO o que vejam a mexer na água e de que desconfiem. Cruzei-me na escada do portaló com dois deles e garanto que NÃO será nos próximos dias que tenciono nadar à volta do navio. Desta vez opto pela piscina.

16/03/19, 20:15 - Frente a Djibuti, devemos passar o Estreito de Áden nas próximas horas. Até agora, sem problemas mas a rapaziada sniperiana tem infravermelhos para nos guardar a noite.

17/03/19, 08:25 - Em plena luz do dia (são 11,21 h da manhã), foram avistados 2 grupos de piratas que não se aproximaram para cá de uns 500 metros. Foi giro ver os vigilantes e os snipers a postos mas não chegámos a ser mandados para o interior do navio porque os putativos assaltantes se afastaram. E isto já no Mar Vermelho, não no Golfo de Áden que é a zona mais problemática.

12:11 - Tudo se esfumou...

Já o Almirante sem medo dizia "É só fumaça". Pode ser que logo à noite a "coisa" melhore.

14:14 - Até Aqaba, tudo pode acontecer. Só lá é que sairão os snipers.

18/03/19, 09:51 - MISTÉRIO

Pelas 3,30 h desta madrugada, calou-se de repente a música da discoteca e os foliões foram mandados "recolher a quartéis" SEM percorrerem os decks exteriores.

Eu dormia o sono próprio de quem tinha levado uma grande tareia (uma massagem forte ao corpo todo ministrado por uma filipina com 1,40 m de altura mas com uns polegares lancinantes).

Pela nesga duma cortina, houve quem percebesse que estávamos acompanhados por outro navio e que ambos estávamos parados, apenas com os motores em ponto morto.

A Graça ouviu barulhos (que não identificou) contra o casco.

E eu dormia... Que pena! Perdi toda a adrenalina correspondente a tal mistério. A ver se alguém da tripulação solta a língua... Se sim, contarei.

15:49 - Navegamos agora frente a Djedah, o mesmo é dizer Meca. Eis por que me lembrei da expressão "se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha". Assim, não sabendo ainda o que se passou a noite passada, vou agora mesmo à procura dos vigilantes e dos snipers para lhes perguntar. Devem estar no deck 8, o que coincide com o do bar. Melhor porque en passant... molha-se a palavra.

19/03/19, 07:10 - Pelas 4 da manhã, fui acordado por um cheiro forte que circulava pelo ar condicionado. Parecia cheiro a combustível. No nosso deck, só há camarotes exteriores mas os janelões (enormes) são fixos, não se podem abrir. Fui ao corredor tentar averiguar qualquer coisa e encontrei um membro da tripulação que andava de nariz no ar a fazer tanto como eu.

Deixei ficar a porta do camarote aberta para o caso de termos que sair à pressa mas, passada uma meia hora, o cheiro desvaneceu-se e desapareceu.

Eis como se mata uma quantidade enorme de gente adormecida se no sistema de ar condicionado algum danado puser um gaz letal.

Vou pedir uma explicação ao Comandante.

08:42 - O Comandante disse que tinham estado a pintar uma sala interior e que o cheiro vinha daí. Mandei dizer que o cheiro era de fuel, não de tintas.

Pediram desculpa e garantiram que a coisa não voltaria a acontecer.

É o que se vai ver...

20:20 - Há duas noites, o barco parou e houve barulhos que a Graça não conseguiu identificar. Soubemos hoje que estavam à nossa frente 3 ou 4 barcos suspeitos. Com os snipers devidamente a postos, o Comandante mandou fazer alto para ver no que a "coisa" dava.

Deu que os ditos suspeitos saíram da nossa rota para distâncias consideradas seguras e passámos sem mais histórias.

Já lá vão quase 48 horas e eu só tenho pena de ter passado por tudo isto sem me aperceber de nada.

20/03/19, 18:56 - Hoje de manhã, quando acordámos, estávamos atracados em Aqaba, extremo Sul da Jordânia.

Desembarcámos e encamionetámos numa viagem de 2 horas até Petra. Paisagem que me deixou na dúvida entre a Lua e Marte. E, mesmo assim, há quem tente a agricultura. Porquê? Porque não devem saber fazer mais nada.

Pergunta: Como é possível que a moeda jordana, o Dinar, valha US$ 1.50?

Resposta: Aldra! Valor determinado por Decreto, não pelas forças naturais da Economia.

Contarei mais quando chegar a casa.

Zarpamos hoje para - não sei bem quando - passarmos frente a Sharm el Sheik, extremo Sul da Península do Sinai, para nos fazermos de seguida ao Canal do Suez.

21/03/19, 10:56 - Estamos sentados no convés da popa a fugir do vento que sopra pela proa. A nascente (estibordo), as ondas do Golfo do Suez; a poente, a costa africana do Egipto.

A velhota baixinha sentou-se perto de nós, ao meu lado, pôs os pés em cima da banqueta que tinha à frente e ficou a olhar para o mar que foge por baixo de nós. Fez-me lembrar a minha Professora de geografia que no liceu nos falou dos tubarões que infestavam o Mar Vermelho e o Suez durante a viagem que fizera de Goa para Lisboa.

Cheguei-me à amurada e só vi água.

Virei-me para ela e disse-lhe em castelhano (a maior parte dos passageiros são espanhóis) e depois em inglês que não havia tubarões.

Não respondeu nem sequer acenou um cumprimento.

Deixei passar. Ou é superior e não me considera merecedor de conversa ou é apenas malcriada.

Daí a pouco, aproxima-se outra velhota e gesticula qualquer coisa que não entendi.

Realmente, nunca aprendi língua gestual, não consigo comunicar com surdo-mudos.

22/03/19, 21:27 - Demorámos 12 horas a percorrer o Canal de Suez no que foi um percurso interessantíssimo. Durante a parte desértica, chama a atenção uma linha verde paralela a ambas as margens que é claramente uma tentativa de combate ao deserto. Essa linha avista-se nitidamente mesmo em zonas onde nada mais existe. Mas na margem ocidental, a africana, sempre vão aparecendo povoações - umas pequenas e outras de certa dimensão. Nessa margem, a partir de certa altura, tudo passa a verde e a agricultura mostra-se pujante. É o delta do Nilo.

Na margem asiática, a do Sinai, a tal linha verde é contínua duma ponta à outra do Canal e o volume fantástico de obras em curso não a bule. Devem ser umas quantas cidades que vimos em plena construção para milhares e milhares de pessoas. Algumas delas são de vocação turística mas noutras vê-se pessoal da Engenharia Militar a trabalhar. Aqui no barco não encontrei quem me explicasse nada. A enorme ponte (parece a de VRSanto António) por baixo da qual passámos ainda não está inaugurada.

Seja o que for que esteja em construção, é muito grande e destinado a um desenvolvimento significativo do Sinai. Se tudo aquilo for agricolamente acompanhado com a equivalente dessalinização da água, admito que o futuro do Egipto seja risonho e que a malta passe a ter mais que fazer do que pensar em terrorismo.

Inch Allah!!!

23/03/19, 09:32 - Deixarei para mais tarde algumas reflexões que me ocorreram durante esta viagem que se aproxima do fim à velocidade de cerca de 15 nós.

Têm essas reflexões tudo a ver com as duas forças que se debatem nesta zona do mundo, a religiosa e a laica. Mas o conflito não é novo nem dá sinais de extinção imediata pelo que as minhas confabulações podem esperar mais uns dias.

Entretanto, para aligeirar um bocado a tensão provocada pela iminência pirática, fui à biblioteca do barco e meti-me por um romance de André Maurois (que não tive paciência para ler totalmente) mas donde tirei uma informação que chamou a minha curiosidade sócio histórica: "Foi pelas partes baixas de Luís XV que Mlle. Poisson foi alcandorada a Marquise de Pompadour".

Lembrei-me então de que a famosa loja lisboeta de roupa interior ostentando o título da Marquesa, se poderia, em alternativa e muito apropriadamente, chamar "La poissonnerie".

21:08 - Rumo ao Pireu (porto de Atenas), hoje à tarde passámos entre Rodes e Creta com tempo farrusco.

A caminho do restaurante, parecia que íamos grossos mas não chegámos a agarrar-nos às paredes. Não tínhamos bebido mas o mar quis dizer que estava lá em baixo.

Já sabemos que vai ser assim toda a noite e que só depois de passarmos o Cabo Sunion e entrando no Egeu é que a "coisa" vai serenar. Depois digo.

Para já, a festa continua com um concurso de sevilhanas que está animadíssimo.

Amanhã, logo pelas 7 da matina entramos pela terra de Péricles a dentro.

24/03/19, 12:13 – A viagem continua por outros bordos – os do barco ficaram no Pireu - e agora estamos a fazer horas no aeroporto de Atenas. Vá de petiscar uma moussaka e beber um copo ligeiro porque as bebidas fortes me fazem caspa.

No check in não me encontravam o lugar porque alguém nos ofereceu o upgrade. E num cruzeiro sem classes, já nos tinham feito upgrade na vinda. No barco, o nosso camarote também tinha muita classe. Assim, até eu gosto de uma sociedade sem classes.

21:04 - Ficámos a dormir em Madrid, só seguimos amanhã. É para quebrar o stress da pirataria.

Jantámos no hotel apesar de haver vários restaurantes nas redondezas.

Entretanto, chegou um casal de cães "Terra Nova" que estão a caminho duma exposição no México. LINDOS!!! Pretos e enormes, docemente mansos. Na recepção do hotel perguntaram-me o que é que eu pensava: se seriam os cães a dormir nas camas e os donos a dormir na banheira ou o contrário. Respondi que os perritos merecem dormir nas camas; os donos (um casal já de meia idade) que durmam na banheira, na retrete ou no bidé. Como quieran.

 

Março de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

(em Petra, Jordânia)

ARÁBIA FELIX – 2


HOLLYWOOD B



A questão que me coloco é a de saber se o Dubai é hoje uma réplica de Hollywood - não confundir com a inocente e lucrativa Bollywood de Bombaim - ou da Revolução Francesa.


De uma coisa, não tenho quaisquer dúvidas: aquilo nada tem a ver com a Arábia.

 

E se quanto à obra edificada, temos que reconhecer que tudo foi feito rapidamente e com grande euforia, há agora que perguntar como vai ser o futuro quando é sabido que a última gota de petróleo foi chupada há 6 meses.


Será o comércio suficiente para "segurar" todo aquele espalhafato?


Será o turismo capaz de financiar todo aquele estilo de vida?


Conseguirão os Serviços lato senso fundamentar um novo modelo de desenvolvimento?


Duvido da plausibilidade de cada uma e de todas as hipóteses anteriores e temo que do "bluff" se passe para um realismo abissalmente contrário ao cenário que mais nos agradaria, aos ocidentais.

 

E se algo desagradar aos ocidentais - sobretudo aos presenciais ou às interpostas pessoas - que "seguram" tudo aquilo e lhes parecer que o sonho acabou e corre o risco de se transformar em pesadelo, não faltará ocasião para se perguntarem para que lhes servem as pernas e procurem novas paragens.


Sem os ocidentais, o Dubai tende a regressar ao reino medieval que era até há bem pouco tempo.


E porquê tanto negativismo neste meu prognóstico? Porque o meu diagnóstico é breve: nada daquilo tem qualquer coisa a ver com a Civilização Islâmica e nem sequer com alternativas orientais.


Então, o meu leitor dirá que a China segurará o Dubai no dia seguinte ao abandono dos ocidentais.


E eu respondo: tomara a China segurar-se a si própria, quanto mais segurar outros; o desinvestimento externo chinês já começou, o castelo de cartas já treme.

 

Como dizia o céguinho, "a ver vamos..." mas, entretanto, fico muito céptico porque não vejo os súbditos (numa monarquia não há cidadãos mas sim súbditos) dubaianos a evoluírem no sentido de conseguirem substituir os ocidentais na componente produtiva da vida; na do consumo, sim, até nos ultrapassam.

 

Mas como nós sabemos por experiência própria, numa economia pouco produtiva (caso do Dubai depois de chupada a última gota de petróleo), o Consumo não é motor do desenvolvimento mas sim da bancarrota. Portanto, deveria haver um muito amplo debate sobre o novo modelo de desenvolvimento daquele Emirato. Só que a expressão "muito amplo debate" é típica de democracia e isso é coisa inexistente no Dubai.

 

Então, como dizia Karl Popper, "resta-lhes irem para o Inferno". E o "Inferno" muçulmano será por certo algo que se assemelhe à Revolução Francesa.

 

Eis como se fecham as portas de Hollywood e se afia a guilhotina.

 

Mas, por enquanto, tudo exibe pujança e dá gosto ver. E eles até mostram as fotos do antes e nós gostamos de ver o depois.


Os árabes chamam-se uma infinidade de nomes pois que "ibn" significa "filho" e eles ostentam a ascendência até quase ao Adão. Sim, claro, apenas a linha masculina. Perguntados, não me esclareceram de como se resolve o problema de quando a linha sucessória masculina de um «rei» é interrompida. Fiquei a crer que o problema é de resolução fácil: um golpito de Estado e ZÁS! Venha outro sem problemas no nome.

 

Sheik Mohammed.png

 

Mas este simplificou as coisas e reduziu tudo a Mohammed bin Rashid Al Maktoum o que, na prática, significa que ele tem Mohammed como nome próprio e que é filho de um tal Rashid da família Maktoum. Os Maktoum são há algumas gerações os donos daqueles areais que este transformou numa Hollywood nº 2 mas sem «woods» (pelo menos, por enquanto). Na intimidade, chamam-lhe apenas Sheikh Mohammed.

Nascido a 15 de julho de 1949, é desde 2006 também primeiro-ministro e vice-presidente dos Emirados Árabes Unidos. É dono de 99,67% da Dubai Holding.

 

Para saber mais, ver

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mohammed_bin_Rashid_Al_Maktoum

 

Então, foi a partir da década de 90 que o boom se deu e das dunas se fizeram arranha-céus, marinas, o aeroporto, a dessanilização da abundante água do mar, o ajardinamento (mais do que a arborização), as super-avenidas, o novo canal que atravessa a cidade, a "little Venice", a "Palmeira" que é um conjunto de linhas de areia devidamente consolidadas pela engenharia holandesa onde o luxo impera em casas boas, muito boas, óptimas e fantásticas, hotéis de muitas estrelas e etc.


O Emir tinha como objectivo fazer construir também outra "Palmeira" com o quádruplo do tamanho desta que existe e que me pareceu enorme mas o projecto ficou no tinteiro por causa da crise de 2008. Entretanto, está em construção (pela engenharia holandesa) um arquipélago artificial de 360 ilhas representando o mapa-mundo. Cada ilha será vendida em bloco. Se algum dos meus leitores tiver por aí uns milhões de Dólares ou de Euros, não deixe fugir esta oportunidade de ... os perder nas salsas ondas do Golfo Arábico.

 

Mas nem tudo é fútil. Assim, o Dubai passou a ser um centro de treino de camelos de corrida (as corridas propriamente ditas - e respectivo filet mignon que são as apostas - fazem-se no Abu Dhabi onde ficam as massarocas) e num centro de criação de ónixes (primos menores das palancas angolanas) contando-se por cerca de uma dúzia de animais - e disse! Mas se houvesse mais animais, seria perigoso fazer os rallies completamente desvairados em que nos levaram pelas dunas. Aí, sim, a adrenalina soltou-se em grande e numa das breves paragens que fizemos, uma velhota (um mês mais velha que eu) brasileira dizia-me: - Jovem (o jovem era eu) isto está a mortificar todas as frustrações da minha vida.

 

Depois de vermos o pôr-do-Sol do alto daquela duna muito conhecida naquele deserto, descemos por ela a baixo e entrámos num acampamento de beduínos para jantarmos e vermos um espectáculo de folclore. À falta de «mounting block», não consegui subir para o camelo que estava ali mesmo à minha espera. E a velhota a chamar-me «jovem»… O cameleiro disse-me para eu pôr um joelho no flanco do dromedário mas eu não sei o que é isso de montar à joelhada, não quis magoar o bicho com um joelho pelas costelas a dentro e desisti. Fica para quando eu for mais novo.

 

Por aqui se vê a «gentileza» com que os animais são «acarinhados» pelos joelhos dos turistas e, pior, com o beneplácito e até incitamento dos cameleiros. Ou seja, não é por eu não saber falar árabe que não debato a filosofia kantiana nem a política monetária emiratiana com os cameleiros.

 

Contudo, do Dubai, o que levo de mais negativo é o machismo misógino dos fulanos que impõem às mulheres o uso de vestes tão abomináveis como as burkas e outras que tais. E não me venham cá dizer que são uma minoria; digam, sim, que são poucas no meio duma multidão estrangeira que não é muçulmana. Quase que passam despercebidas mas falta o quase para que desapareça a misoginia.

 

O que levo de mais positivo é a coordenação entre a embraiagem, o acelerador e o travão que o nosso condutor fazia durante o rally desvairado por aquelas dunas além…

 

Finalmente, a questão da nacionalidade. Não perca o meu leitor o seu tempo a pedir a nacionalidade dubaiana pois esta só é concedida a quem seja filho de pai e de mãe dubaianos de gema; se for filho de um só da gema e o outro da clara, não terá sorte nenhuma, mesmo que nascido no Dubai. Ser dubaiano é mister de honra rara. Por mim, dispenso.

 

Regressámos ao barco a horas decentes depois do jantar e do espectáculo e zarpámos antes da meia noite.

 

Continua no próximo capítulo.

 

Março de 2019

17-Dubai-dunas de corrida.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(nas dunas de corrida)

ARÁBIA FELIX – 1


INTRODUÇÃO

Arábia-1.jpg

 

Saída pelas nuvens ralas de Lisboa rumo a Madrid onde almoçámos em Barajas à espera do vôo para o Dubai.


Vôo nocturno e chegada ao destino pela manhãzinha.


Sabíamos que toda a viagem seria de classe única mas coube-nos viajar em Executiva por alguma razão que não descortinámos. Terá sido a afabilidade habitual da Graça ou a respeitabilidade do meu bigode? Fica o mistério para que alguém o desvende.

Navio das Arábias.jpg


Encaminhados do aeroporto ao barco, o "Horizon Pullmantur" e devidamente instalados no nosso camarote (a meia nau, no deck do Comando), aí estamos nós a caminho da primeira "vuelta" (a organização é espanhola) finalizando com um rally e um jantar no deserto. Algumas curiosidades para contar. Não me deixem esquecer.

 

Zarpando já pela noite dentro, afocinhámos um pouco nas primeiras ondas do Golfo que desta banda lhe chamam Arábico (da outra, chamam-lhe Pérsico). Foi nos braços de Morfeu que as Senhoras cruzaram o Estreito de Ormuz (pareceria muito mal se se dissesse que nós, os homens, o tínhamos cruzado nos braços de Morfina).


Nasceu o dia atracado em Khazab, o primeiro "toque" no Sultanato de Omã. Muito que contar. Não me deixem esquecer.


Pela manhãzinha, chegámos a Mascate (a que os anglófonos chamaram Muscat por corruptela do que nos ouviam a nós, portugueses, pronunciar). "Vueltas y más vueltas", alguma coisa a contar. Não me deixem esquecer.


Estávamos a jantar quando vimos as luzes da cidade a fugir de vagarinho de um lado para o outro dos janelões do restaurante.


Navegámos dois dias até aportarmos a Salalah cujo nome adorei. Muito que contar. Não me deixem esquecer.


Seguiram-se cinco dias de pirataria... perdão, de navegação. Adrenalina e fiascos sucessivos. Não me deixem esquecer de vos contar.


Aqaba esperava por nós desde que o Lawrence a conquistou aos otomanos. Muito para vos contar. A ver se não me esqueço.


Retoma da navegação para conclusão do périplo da Península do Sinai, incluindo o Canal de Suez. Algumas coisitas para vos contar, não me deixem esquecer.

 

Travessia do Suez. Muitíssimo para contar, não me deixem esquecer.


Travessia do Mediterrâneo durante um dia e uma noite com tempo fanhoso. Se me esquecer, não será coisa de perigo.


Chegámos à terra do Péricles pela manhãzinha, desembarcámos, demos uma volta pela cidade "déjà vue" e rumámos ao aeroporto. Envionámos a horas, foi a horas que as rodas foram para o ar e aqui estou eu a escrever esta introdução porque os headphones estão de férias e os prelúdios de Chopin primam pelo silêncio.


Se tudo correr como previsto, chegaremos a Madrid pelas 17,50 h. locais.; se não, não.


Depois conto. Não me deixem esquecer.


Inté.

 

Março de 2019

Arábia-3.png

Henrique Salles da Fonseca

(Canal de Suez)

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